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Marcos de Paula/Estadão
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O eleito da Academia

O escritor e crítico Silviano Santiago recebe hoje o prêmio Machado de Assis

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2013 | 03h03

Aos 76 anos, o crítico, ensaísta e romancista mineiro Silviano Santiago atinge a plenitude. Hoje, às 17 horas, ele recebe da Academia Brasileira de Letras o prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra. Simultaneamente, a Editora Rocco lança Aos Sábados, Pela Manhã, reunião de 71 textos retirados da coluna que o escritor assinou por três anos no caderno Sabático. E, no dia 5, Santiago recebe ainda o título de doutor honoris causa pela Universidade do Chile - e na área de artes visuais.

Santiago, nesta entrevista, fala justamente da inserção da arte brasileira no mundo globalizado, de cosmopolitismo, da influência do historiador Aby Warburg e do filósofo Jacques Derrida em sua formação, além de comentar um dos melhores textos publicados em sua coluna, Sobrevivência de Vaga-lumes.

O cosmopolitismo norteou sua coluna no Sabático desde o início. Como seus leitores viam esse internacionalismo?

Esclareço antes: não data do novo milênio minha preferência pelo cosmopolitismo em arte. O leitor de hoje talvez conheça o ensaio O Entre-lugar do Discurso Latino-Americano, escrito em 1971, hoje no volume Uma Literatura nos Trópicos. Inspirado pelo prefácio de Antonio Candido à Formação da Literatura Brasileira (então minha referência), quis mostrar que tínhamos de compreender a produção nacional a partir da literatura comparada, desde que pensada com a ajuda das então recentes teorias pós-coloniais. Não há nas colunas ausência da contribuição nacional e menos ainda razão extemporânea para a discórdia ou a concórdia por parte do leitor. Lá trabalhei nova e terceira faceta do cosmopolitismo. A da "inserção" da arte brasileira no mundo globalizado, de que foi primeiro e genial exemplo Hélio Oiticica.

O papel de Aby Warburg em sua formação é inegável. O que Warburg tinha como historiador que os contemporâneos não têm?

Como Jacques Derrida e antes dele, Warburg é historiador que pensa menos o conceito que a diferença. De que forma? A história da arte é o tabuleiro de xadrez. A descrição do "movimento" das peças é tarefa da escrita em palavras e em imagens, a que se propõe o historiador de arte moderno. Warburg se interessa pelos movimentos da rainha e do rei. Gosta também de examinar as agitações da torre e dos bispos, sem descurar dos múltiplos e anônimos peões que apoiam a uns e outros. Vale dizer: Warburg transita com galhardia entre a cultura erudita e a popular, entre gregos e latinos, entre florentinos e indígenas do Novo Mundo. Percebe a estabilidade e a instabilidade do movimento que torna universal formações artísticas que, se providas de motor de arranque, se expressam pela diferença.

Uma de suas colunas, Sobrevivência de Vaga-Lumes, faz referência a Didi-Huberman, mas também a um belo texto de Pasolini que lamenta o desaparecimento de pirilampos na Itália industrializada dos anos 1970, uma crônica poética sobre a agonia de uma cultura. Como você vê essa profecia pasoliniana em relação ao Brasil?

A coluna faz também alusão ao conto de Guimarães Rosa, As Margens da Alegria, que narra a viagem de um garoto à cidade de Brasília em construção. Na capital imaginada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, a criança deslumbrada descobre a mata destruída pelos tratores e a construção em concreto da cidade. Já no quintal da casa dos tios, o menino vê surgir um belíssimo peru. A ave perambula entre as árvores abatidas e o concreto erguido. O menino se extasia. No entanto, o peru será alimento para o jantar em família. Ao cair da noite, querendo tornar eterna a experiência do Belo, o menino volta ao quintal para rever o peru. Tinha desaparecido. Em seu lugar, a cabeça degolada, atirada pela cozinheira. E pior: a cabeça está sendo bicada por uma duplicata do peru, farsa da ave magnífica entrevista pela manhã. No mundo em trevas, a criança levanta os olhos e vê o pisca-pisca do vaga-lume. Escreve Guimarães Rosa: "De novo, a alegria". No conto de Rosa estão o Brasil e seu futuro, as luzes e trevas da modernidade, morte e vida, beleza e crueldade, a fome humana e os animais, a natureza destruída e a cidade em concreto, os vaga-lumes de Pasolini e de Didi-Huberman, enfim, o Brasil a se inserir no universo da moderna teoria filosófica...

O último volume de Em Busca do Tempo Perdido acaba de ser lançado pela Editora Globo. Estou certo que você escreveria um texto sobre ele em sua coluna, se o 'Sabático' ainda existisse, ampliando a discussão do texto Atualidade de Proust, em que você comenta O Tempo Redescoberto filmado por Raul Ruiz. Qual seria a principal contribuição de Proust para a modernidade?

