Clayton de Souza
Clayton de Souza

O encontro dos mestres

Almir Mavignier e Alexandre Wollner fazem exposição sob o signo de Max Bill

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2010 | 00h00

Dois pioneiros do movimento concreto brasileiro se encontram depois de 20 anos na Dan Galeria para comemorar os 60 anos do construtivismo no País, reunidos sob o signo do mestre de ambos, o suíço Max Bill (1908-1994), primeiro prêmio na 1.ª Bienal de São Paulo (1951) - frequentemente apontado como o artista que precipitou a abstração no Brasil. É um encontro histórico, emocionado, o desses dois discípulos que viraram mestres, assinando trabalhos autorais imediatamente reconhecíveis por sua originalidade. Almir Mavignier, de 85 anos, mora na Alemanha desde 1965. Ficou por lá, em Hamburgo, logo após sua consagração europeia na Bienal de Veneza de 1964. Já o amigo Alexandre Wollner, de 82 anos, selecionado em 1953 por Max Bill para estudar na Escola de Ulm, sucessora da Bauhaus - também frequentada por Mavignier - resolveu voltar em 1958, fundando em São Paulo o primeiro escritório de design do Brasil com Geraldo de Barros. Tornou-se um nome respeitado da área, criando a identidade visual de instituições como o Banco Itaú.

Trabalhos raros estão reunidos nessa exposição comemorativa organizada pelo marchand Peter Cohn, que há anos garimpa obras do movimento construtivista brasileiro. Ele, que expôs Lygia Clark, Lothar Charoux e juntou concretos e neoconcretos numa mesma mostra, trouxe para esta cinco obras raras de Max Bill pertencentes a colecionadores europeus, prestes a passar às mãos de privilegiados brasileiros. Depois que a coleção de arte construtivista do industrial Adolpho Leirner foi vendida para o Museum of Fine Arts de Houston, o Brasil precisa urgentemente reconquistar obras dessa escola, mal representada nos museus brasileiros. Pode ser que uma boa alma se lembre disso. Fica a sugestão.

Wollner, que desenhou o catálogo da coleção Leirner de Houston, Building on a Construct, anda preocupado com o desaparecimento de nossas referências visuais. "O que identifica hoje o Brasil: Pelé, carnaval, o calçadão de Copacabana, o bumbum?" Esse desabafo é um recado para os autores do rudimentar design que brasileiros engolem num tempo em que a atividade é confundida com publicidade. Wollner cita como (péssimo) exemplo o logo da Copa de 2014. "Aquelas mãos parecem as de alguém escondendo o rosto de vergonha", comenta, observando que nem mesmo original é o desenho. "Parece mais um troféu de basquete americano."

Wollner recebeu no ano passado a comenda da Cultura do governo, mas não sabe para que serve, pois há tempos não recebe uma encomenda institucional, ele que foi aluno de Albers e fundou a Escola Superior de Desenho Industrial da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que introduziu o moderno design no Brasil, em 1963. Na exposição, ele mostra uma série de plottergrafias baseada na última pintura que fez antes de sair do Brasil, em 1953, que lembra seu cartaz premiado da Bienal de 1954.

Docugrafias. Mavignier olha para ele e se volta depois para uma das suas três pinturas expostas na Dan, quadrados feitos de pequenos pontos que se expandem e contraem como numa obra de Albers, seu professor na Escola de Ulm. "São pinturas feitas com a ajuda de meu filho, que expõe comigo pela primeira vez no Brasil", diz Mavignier. O filho Delmar, fotógrafo, realizador de vídeos, programa digitalmente as formas do pai e essas ganham sua versão bidimensional pintada. Reunidos numa exposição que o Museu Afro Brasil abre amanhã, às 20 h, Almir mostra 51 docugrafias (gravuras digitais) e Delmar, 20 fotos e vídeos.

"É ótimo poder reproduzir essas pinturas, pois telas desaparecem em coleções privadas", justifica. "E, depois, não é o material que faz o novo, mas a ideia", conclui Mavignier. Mestre do cartaz, ele assina o da exposição do Museu Afro Brasil e afirma que sua prioridade ainda é o design. Não acompanha a arte que se faz hoje na Europa - "sou um autista, não um artista" -, mas ficou impressionado com a dedicação dos funcionários do museu de Emanoel Araújo. "Dá para ser otimista e esperar que o Brasil possa um dia ter educação visual."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.