O efeito ilusionismo em um filme de assalto

As apostas e os truques de François Leterrier para sair do lugar comum

O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2013 | 02h07

Louis Leterrier - Louis quem? Não é um diretor cujo nome o cinéfilo tenha na ponta da língua, mas, na sua modéstia - leia a avaliação do ator Jesse Eisenberg na página ao lado -, Leterrier tem conseguido algumas façanhas. Provou que Jet Li, além de bom de ação, é bom de atuação em Cão de Briga e o seu Incrível Hulk é quase unanimemente considerado superior ao monstrengo esverdeado de Ang Lee. Leterrier assina agora Truque de Mestre. No original, o filme tem um título completamente distinto - Now You See Me, Agora Você Me Vê. O título original entrega o gênero, o filme de assalto. Em inglês, há uma sutileza. É, como diz o próprio Leterrier, um filme sobre o olhar.

Pode parecer esdrúxulo, porque os críticos não se cansam de dizer que Hollywood faz filmes de ação para os olhos, mas não para o olhar. Ocorre que Leterrier é francês - e a entrevista transcorre num clima descontraído porque é feita na língua de... Jacques Rivette (para pegar carona num grande cineasta que está sendo tema de retrospectiva na cidade)-, e mais que isso, é filho de François Leterrier, ator de um clássico de Robert Bressoon, Um Condenado à Morte Escapou, de 1959. Bresson adorava os atores opacos, que ele fazia falar num tom monocórdico. Não foram muitos os que fizeram carreira, depois dele - Anne Wiazemsky, de A Grande Testemunha; Dominique Sanda, de Uma Mulher Doce. O caso de François Leterrier é muito particular.

Licenciado em filosofia, tinha 30 anos ao trabalhar com Bresson. Virou diretor e fez alguns filmes interessantes, inclusive uma boa adaptação de um autor difícil como Jean Giono (Un Roi sans Divertissement) e um produtivo diálogo com os quadrinhos de Gérard Lauzier em Je Vais Claquer. O restante agrada menos à crítica, e François Leterrier fez até Adeus, Emmanuelle, com Sylvia Kristel e trilha de Serge Gainsbourg, em 1977. Seguiu filmando até meados dos anos 1990. O filho nasceu em 1970 - tem 43 anos - e admite que a profissão do pai foi decisiva para que ele também se tornasse cineasta.

A experiência do pai num grande filme de arte como o de Bresson era tema recorrente em casa, mas Louis foi ser assistente de Luc Besson em Joana d'Arc. Seus primeiros filmes como diretor foram produzidos por Luc - Cão de Briga e Carga Explosiva 2, com Jason Statham. É direto - "Nem todo mundo tem temperamento para ser Bresson, mas isso não significa que não aprecie o cinema dele, que é tão diferente do meu." Como diretor de ação, confessa que não se interessa só por pancadaria e movimento. "Gosto de dar consistência aos personagens, e isso se faz por meio do roteiro e da interpretação. Adoro atores, eu mesmo fiz alguns filmes como ator."

O que havia de interessante na proposta de Truque de Mestre era o fato de a magia invadir o filme de assalto. "Era como se (Georges) Méliès fosse o verdadeiro ladrão do banco." Só que, ao mesmo tempo que propõe o tema da magia, Louis Leterrier o desmistifica. "Temos o personagem de Morgan (Freeman) que desconstrói a mágica do grupo de ladrões, os Quatro Cavaleiros." Leterrier conta que o roteiro passou por alguns ajustes. "Queria mais conflitos entre os personagens e, de certa forma, menos reviravoltas. As que ficaram são frenéticas, mas ainda havia mais."

A ideia de desmistificar os números de mágica implica num convite para que o público veja o filme com outros olhos. "Daí o título, Agora Você Me Vê." Louis Leterrier sabe que não está reinventando o filme de assalto, mas lhe agrada colocar uma pedra no sapato do espectador. Tentou fazer isso no primeiro Fúria de Titãs, com Sam Worthington, e o filme tem cenas das quais se orgulha, mas ele reconhece que a transformação em 3-D não ajudou. Só produziu o 2, com Henry Cavill. Haverá o 3? "Pelos demais produtores, sim, mas tenho outras prioridades." / Luiz Carlos Merten

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