O eixo do terninho

NOVA YORK

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

04 Abril 2011 | 00h00

Hillary venceu a resistência da Liga Árabe, de um general e de um Secretário da Defesa para convencer Barack Obama a tomar a decisão de impedir um genocídio líbio. Na ONU, a embaixadora Susan Rice torceu o braço de diplomatas fujões para conseguir uma votação no Conselho de Segurança, pela zona de exclusão aérea na Líbia. Maria Nazareth Farani de Azevedo serviu almoço em homenagem à Prêmio Nobel da Paz de 2003 Shirin Ebadi, um aperitivo para o prato principal, encomendado por Dilma: o voto brasileiro na Comissão de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, contra o apedrejador de mulheres Mahmoud.

"O Rebu É Delas", como diria a vedete-filósofa Brigite Blair, do teatro de revista carioca. O elenco da nova produção americana em política externa brilha sem auxílio de plumas ou paetês. Usa terninhos de cores pasteis e inclui ainda, no Conselho de Segurança Nacional, Samantha Power e Gayle Smith. Lembro que Samantha Power, ganhadora de um Pulitzer com um livro sobre a resposta americana a genocídios, chegou a ser demitida da campanha de Obama, em 2008, porque chamou a então rival Hillary de "monstro".

Quem disse que mulher leva tudo para o lado pessoal? Quem disse também que agressão militar era coisa de homem? Na década de 90, Colin Powell foi encostado na parede por Madeleine Albright - ele queria lavar as mãos do massacre dos Bálcãs. Em março, Robert Gates preferia ter virado os olhos para as cerejeiras em flor na capital do que usar seu poder militar contra o cachorro louco Muamar.

Dilma parece ter dado um basta na realpolitik personalista que nos colocava em má companhia.

Mas a simplificação da narrativa no caso da Líbia coube à extrema direita americana. O suíno radialista Rush Limbaugh disse que a equipe masculina de Obama era composta de castrati, um bando de maricas empurrado para a ação militar pela jararacas.

Hillary Clinton, já acusada de prudência calculista, está longe de operar uma ação guerrilheira para neutralizar a frente da testosterona em Washington. E a nossa presidente ex-guerrilheira não vai começar a queimar sutiãs para mostrar o ao mundo o girl power brasileiro. O que Dilma e Hillary têm em comum é a desmontagem do estereótipo misógino da mulher emocional e pouco analítica. O que há de emocional em combater atrocidades no Irã ou na Líbia? O que há de feminino em promover os direitos das mulheres e as oportunidades de educação para as meninas?

Uma nova pesquisa do Instituto Gallup revela que Hillary Clinton é a figura mais popular do governo Obama. Os números: 66% dos americanos têm boa opinião da Secretária de Estado, enquanto só 54% aprovam o desempenho de seu patrão na Casa Branca. Com a mesma tenacidade demonstrada quando se livrou do papel de primeira dama traída para se candidatar a Senadora e depois a presidente, Hillary já visitou 79 países e transformou seu boeing num segundo lar. É preciso dar um desconto. Cuidar de política externa protege a figura pública dos constantes embates partidários domésticos, especialmente no rastro de uma recessão.

Hillary sofreu um apedrejamento severo da opinião pública quando tentou reformar o sistema da seguro saúde no primeiro mandato do marido Bill. Mas a Hillary de 1993 era outra. Além de inexperiente, ela se iludia com a possibilidade de uma mulher ser julgada exclusivamente por seu desempenho. Depois de ser ridicularizada por mulheres, sim, mulheres jornalistas da patrulha do estrogênio, em 2008 - por seu cabelo, seus terninhos, seu derrière vasto -, Hillary reapareceu como uma das armas secretas de seu ex-rival de campanha. Ela fez mais pelo governo Obama no exterior do que suas antecessoras Condoleezza Rice e Madeleine Albright fizeram por Bush e Clinton.

Um novo livro de título quilométrico propõe a superioridade das mulheres: Man Down: Proof Beyond a Reasonable Doubt That Women Are Better Cops, Drivers, Gamblers, Spies, World Leaders, Beer Tasters, Hedge Fund Managers and Just About Everything Else (Homem Por Baixo: Prova Além de Dúvida Razoável de que as Mulheres São Melhores Policiais, Motoristas, Jogadoras, Espiãs, Líderes Mundiais, Provadoras de Cerveja, Managers de Hedge Funds e Quase Tudo o Mais). O autor é Dan Abrams, um jornalista gatérrimo que não está exatamente sofrendo de falta de companhia. Não sei porque ele resolveu aderir ao besteirol da eterna discussão das posições sexuais - fora do quarto, bem entendido.

Os tons da nova coleção de outono em Brasília e primavera em Washington podem ser pasteis. Mas as decisões têm a solidez das cores primárias.

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