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O enfant terrible da cinefilia francesa

Cineasta Luc Moullet vem ao Brasil para retrospectiva de sua obra

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2011 | 00h00

Luc Moullet, hoje com 73 anos, foi um dos enfants terribles dos Cahiers du Cinéma. Como a revista não era exatamente conhecida por evitar a polêmica (muito pelo contrário, a buscava até como forma de autopromoção), Moullet, que lá começou a escrever aos 18 anos, sentiu-se um peixe em águas familiares. Um tubarão, na verdade, com sua pena temível e gosto pelas polêmicas. Como tantos outros críticos dos Cahiers - a começar pelos mais famosos, Truffaut, Godard, Chabrol, Rivette e Rohmer - Moullet iniciou a carreira escrevendo sobre cinema e terminou por dirigir os próprios filmes.

De pouca circulação fora da França, sua obra, dez longas e vários curtas, poderá ser conhecida a partir de hoje, quando começa a retrospectiva do CCBB em sua homenagem. O diretor estará no Rio dia 11 e em São Paulo dia 16 para encontros com o público, no Centro Cultural Banco do Brasil. É a segunda vez que Moullet visitará o Brasil. Aqui esteve, em 1986, para uma "minirretrospectiva", no Rio. Desta vez, ganhará mostra completa. Moullet conversou com o Estado, por telefone, de sua casa em Paris.

Você é conhecido como cineasta, mas talvez ainda mais como crítico de cinema na fase de ouro dos Cahiers du Cinéma. Acha que ser um crítico prepara terreno para se tornar cineasta?

Sem dúvida. Houve uma época em que era muito difícil se tornar diretor de cinema. Estamos falando de 1955. Escrever críticas era um primeiro passo, enquanto se aguardava a chance de dirigir. A partir de 1958-59 tudo ficou mais fácil.

Essa foi uma conquista da nouvelle vague, não? Dar oportunidade aos jovens críticos de se iniciar na realização...

Sem dúvida. Depois do sucesso de Os Incompreendidos (Truffaut), Acossado (Godard) e Os Primos (Chabrol), os produtores vinham de joelhos implorar aos outros críticos dos Cahiers que se iniciassem na direção (risos).

Acha que todo crítico aspira à realização ou isso é um mito?

Não. Grandes críticos não dirigiram nem quiseram se tornar cineastas, como André Bazin, que tinha um projeto de documentário aos 37 ou 38 anos, mas acabou não o fazendo. Há exemplos em toda parte. Ser crítico e depois realizar é antes exceção do regra.

Falemos um pouco do seu cinema, já que é um crítico que se tornou cineasta. É influenciado pelo chamado cinema B americano?

Não apenas. Entendo que meus filmes se ligam à cultura inglesa, sobretudo ao humor inglês.

Há também a ligação com Jacques Tati e Alfred Jarry, não?

Sim, dizem que sou ligado a Jarry porque gostávamos de andar de bicicleta juntos (risos).

Soube também que você admira o trabalho do brasileiro Jorge Furtado, não por acaso um diretor que trabalha bastante no registro do humor crítico. O que conhece dele?

Conheço os curtas e os três primeiros longas. Tenho grande admiração por Jorge, em especial pelo curta Ilha das Flores. Vi também A Matadeira (sobre um episódio de Canudos) e também um curta sobre uma pessoa que tenta voltar à sua casa em Porto Alegre e encontra muitos obstáculos para isso, pois tudo está cercado pela obsessão da segurança - Ângelo Anda Sumido.

E quais outros realizadores brasileiros você conhece?

Infelizmente, só os do passado. Gosto muito do primeiro filme de Sérgio Ricardo (Este Mundo É Meu, 1964), os filmes de Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, Ruy Guerra e, claro, de Glauber Rocha. O recente, não conheço - à parte Furtado.

Uma de suas grandes polêmicas na época dos Cahiers foi a defesa apaixonada de Samuel Fuller, que a crítica de esquerda considerava fascista. Como foi essa história?

Ele havia feito cinco filmes considerados anticomunistas. Mas era um anticomunismo bastante abstrato. Ele era, acima de tudo, um provocador.

Hoje, Fuller é um cineasta bastante admirado pelos cinéfilos, mesmo aqui no Brasil.

Sim, aliás, ele filmou no Brasil, um filme jamais concluído, Tigrero, em Mato Grosso. Há imagens rodadas numa região não muito distante de Brasília, eu acredito. Encontramos algumas dessas imagens de Tigrero em seu filme Shock Corridor (Paixões Que Alucinam, 1963).

Você o considera um cineasta contemporâneo? Ou datado?

Todos os grandes cineastas têm um valor contemporâneo. Por exemplo, ele fez filmes sobre a loucura, e a loucura é muito presente no nosso mundo atual.

E às vezes os debates políticos se circunscrevem ao seu tempo.

Foi o caso. Alguns dos filmes de Fuller não puderam estrear na França da época, bastante dominada pela cultura comunista. Depois do Arquipélago Gulag (obra de Soljenitsyn), essas posições ficaram mais moderadas.

Acha que o cinema político ainda tem lugar no panorama do cinema contemporâneo?

Sim. Só para voltar a Furtado: Ilha das Flores e a Matadeira têm valor político. Não se trata de pensar em partidos políticos, mas de comentários sobre a política e economia mundial. Além disso, nesse particular, devemos desconfiar dos filmes que se sustentam apenas por seu conteúdo, por melhor que ele seja, sem consideração para com a linguagem cinematográfica. Estes sim são datados.

Não é o caso de Godard.

Ele sempre se reinventa. Basta ver seu recente Film Socialisme, sempre plugado no presente e experimentando com o vídeo e as texturas de imagem.

 

 

LUC MOULLET, CINEMA DE CONTRABANDO

CCBB. Rua Álvares Penteado, 112, 3113-3651. R$ 6. Até 20/2.

 

 

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