Jorge Bispo/Divulgação
Jorge Bispo/Divulgação

O efeito botika. Leia e ouça o livro

Escritor e frontman da banda Os Outros, ele cria universo de cidadãos transgênicos em Búfalo, seu segundo livro

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2010 | 00h00

No apagar das luzes da década, uma das belas estreias literárias de 2004, o carioca Bernardo Botkay, conhecido como Botika, volta a sacudir o marasmo da literatura pop com Búfalo. Em 2004, com Autobiografia de Lucas Frizzo (Azougue Editorial, 72 págs., R$ 22), Botika retomou um fio evolutivo da literatura que tinha estancado com José Agrippino de Paula lá nos anos 1960, com Panamérica.

Agora, com Búfalo, Botika tem um núcleo temático e amansa suas visões com micro-histórias de (des)encontros amorosos, por meio do personagem Búfalo. "Sensações malabarísticas pós situações adversas com mulheres incríveis", define o autor, que lança simultaneamente ao volume o novo disco de sua banda Os Outros, Pacote Felicidade (Bolacha Discos).

Botika concorda que Búfalo é, estilisticamente, menos dependente de um recurso que Agrippino inventou, o de "emprestar" personagens do mundo real (Xuxa, Fernandinho Beira-Mar, Pelé) e armar uma prosa pop com essa estrutura cervical. "No primeiro livro, foi puro jorro. Eu nem me sentia escritor enquanto escrevia. Não sabia que as palavras me tomariam de assalto mais adiante. O Búfalo eu escrevi tomado pela coisa", contou.

Búfalo também é um grande comentário social acerca da natureza da sociedade do espetáculo, como o livro de estreia. A "coisa" definida por Botika, pode ser a cidade, um Rio de gangues e cidadãos transgênicos (como os bonecos de Sebastian Bach, do filme Blade Runner), criaturas que um mundo convulsivo está criando, fusões de Madonna com Maradona, fetos e pinguins. Tudo pode ser também apenas o básico mundo das relações afetivas entre homens e mulheres. Às vezes tem ritmo de canção do Fausto Fawcett.

O primeiro livro do autor tinha mais escatologia em cascata: assassinato, violência, estupro, incesto, drogas, pornografia, coprofagia. Búfalo, que já estava sendo gestado antes de 2006, também tem violência desenfreada, mas não busca esse efeito de punk rock deliberadamente. Ele conta que, em 2006, achava que o livro estava pronto. "Mas não era o caso. Mandei o texto para Beatriz Bracher, escritora, que o devolveu todo anotado e cheio de observações, opiniões e possibilidades. Eu repensei o Búfalo. Tirei um livro de dentro do outro e gastei um tempo nesse processo de lanternagem (como os cariocas chamam o que os paulistas conhecem como funilaria). Depois disso, o resultado ainda passou pelo crivo de Eduardo Coelho, que era o editor da Língua Geral, e do atual diretor, Diogo Henriques. Ou seja, o corte final saiu há um ano. Depois foi o tempo que editora precisou para enfim publicar."

É um mundo de restos de cirurgias plásticas, de estraçalhamento e recondicionamento de membros e órgãos, de avós que contam histórias de gangues extintas. Um garoto se apaixona por uma mulher que o deixa em pedaços. O nome dela é Búfala.

Paralelamente a isso, Botika vai fazendo o circuito indie a bordo de sua banda Os Outros, da qual é cantor e compositor (tem ainda Vitor Paiva no baixo, Papel na guitarra, Eduardo Sodré, também guitarrista e Fabiano Ribeiro na bateria). Um som original, curioso, que por vezes soa como new wave, noutras como Jovem Guarda, às vezes Erasmo, outras uma Blitz pós-punk. O artista diz que pouca coisa aproxima escritor do frontman pop.

"Eu sinto um espaço bem largo entre uma coisa e outra. Na música, me atenho mais à melodia. A letra vai aparecendo conforme o canto, o assovio. Escrevendo um livro eu me sinto mais liberto, solitário. Sinto na literatura que nada pode me deter, apesar de eu ainda estar longe de uma soltura completa." Botika já escreve o novo livro, Calendário. Terá 365 páginas, uma para cada dia do ano. "A ideia consiste em fazer uma coleta de informações duvidosas (no Google e na Wikipédia) sobre os fatos históricos de cada dia do ano, como pessoas nascidas ou mortas em tal dia, fatos, feriados e tal. Depois, utilizo e distorço, como se estivesse oferecendo um calendário em que a história da humanidade, na verdade, fosse outra."

BÚFALO

Autor: Botika

Editora: Língua Geral 220 págs., R$ 34,00

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