Divulgação
Divulgação

O Dom ou onde começa a magia

Música é o tema do livro de Susie Morgenstern, que traz um CD

João Marcos Coelho , ESPECIAL PARA O ESTADO

06 de maio de 2011 | 06h00

A música como "abre-te Sésamo" da afirmação pessoal e da liberdade. Pode-se entender desse modo aquele que muito provavelmente será o melhor livro infanto-juvenil de 2011: O Dom, de Susie Morgenstern, com ilustrações de Chen Jiang Hong, que acaba de ser lançado pela Editora SM. São três as razões de tamanho entusiasmo com essa obra: 1) a linguagem ao mesmo tempo acessível e rigorosa de Morgenstern, norte-americana radicada em Paris. É um feito quando se olha as grosseiras escritas simplórias da maioria dos livros infanto-juvenis; 2) as ilustrações inteligentes e visualmente modernas do chinês Hong, também radicado em Paris; e 3) o magnífico CD que acompanha o livro, em que o ator Caco Ciocler não apenas lê o texto, mas interpreta cada um dos personagens, de modo admirável, com música de Louis Dunoyer de Ségonzac, Bach e Paganini. Tudo na medida certa, sem excessos nem faltas.

Veja também:

som Caco Ciocler lê trecho da obra Parte1

som Caco Ciocler lê trecho da obra Parte2

A história dá conta de uma caixa que o recém-nascido Oycher ganha em seu oitavo dia de vida e só poderá ser aberta quando completar 3 anos. A comunidade inteira - do mascate ao rabino, passando pelo escrivão e o sapateiro, entre outros - palpita sobre o misterioso presente. Aos 3 anos, o menino, até aquele momento mudo, abriu a caixa, apanhou o belo violino e começou a tocá-lo imediatamente. "O mistério tinha terminado, a magia ia começar", diz a história. "Qual magia?", pergunta-se Moacyr Scliar no curto e ótimo posfácio. "A magia da música, pois, nas mãos de um artista, um instrumento pode enfeitiçar."

O menino acaba músico de sucesso mundial. Não por acaso, o violino é o instrumento símbolo da extraordinária musicalidade judaica ao longo dos séculos. Uma arte que pode ser levada dentro da alma, onde quer que se vá. Esse belíssimo livro me remeteu a outro, para adultos, que nos ajuda a entender melhor essa relação especial dos judeus com a música. O musicólogo norte-americano Michael P. Steinberg (Ouvindo a Razão: Cultura, Subjetividade e a Música do Século 19, Ed. Princeton, 2006)) reclama da exuberância das artes visuais e da literatura na definição dos contornos da modernidade no século 19, que sempre empurraram para escanteio a música, por ela ter chegado meio atrasada a esse revolucionário banquete. E rapidamente elege a música como arte central na "construção da modernidade europeia". E faz a pergunta certa: "Por que a música, em sua "inabilidade (para alguns), recusa (para outros) de significar, articular, representar, tornou-se paradoxalmente a linguagem preferida da vida interior durante o longo século 19, de Mozart a Mahler?".

O que interessa aqui é a qualificação da música como linguagem preferida da vida interior, por isso mesmo central na cultura judaica. De Mendelssohn a Mahler, de Gershwin a Bernstein, entre tantos outros músicos e compositores geniais, a música do planeta seria com toda certeza muitíssimo mais pobre, não fosse essa indelével e característica criatividade de um povo artística e culturalmente privilegiado. O menino Oycher sabia bem, como escreve Scliar, que "esperança, talento e dedicação podem mudar nosso destino. Isto é o que nos conta a história, e ao fazê-lo, nos ensina a viver melhor".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.