O elo perdido entre jazz e blues

Aos 82 anos, o antenado Mose Allison está de volta com o CD The Way of the World

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2010 | 00h00

Um dos maiores ícones da música norte-americana do último meio século rompe silêncio de 12 anos com novo CD. Sim, aos 82 anos, Mose Allison está de volta com o maravilhoso The Way of the World (selo Anti, importado). Nascido e criado na fazenda dos avós na cidadezinha de Tippo, no Delta do Mississippi, berço essencial do blues, e aos 12 anos já compunha blues com os amigos negros.

Por isso é um blueseiro branco de voz a entonação negra, pianista originalíssimo, letrista mordaz e bem-humorado. A voz, que 50 anos atrás era límpida e sem vibrato algum, agora está "suja" - mas ele parece uísque, quanto mais velho, melhor.

Tamanhas qualidades fizeram dele uma lenda já a partir de 1957, quando lançou Young Man Blues. Pete Townshend, guitarrista fundador do Who em 1964, transformou-o no hino de uma geração inteira. E nesta esteira Mose virou figura decisiva, sobretudo para o mundo do rock. Entre seus fanáticos adoradores ingleses estão Van Morrison (que em 1996 gravou um CD-tributo), Clash, Yardbirds, John Mayall, Brian Auger & The Trinity, Elvis Costello, George Fame. Nos EUA, outra lista ilustre: Johnny Winter, Bonnie Raitt, John Hammond e Blues Image.

Como toda lenda, provocava espanto nos jornalistas que o ouviram antes de vê-lo no final dos anos 50 e achavam que o emergente blueseiro era negro. "Eu também pensei", relembra Allison rindo. Townshend diz que quando ouviu o disco Back Country Side, onde está Young Man Blues, correu, pegou a capa e soltou um palavrão: "Mas este fdp é branco!" Outro jornalista, europeu, espantado por ele ter feito filosofia na Universidade de Louisiana, sapecou: "Então você foi o primeiro negro a formar-se nesta universidade?"

O espanto o acompanha até hoje. Ainda lhe perguntam como um branco cantando blues se virava para sobreviver no chamado "deep south" dos racistas anos 40/50. A sua resposta: "Não tive problemas até chegar a Nova York. Foi quando me advertiram que não deveria ter feito isso. O fato é que jamais pensei que estava fazendo música negra. Só fazia aquilo que gostava."

Allison só topou voltar a um estúdio de gravação com os seus músicos preferidos. Assim, participam de The Way of the World Jay Bellerose na bateria e David Piltch no contrabaixo, o sax-tenor Walter Smith III (do grupo do trompetista Terence Blanchard) e o guitarrista Anthony Wilson. A filha Amy Allison faz dueto com Mose em The New Situation.

As 12 faixas distribuem-se por apenas 36 minutos. Suas canções raramente passam os 3 minutos. As linhas melódicas são simples e a estrutura é a do blues do Delta. Mas não é só blues; tem uma forte pitada de jazz (ele tocou e gravou com Stan Getz e outros jazzistas nos anos 50).

O piano de acentos bebop é supereconômico, tem afinidades com o de Jobim; brinca com dissonâncias como Thelonious Monk e flerta com o swing diferente de Horace Silver. Costuma grunhir e gemer enquanto toca ou ouve os parceiros. É o elo perdido entre o blues e o jazz, já disseram dele. Mas Allison é ainda mais do que isso. Está na confluência sutil do blues, jazz e pop. Por isso agrada a tribos antigas, modernas e pós-modernas. Depois que Townshend gravou Young Man Blues, gravadoras como Prestige e Atlantic o contrataram. Não deu muito certo. Mudaram-lhe o contexto sonoro. Allison gosta só de contrabaixo, bateria, guitarra de blues com cordas de aço e no máximo um sax.

Mantém o hábito de fazer covers de obras-primas do blues. Como a primeira faixa, My Brain, que retoma a melodia de um "spiritual", My Train, e usa a mesma sequência harmônica da célebre My Babe de Willie Dixon para anunciar verdades da velhice: "Meu cérebro está perdendo poder... 1.200 neurônios por hora." Em Modest Proposal, sugere férias para Deus. Mostra também seu piano único numa faixa instrumental, Crush.

As letras são diretas como em Some Right, Some Wrong, que brinca com conceitos opostos, como Cole Porter adorava fazer nos anos 20/30 do século passado. E, por último, além da novíssima safra de canções, Allison revisita Ask me Nice, um de seus maiores clássicos, gravado em 1961: "Viva e deixe viver, este é meu mote." A certa altura, pede: "Não me fale dos problemas da vida/ ou como você gostaria que as coisas fossem./ Não tenho problema em viver/ Morrer é que me preocupa."

A faixa-título é acachapante. Os versos dizem mais ou menos o seguinte: ouço que cada batalha é a que terminará com a guerra, vi milhares morrerem e jamais soube para que, e ainda assim nosso maior medo é que batam na porta; "it"s just the way of the world". Pois é, aos 82, Mose Allison continua antenado. E o que é melhor: cozinhando uma receita inimitável de blues-jazz-pop.

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