O encanto da prosa científica

Cuidado, poetas. Os cientistas estão roubando suas metáforas. E isso, na opinião do biólogo Richard Dawkins, é muito bom. Dawkins é autor do livro Desvendando o Arco-íris (Companhia das Letras, 416 págs., R$ 34,50), que acaba de ser publicado no Brasil. O título parte da afirmação do grande poeta inglês John Keats de que Newton teria tirado o encanto do arco-íris ao decompô-lo num prisma. O que Dawkins diz é que não, é que a ciência pode ser um grande instrumento para revelar às pessoas o encantador engenho da natureza.Em nome dessa revelação, Dawkins concorda que o mundo editorial vive uma espécie de iluminismo, em que os cientistas mais e mais vêm a público e, com ajuda cautelosa das metáforas, conquistam leitores para a ciência, ainda que a maioria opte por gastar o tempo lendo horóscopos. De Oxford, por telefone, ele conversou sobre todos esses assuntos: O editor John Brockman disse em entrevista recente que o termo "intelectual", ao longo do século 20, pôde ser aplicado a um professor de lingüística mas não a Einstein. Agora vemos autores como o sr. e mesmo sites como o Edge, de Brockman, tomando a cena cultural. Estaríamos chegando à terceira cultura? Como podem a ciência e as humanidades voltarem a dialogar e se ajudar?Richard Dawkins - John Brockman criou esse conceito de "terceira cultura" pensando na famosa controvérsia entre C.P. Snow e F.R. Leavis sobre "as duas culturas". A terceira cultura seria a tentativa dos cientistas de levar o conhecimento científico para o público intelectualizado, ou mesmo um público ainda maior, num estilo claro e envolvente. É o que temos visto nos últimos 20 anos, e que agora está ainda mais forte.O sr. elogia o livro de Steven Pinker, Como a Mente Funciona, e suas idéias sobre as origens evolucionárias de nossas inclinações físicas. Pinker faz afirmações, por exemplo, sobre as diferenças entre homens e mulheres, como a de que os homens tendem a ser mais poligâmicos e as mulheres mais monogâmicas. O sr. não acha esse tipo de conclusão perigoso?Não acho, à medida que esse tipo de afirmação que Pinker faz, e eu mesmo fiz algumas vezes, diz mais respeito às diferenças entre machos e fêmeas, a tendências biológicas da espécie. O que é importante é notar que haver uma tendência não significa que o comportamento correspondente seja inevitável e obrigatório, que explique atitudes de cada indivíduo. Mas não é perigoso no sentido de ser uma generalização que pode ser mal aproveitada pelas chamadas ciências humanas?Sim, nesse sentido sim. Eu mesmo conheci uma mulher que estava revoltada contra essa idéia como se fosse uma condenação sobre ela. Devemos ficar bem atentos para que análises estatísticas não se tornem leis morais.Edward O. Wilson definiu certa vez a natureza humana como "um conjunto de predisposições genéticas". O sr. concorda? Como a terceira cultura poderia definir a natureza humana?Acho que depende de como se definir "natureza". Mas certamente a natureza humana é muito mais que um punhado de genes. Todos crescemos em sociedade, mudamos várias vezes, sofremos grande influência do ambiente.O sr. observa em seu livro que a física quântica é um tanto "estranha" para a mente humana. Como vamos poder conciliar ciência e o senso comum se a ciência se tornou tão complexa?A física quântica é realmente muito complicada. Eu mesmo não a entendo. Mesmo o grande físico Richard Feynman dizia que ela é estranha, e se ele não a entendia completamente ninguém mais poderia entender. Mas acho que é preciso dizer às pessoas que áreas como a física de partículas não se comportam de modo convencional, pelas regras que conhecemos. Talvez jogos de computador para crianças, em vez de imitar jogos reais, digamos o ping-pong, pudessem mostrar realidades distorcidas, como uma bola que se divide em duas etc.O