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O embaixador do vinil

Uma rádio de Nova York tem como DJ há 14 anos o alagoano Jassvan de Lima, um apaixonado por jazz, música brasileira e vinis, muitos vinis

Francisco Quinteiro Pires, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2011 | 00h00

Jassvan de Lima é a prova de que o mocinho não morre no final. Há 14 anos ele comanda Som do Brasil, um dos programas da WKCR, a rádio da Columbia University, que se considera a primeira FM da história. A programação do disc jockey alagoano dá preferência aos vinis. Baseados em Manhattan, os estúdios da WKCR adotam ainda aquele tipo de disco na transmissão. "Quando o CD chegou, as rádios jogaram os vinis fora, faltava espaço para guardá-los", diz. "Mas DJ que é DJ só toca vinil."

Filho da geração hippie, Jassvan está do lado da lei. Ele é o guardião informal de um dos maiores acervos de vinis de jazz do planeta. Por segurança, a WKCR (89,9 FM) mantém os discos em salas trancadas por portas com senha. Na entrada, colado à parede, um adesivo exibe para os colecionadores mais empolgados a seguinte advertência: "Os discos têm um lar. Não os abandone para os lobos. Devolva-os, seu assaltante disfarçado." As capas dos vinis estão marcadas com mensagens antifurto escritas a caneta hidrográfica. Na contracapa de Gotham City, disco de Dexter Gordon, o recado vem imbuído de raro bom humor. O saxofonista californiano está cabisbaixo, com a mão no rosto. "Veja, ladrão babaca em potencial. Você fez o Dexter chorar. Por isso devolva agora o disco para o acervo de jazz da WKCR." Segundo Jassvan, os roubos são compensados de certa maneira pela doação constante de discos.

"A coleção de música brasileira era bem maior, mas foi sumindo com o tempo, pois pegavam os discos sem retornar", diz. Entre os remanescentes, Tempo, do Tamba Trio, é o preferido do DJ alagoano. Para comandar Som do Brasil, programa de duas horas transmitido às quartas-feiras (às 23h de Nova York) - e que pode ser ouvido pelo site www.wkcr.org - Jassvan precisa recorrer à coleção particular mantida num apartamento vizinho à universidade. Frequentador da Academy Records, loja na 12th Street, ele vê os sebos como locais de encontro e "terapia que dispensa o psiquiatra."

"Todo mundo que gostava do vinil ficou com ele", diz. "Tal como a bossa nova, tentaram matá-lo, mas não conseguiram." A explicação para a sobrevivência é a humanidade desse produto à base de carbono e hidrogênio. "Ele continua porque existe o toque humano", diz. "Você erra com o vinil, ele pode riscar e o povo, assim mesmo, gosta do som." Embora tenha um iPod, tocador de música digital, Jassvan diz vetar o "aparelho frio" na WKCR. "Como DJ, não tenho saco de usar o computador." Ele é o disc jockey de um microfone, uma mesa de áudio e uma turntable, que aprendeu a usar há mais de quatro décadas.

Quarenta e um dos 63 anos de Jassvan foram vividos nos EUA. Ao chegar, ele se empregou num hotel no norte do Estado de Nova York, a 30 quilômetros de Bethel, onde ocorreu o Festival de Woodstock (1969). Ele e um amigo foram até lá meio desavisados e, após a curtição, voltaram a pé para o trabalho. Meses depois estava em Boston, onde, seguindo o exemplo de numerosos imigrantes brasileiros, lavou pratos e limpou chão. Foi como faxineiro em uma loja de discos que iniciou a coleção particular.

A convite de um amigo, se tornou DJ da WMFO de Boston. "Eram os anos 70 e havia no estúdio geladeira, cerveja, vinho, baseado..." Saiu de Massachusetts para viver na Europa. Acabou em Nova York, de onde acompanhou a cena musical. "Sergio Mendes, Airto Moreira, Flora Purim e Dom Um Romão foram os grandes responsáveis por divulgar a música brasileira nos EUA depois da bossa nova." Hoje, além de DJ, ele é produtor. O disco mais recente de Dom Salvador, The Art of Samba Jazz, inspirado no universo das gafieiras dos anos 50, tem Jassvan como diretor artístico.

Sem diploma universitário, ele se mantém como DJ da Columbia University se houver estagiário para ajudá-lo. Tendo 75% da audiência formada por norte-americanos, Som do Brasil é um dos mais procurados pelos universitários. No próximo dia 25, Jassvan vai realizar pelo décimo terceiro ano o Antonio Carlos Jobim Birthday Broadcast, 13 horas de transmissão ininterrupta de composições do Tom Jobim. Ele também divulga trabalhos mais recentes de brasileiros: os últimos contemplados foram Raimundo Penaforte e Clarice Assad.

Quando falta DJ ele é o substituto nos programas de jazz da WKCR. O lado jazzman de Jassvan, cujo ídolo maior é Chet Baker, se realiza com mais uma visita ao impressionante acervo. "Rádio é como uma droga", diz. "Só me sinto bem quando cercado de discos." Assim como os vinis, Jassvan não envelhece por estar conservado pela paixão.

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