O eloquente silêncio de Samuel Beckett

Em Resta Pouco a Dizer, os diretores Fernando e Adriano Guimarães, de Brasília, miram as peças curtas do autor

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2011 | 00h00

Falar em obsessão não chega a ser exagero quando se trata de dar conta da natureza da relação que os irmãos Fernando e Adriano Guimarães estabeleceram com Samuel Beckett. Afinal, de que outra forma explicar que sigam no encalço do dramaturgo irlandês há mais de 12 anos? Resta Pouco a Dizer, espetáculo que chega hoje ao Teatro do Sesc Consolação, surge como parcela dessa extensa pesquisa.

Desde 1998, eles vêm escarafunchando os textos do autor de Esperando Godot. Montaram quase todas as suas peças, esgarçaram os limites do teatro e terminaram por levar seus escritos até o território das artes visuais, valendo-se de performances, fotografias e instalações. "As questões suscitadas por suas obras podem ser retrabalhadas em outras linguagens", esclarece Adriano, que, ao lado do irmão, já mostrou os trabalhos em galerias e museus, como Museum of Installation Art, de Londres, e o Museu de Arte Contemporânea de Vigo, na Espanha.

Na parcela do projeto a ser vista em São Paulo, o foco recai mesmo sobre o teatro. Mais precisamente sobre três peças breves do escritor, apresentadas em tradução de Bárbara Heliodora. Catástrofe, que abre a encenação, mira o que seria um ensaio teatral. Ato sem Palavras II revela dois personagens - de personalidades antagônicas - que vivem dentro de sacos e cumprem rotinas rigorosamente idênticas.

Jogo traz à cena duas mulheres e um homem. Aprisionados em caixas, eles se revelam vértices de um triângulo amoroso. Sob o foco dos refletores, cada um tem a oportunidade de oferecer a sua própria versão dos fatos. Mas falam em ritmo tão vertiginoso que pouco se consegue apreender. Não por acaso, apontam os diretores, os três textos escolhidos se organizam em torno do mote "respiração".

Radical. As peças curtas foram produzidas por Beckett já no fim da vida e sintetizam, não raro de forma radical, os princípios que notabilizaram a sua dramaturgia. A morte, uma constante, continua à espreita. A natureza tragicômica persiste a atravessar seus personagens. E, como ele próprio já sinalizou em peças mais extensas, como Fim de Partida, a forma dramática pode encontrar mais eloquência no silêncio do que no discurso. "É nas peças curtas que sua linguagem se mostra mais esfacelada. Como se, ao longo dos anos, suas palavras fossem secando", pontua Fernando.

Um percurso cronológico pela ficção de Beckett evidencia a transformação. O que era virtuosismo linguístico encaminha-se, gradativamente, para uma dicção simplificada, devota da economia de vocábulos e sentidos. Sob essa perspectiva, a montagem dos irmãos Guimarães localiza-se no extremo da obra do escritor, na última fronteira de sua criação. Mas também não é impreciso dizer que existe na construção dos diretores um movimento oposto, que mira justamente a infância de Beckett e a arte que mais o marcou durante esse período: o teatro de variedades, aquele formato de espetáculo em que esquetes são entremeados de pequenos números de dança e palhaços.

Em Resta Pouco a Dizer, essa inspiração aparece na organização formal da encenação. Aqui, o intervalo entre cada uma das peças é ocupado por performances. E a questão da respiração, que já norteava a seleção do repertório, ganha ainda mais vulto. Com suas cabeças mergulhadas em baldes e aquários cheios de água, atores testam os limites do fôlego. Imprimem nos próprios corpos a noção de que o mais importante não está no que foi dito, mas no espaço entre uma palavra e outra.

RESTA POUCO A DIZER - PEÇAS CURTAS DE SAMUEL BECKETT

Teatro Anchieta do Sesc Consolação.

Rua Dr. Vila Nova, 245,tel. 3234-3000.

6ª e sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 32. Até 23/1.

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