sr. tem uma controvérsia com Stephen Jay Gould. O sr. discorda da teoria dele sobre a Evolução, a teoria do equilíbrio pontuado. Mas como ensaísta científico, como divulgador do darwinismo, ele é muito bom, não?Sem dúvida. O que acho é que o trabalho dele permitiu uma associação entre a idéia de que a Evolução age como um rápido gradualismo e os saltos provocados por extinções catastróficas ou por contingências. Ele mesmo não diz isso, mas muita gente atribui essa associação a ele. O rápido gradualismo não tem nada a ver com as extinções e as contingências, porque são eventos que ocorrem em escalas de tempo diferentes, com origens diferentes.Há uma passagem divertida em seu livro sobre o "preconceito astrológico" de muitas pessoas, que classificam as outras por signos e suas características. Será que nossa era de tecnologia e genoma não vai levar cada vez mais pessoas a reforçar essas superstições?Acho que muita gente lê horóscopo como entretenimento inofensivo, não por não acreditar na ciência. Mas ler todo dia aquelas generalizações talvez indique que as pessoas desejem que o mundo seja mais misterioso do que é. E o mundo é mais misterioso do que parece, mas a ciência é que pode mostrar isso. E muito poucas pessoas lêem ciência. Só por curiosidade: por que o sr. não cita Antonio Damásio em seu livro? Suas opiniões sobre o mundo virtual que o cérebro pode construir são muito semelhantes aos conceitos dele sobre "consciência ampliada" e a relação entre ela e os sentimentos e emoções. O que o sr. acha do trabalho dele?Escrevi Desvendando o Arco-íris antes de sair o livro mais recente de Damásio, O Mistério da Consciência. Mas pessoas que respeito muito me disseram que se trata de um excelente trabalho, e estou ansioso para lê-lo.O sr. escreve coisas interessantes sobre o uso de metáforas poéticas pela ciência. Mas o sr. mesmo reclamou da expressão que criou, "o gene egoísta", porque as pessoas tenderam a personificar esse gene por causa do adjetivo. Isso lembra o que o físico inglês Paul Dirac disse sobre a necessidade do ser humano de substantivar tudo, de dar nomes a tudo que percebe. Qual o limite de uma ciência poética?Isso é muito complexo. As pessoas tendem, por exemplo, a saber de um evento e querer saber o que veio antes. Se os físicos dizem que o universo teve origem no Big Bang, elas perguntam: mas o que veio antes do Big Bang? O físico pode pensar: "Não sei explicar isso a não ser pela matemática". Mas ele também pode tentar usar metáforas. Por exemplo: o que fica a norte do Pólo Norte? Não é suficiente, mas já ajuda muito.O público interessado em ciência parece crescente no mundo todo. Em parte, os cientistas-ensaístas teriam também ocupado o vácuo deixado pelas chamadas ciências humanas, cada vez mais cheias de jargão?Certamente. A ciência também é cheia de jargão, mas a impressão que tenho é que nas humanidades eles precisaram acrescentar jargões desnecessários, obscurecendo a linguagem. Talvez tenham feito isso para disfarçar o conteúdo do que dizem, que pode ser bem mais simples do que parece... Mas há um interesse genuíno por ciência crescendo no mundo todo. Não sei como é no Brasil. Agora começa a crescer também.Fico feliz com isso. Veja que há mesmo autores que não são cientistas mas que estão fazendo um grande trabalho de divulgação científica, como Melvyn Bragg (autor de On Giant´s Shoulders). E já podemos ver diversos escritores e dramaturgos que estão profundamente interessados em ciência e levam esse interesse para suas obras, como A.S. Byatt, Ian McEwan, Tom Stoppard. O sr. diria que, nesses últimos 20 anos, estaria havendo uma espécie de Iluminismo, que agora vem da ciência para o pensamento?Seria trabalhoso defender isso, mas, já que você falou primeiro, eu assino embaixo.

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