O dom de se reinventar de um russo chamado Stravinsky

"A Sagração da Primavera é ponto de referência para todos os que querem estabelecer a certidão de nascimento do que se chama a música "contemporânea"." A frase célebre de Pierre Boulez, ainda hoje o "enfant terrible" da vanguarda mais radical, conta só o parto da música moderna.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2010 | 00h00

De fato, a estreia da Sagração em 1913 provocou escândalo e fúria, polêmica e glória praticamente imediata a Igor Stravinsky (1882-1971). Nos 50 anos seguintes, o russo encarnou todas as contradições do século 20. O pesquisador Richard Taruskin diz que ele "é para nós, hoje, mais do que uma pessoa; é uma coleção de ideias que possuem enorme autoridade na cultura musical do século 20". Gilberto Mendes o considera seu pai espiritual e um pós-modernista "avant la lettre", ou seja, antes de isso virar moda nos últimos anos.

Ele soube reinventar-se várias vezes durante sua longa vida criativa. Começou neoprimitivista e profundamente russo, na trilogia de música para os balés O Pássaro de Fogo, Petruchka e a Sagração, entre 1910 e 1913; poucos anos depois, assumiu a persona neoclássica em composições determinantes no período entreguerras, como O Canto do Rouxinol e Pulcinella (1920), A Raposa (1922), As Bodas (1923) e Apollon Musagète (1928), um processo que culminou com o ousadíssimo e genial pastiche mozartiano que é a ópera The Rake"s Progress.

A partir de sua mudança para os Estados Unidos, em 1939, flertou com o jazz em Ebony Concerto escrito para o clarinetista Benny Goodman; e quando todos esperavam uma aposentadoria tranquila, Stravinsky deglutiu antropofagicamente seu maior oponente, o austríaco Arnold Schoenberg, responsável pela mais radical revolução na música do século: assumiu-se como compositor serial, usou a técnica do "inimigo", de Agon (1957) ao Requiem of Canticles (1963) e Abraham and Isaac (1966).

O enciclopédico Taruskin e outros pesquisadores, em livros publicados na última década, dizem que Stravinsky refez muitas vezes sua biografia, para torná-la mais atraente ao grande público, e que tinha pouco apreço pelos fatos tal como aconteceram.

Charles Joseph, em Stravinsky Inside Out (2001) e Stephen Walsh, numa monumental biografia em dois volumes e 1.500 páginas (2002-2008), mostram que Stravinsky cultivou com rara habilidade o status de celebridade - para além do universo propriamente musical. E se transformou no símbolo musical do século, assim como Coco Chanel na moda.

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