Não cabe numa coluna (numa entrevista) a discussão sobre a contribuição de Marcel Proust para a modernidade. Já se disse que Karl Marx é nosso horizonte intransponível. Pode-se dizer que Proust e James Joyce são nosso horizonte incontornável. Grandes pensadores dedicaram estudo, imaginação e reflexão a eles. Antes de mais nada, a coluna literária é exercício de discrição. No caso das obras notáveis, a atitude mais conveniente - segundo minha perspectiva, claro - é a de se colar a um estudo clássico ou em vias de se tornar clássico, ser temporariamente parasita e anônimo, a fim de que, por interposta pessoa e leitura, possamos nos aproximar da amplidão da obra notável. Despertamos no leitor a curiosidade para ir tanto ao original quanto às suas interpretações. Original e interpretações têm a riqueza e a complexidade que a discrição pode apenas apontar. Nas colunas bebi de um estudo que me pareceu contribuição corajosa e atual. Refiro-me ao ensaio Proust's lesbianism, da professora Elisabeth Ladenson (Columbia University), já traduzido ao francês e prefaciado por ninguém menos que Antoine Compagnon, professor do Collège de France. Interessou-me também mostrar que os críticos de cinema, se leitores de Ladenson, poderiam talvez escrever ensaio sobre o filme de Raúl Ruiz mais afinado com a atualidade das pesquisas sobre gender (orientação sexual).

Sua coluna recolocava em cena nomes fundamentais da literatura hoje um pouco esquecidos, entre eles o do poeta português Camilo Pessanha. Como entender a crítica brasileira que, sempre atrás de novidades, esquece a contribuição de nomes como o de Pessanha e do poeta Rui Knopfli, também citado em seu livro? Existiria um espírito de confraria entre os críticos que só dá visibilidade ao contemporâneo?

Não é gratuita a presença na coluna do italiano Giorgio Agamben. Lá está sua contribuição ao que julgamos ser hoje "o contemporâneo". O artista não se torna contemporâneo por coincidir com seu tempo, ou por reproduzir a si como imitação ou cópia da situação que o cidadão vive no cotidiano. Paradoxalmente, ele é contemporâneo ao instaurar um deslocamento espacial entre ele e a atualidade. Trazer Camilo Pessanha, o poeta lírico anti-imperial, mais corajoso que o colonialista Camões e o Pessoa defensor do Quinto Império, trazer Pessanha, exilado em Macau e opiômano, ou Rui Knopfli, poeta moçambicano a ler Manuel Bandeira e T. S. Eliot no exílio londrino, é mostrar formas profundas da nossa contemporaneidade. No espaço/tempo intervalar é que melhor nos qualificamos para avaliar a contemporaneidade. Paradoxalmente.

Ao escrever sobre arte contemporânea, você cita o livro Under Blue Cup, de Rosalind Krausz, lançado há dois anos. Ela, como você mesmo lembra, fez oposição ao "espetáculo" de meretrício artístico chamado instalação, investindo contra Catherine David e companhia. Como você vê a produção artística contemporânea brasileira e quem são os artistas que você colocaria numa lista de nomes essenciais no cenário brasileiro?

Se me permite uma metáfora, a movimentação do colunista no jornal tem a ver com o rodízio entre jogadores de voleibol, esporte a que me dediquei na juventude atleticana. Às vezes, o colunista saca para derrubar o adversário, às vezes levanta a bola para o colega, às vezes defende-a com garra e a passa modestamente para outro jogador brilhar na rede. O colunista só raramente corta. A coluna - a meu ver, é bom frisar - não tem a competência do julgamento peremptório, tarefa a que se dedica a "resenha", escrita no momento quente da recepção, ou o "ensaio", escrito no momento em que a obra já está apta a despertar a reflexão do estudioso, ou do especialista. Acrescento que as artes plásticas brasileiras conhecem um tempo de núpcias com o melhor da crítica nacional e internacional. Pobre literatura ou teatro ou cinema, em comparação. Dentro da tradição, destaco Lygia Clark, Hélio Oiticica e Lygia Pape. Na festa do presente, figuras como Carlos Vergara, Adriana Varejão e Rosângela Rennó. O futuro pertence ainda ao campo das resenhas e das bienais.

Você recebe nesta quinta o prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra. Você poderia dizer o que ele representa para você?

Já falei demais. Serei simples e direto. Feliz aquele que tem como padrinho quem mais admira.

AOS SÁBADOS, PELA MANHÃ

Autor: Silviano Santiago

Editora: Rocco (320 págs., R$ 36,50)

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