O ego e a democracia

"Tem um sentido grandioso de autoimportância, exagera conquistas e talentos, espera ser reconhecido como superior sem justificativa."

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2012 | 03h10

Primeiro item da descrição da patologia do narcisismo, no DSM, Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.

Em dezembro de 2010, fiz uma visita ao escritório - não ao consultório - do psiquiatra Peter Freed. Além de clínico, ele era professor de uma das melhores escolas de psiquiatria dos Estados Unidos, na Universidade de Colúmbia. Hoje é pesquisador do Instituto de Estudos da Personalidade, em Manhattan, e está escrevendo um romance. Naquela época, havia uma pequena polêmica sobre a remoção do Transtorno de Personalidade Narcisista da bíblia da doença mental, o DSM, na edição que sai em 2013.

Freed estava se divertindo com o bate-boca na mídia sobre a patologia do narcisismo e concordou em dar uma entrevista para o programa Saia Justa. Ele me contou que, o narcisista, por definição, não quer ser denunciado como tal, de modo que era comum os psiquiatras escreverem eufemismos nos prontuários, como "distimia", uma forma leve de depressão, para não afugentar o Narciso do tratamento. No outro extremo, lembrou um paciente cuja ilusão de grandeza estava fora de controle e reagiu assim, quando Freed lhe transmitiu o diagnóstico com a maior delicadeza possível: "Doutor, eu sou muito, mas muito mais narcisista do que o senhor imagina!" Até o diagnóstico do sujeito tinha de ser superior.

Quando perguntei ao dr. Freed quais eram os atributos básicos do narcisista, além de citar o sentido grandioso do eu, ele lembrou a necessidade de retaliar contra os que considera adversários, os que não entendem a sua grandeza. Hum.

O psiquiatra explicou também que o NPD, como é conhecido o narcisismo no jargão médico inglês, aflige os homens em maioria. Não existe uma explicação para essa diferença demográfica mas, especulou Freed, por biologia e cultura, as mulheres se preocupam mais com amor e os homens com o poder. "O narcisismo", disse ele, "é fundamentalmente, uma preocupação com o poder." Hum.

As mulheres tendem a apresentar sintomas mais leves, disse ele, como expressar insegurança sobre merecer afeto, algo que o narcisista consumado não consegue admitir. Assim, são consideradas narcisistas borderline ou fronteiriças, um transtorno mais fácil de tratar com psicoterapia. Hum.

Na semana passada, quando a jovem democracia brasileira foi mais uma vez testada, lembrei da conversa com Peter Freed. A separação de poderes, uma fundação sagrada do nosso sistema, foi tratada como um duelo de personalidades. Um juiz do Supremo Tribunal Federal aceitou ir ao encontro de um ex-presidente interessado em influenciar o julgamento do maior caso de corrupção política desde o governo Collor. Um ex-ministro do Supremo arranjou o encontro. E um ex-presidente achou natural dizer o que disse, mas depois disse que não disse.

Os envolvidos reagiram com a indignação dos pacientes do doutor Freed. Insensível ao trauma que provoca no equilíbrio das nossas instituições, o ex-presidente mandou dizer que seu "sentimento era de indignação". Sim, porque o que é a manutenção da separação de poderes, comparada aos sentimentos de uma pessoa?

Quando a crise se agravou, a resposta foi: "Você sabe que eu tenho muita gente que gosta (de mim) e alguns que não gostam". Um episódio  relevante para a história institucional do Brasil é reduzido a uma questão de afeto. Pelo presidente mais querido da nossa história recente.

Freed explica.

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