O engenho de Galileu

O leitor pode culpar minhas obsessões, mas não consigo deixar de ver uma simbologia na publicação do livro de Galileu Galilei, Diálogo sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo Ptolomaico e Copernicano (editora 34). A obra é de 1632 e a tradução brasileira só foi feita em 2001 por Pablo Rubén Mariconda, tradução que agora ganha edição voltada ao público mais amplo. Quer dizer que até este século os leitores brasileiros eram obrigados a consultar edições de outros países, o que significa que poucos o fizeram espontaneamente. E um idioma precisa se enriquecer de traduções de grandes prosadores, o que Galileu, como notou Italo Calvino e como essa tradução demonstra, seguramente foi. A dedicatória do tradutor diz tudo: "A meu pai, Letizio Mariconda, que tanto sonhou com o Diálogo em português". Qual é, então, a simbologia? A de um país que insiste em dar pouco valor à ciência e à prosa científica, entre outros motivos porque colonizado durante a mesma Contrarreforma que condenou Galileu.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2011 | 00h00

A introdução de Mariconda é preciosa por vários pontos. O maior deles é a descrição de como a pesquisa e a literatura de Galileu significaram não apenas uma mudança científica, mas acima de tudo cultural. A defesa que o Diálogo faz do geocentrismo de Copérnico tem caráter e implicações filosóficas, como, para ficar em apenas mais um exemplo, a teoria da seleção natural de Darwin. "Até Copérnico, pode-se dizer que as próprias categorias do pensamento estão organizadas em torno da afirmação de nossa posição central no universo", escreve Mariconda. É por isso que Galileu defende a matemática dos ataques que recebe dos teólogos, os quais querem "salvar as aparências", ou seja, impedir que os engenhos da razão mostrem que os sentidos são enganados, pois a visão católica e aristotélica era a de que apenas Deus veria detrás dos fenômenos sensíveis.

No Brasil, onde cientista não é considerado intelectual, opinião própria é artigo raro e o ensino fracassa redondamente em transmitir conceitos e operações matemáticas, mostrar esse valor de Galileu na mudança da mentalidade humana - a troca do dogma pela pergunta, do sermão pela observação - seria essencial. É comum ouvir, nesta cultura contrarreformista, que temos de "conciliar" religião e ciência, pondo a ênfase mais na arrogância da ciência do que da religião, esquecendo como as doutrinas religiosas trabalham com descrições do mundo natural e combateram a liberdade científica, travestindo muitas vezes esse combate de loas à humildade. Há um viés antirracional na mentalidade brasileira, um dos países menos seculares do planeta, ainda que se considere "do futuro". Galileu, como Darwin depois dele, diz pela boca de Sagredo que não vê por que a Terra seria menos nobre e admirável por sofrer "tantas e tão diversas alterações, mutações, gerações, etc. que nela acontecem incessantemente". Que a Terra se mova é o que a faz viva.

Cadernos do cinema (1). Fui com os filhos ver O Planeta dos Macacos - A Origem, de Rupert Wyatt, e gostei muito. É uma alegoria da evolução dos primatas em humanos. James Franco é um pesquisador que, ansioso para curar o Alzheimer de seu pai, desenvolve uma injeção que provoca mutação genética num chimpanzé, Caesar, que gradualmente adquire faculdades humanas, ao mesmo tempo que mantém a resistência imunológica e a agilidade física dos macacos. Vemos Caesar desenvolvendo intensa empatia com outros seres (a ponto de tomar as dores do velho e defendê-lo passionalmente do vizinho), estendendo habilidades para ferramentas (Miguel Nicolelis aplaudiria) e, até, no final, se expressando verbalmente (e é interessante que sua primeira palavra seja "Não!"). E o vemos junto a outras espécies de símios ganhando o poder de liderança, peitando o macho alfa dos chimpanzés, se comunicando com o orangotango e atraindo para si o forte gorila; mais importante, dando um senso de estratégia ao grupo tribal, como na cena da ponte. Daí seu nome, que remete a cesarismo, pois se impõe ao topo da hierarquia em torno do projeto pessoal de se vingar da instituição que levou sua mãe à morte.

Os efeitos impressionam pelo refinamento, não pelo exagero; um bom ator de verdade, Andy Serkis, empresta expressividade para que os animadores digitais façam dele um macaco com semblante humano, em especial um olhar dirigido e significativo. Ele fica a meio caminho entre homens e macacos, o que não lhe permite criar helicópteros e sinfonias, mas o mantém mais perto da natureza. Neste aspecto, o filme tem aquela velha ideologia rousseauniana de Hollywood, segundo a qual a ciência passa para o lado do mal quando se arroga a interferir demais no curso da natureza. Não que a crítica à manipulação genética comandada por interesses meramente lucrativos - que precipita a empresa a querer usar o remédio em humanos, ignorando as diferenças inclusive negativas em relação aos símios - não seja razoável, mas o que vale o filme é o processo que mostra decorrer em Caesar. Deixa-se de lado um assunto fundamental, a sexualidade (ninguém flerta com Caesar, nenhuma Cornélia), mas todo o resto está lá. E não é pouco.

Cadernos do cinema (2). De Melancolia eu esperava mais, não menos, em parte porque eu tinha lido que nele Lars Von Trier deixou de lado a violência grand-guignol de Anticristo e voltou a um estilo mais parecido com o do Dogma. De fato, as cenas do casamento, com câmeras tremidas em meio à família desestruturada, lembram o movimento dos anos 90; desde a abertura, com as infinitas manobras da limusine, até a amargura da mãe e o sumiço do pai, mergulhamos gradualmente nessa realidade íntima. Chegamos até a entender parte da inclinação depressiva de Justine (Kirsten Dunst), no dia em que se casa e ainda é promovida, porque também vemos como seu marido e seu emprego são "chatos como uma calçada", na frase de Flaubert - embora não entendamos o comportamento da noiva, que ultrapassa o mau-caratismo.

Mas, principalmente a partir da segunda metade, dedicada à sua irmã (Claire), quando vemos o efeito sobre as duas da aproximação de um planeta chamado Melancholia, vemos o Von Trier de sempre, com sua arrogância e misoginia. Os homens são meio bobos e monetaristas, mas também confiantes e engenhosos; as mulheres, no entanto, mais uma vez são criaturas controladas por forças maiores, seja a melancólica Justine seja a neurótica Claire, que tem um surto de histeria com a possibilidade de perder seu mundo aparentemente perfeito. As imagens "cósmicas", como em A Árvore da Vida, beiram o kitsch; os diálogos dizem coisas como "A Terra é ruim. Estamos sós no universo"; e o excesso de pausas e lentidão dão um tom pseudoprofundo à narrativa, embalada por Tristão e Isolda, apesar da ópera de Wagner tratar do destino de um casal sexualmente atrelado. Os nazistas usaram muito Wagner, Lars Von Trier elogiou a arquitetura nazista de Albert Speer. Mas há uma insuperável distância entre a grandeza trágica de Wagner e a arte grandiloquente e apocalíptica de Von Trier.

Por que não me ufano (1). Que ninguém tenha dúvida de que não existe na classe política o menor compromisso contra a corrupção, a não ser até um determinado ponto aonde a opinião pública a obriga a se mover. Que Jacqueline Roriz não tenha sido cassada porque o crime que foi flagrada cometendo aconteceu antes de ter sido eleita, eis um argumento de um cinismo insuperável. Dele se depreenderia, por exemplo, que ela vá ser de alguma forma julgada e condenada... E desde quando o fato de um representante público ser ladrão antes ou depois da eleição muda o fato de que ele não tem moral para representar o público? O Executivo não fica atrás. Se quisesse mesmo fazer uma faxina, a presidente Dilma Rousseff deveria tomar a decisão de cortar e muito a quantidade de cargos públicos "de confiança" (sic), nomeados política e não tecnicamente; derrubar de 20 mil para 2 mil, como se tem nos países desenvolvidos.

Sobre a queda dos juros, só um ortodoxo doentio não comemora a queda de 0,5 ponto anunciada para a Selic nesta semana. Afinal, temos a maior taxa de juros do mundo e com folga. Mas só um heterodoxo ingênuo não percebe que os motivos técnicos que poderiam ser alegados - como o desaquecimento da produção, que poderia levar a uma queda do ritmo da inflação - não batem com a postura que o BC vem adotando desde há muito tempo. A presidente foi a primeira a dizer que não daria margem para a inflação, a qual dificilmente não vai bater no teto da meta. O governo está de olho mesmo é na crise mundial, que costuma afetar muito o Brasil e pode trazer um PIB ainda menor até o final do ano.

Por que não me ufano (2). Vou a alguns lugares e ouço algumas histórias que me põem a pensar de novo sobre a cafonice consumista dos endinheirados brasileiros, ou paulistanos em particular. As mulheres vão na onda do "ão": cabelão, oclão, bocão, peitão, carrão. Gastam milhares de reais em maquiagem e cabeleireiro, só usam grifes, repetem as mesmas cores que a indústria decretou estar na moda. Os homens são todos parecidos também, sempre com semblante mal-humorado, como se apenas tolerassem o mundo ao redor, em especial os serviçais que lhes atendem. No shopping Cidade Jardim, me sinto numa ilha da fantasia, na qual os visitantes estão dispostos a pagar por qualquer coisa muito mais do que ela vale, de cafezinhos de R$ 15 a bolsas de R$ 40 mil, bem mais caras do que no exterior.

Sei que a indústria da beleza não para de crescer no mundo todo, apesar da crise, e sei que vivemos em tempos que dão mais valor às aparências do que às inteligências. Não tenho nada contra, ou melhor, tenho tudo a favor de se vestir bem, de se cercar de coisas bonitas, etc.

Mas só posso chamar de mau gosto esse mundinho narcisista, esnobe, que não apenas vira as costas para a realidade social, mas também para a própria elegância.

Aforismo sem juízo

Não há nada que cause mais infelicidade na maioria dos seres humanos do que ver a felicidade da minoria.

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