Fabio Motta/AE
Fabio Motta/AE

O dolorido show de Roberto

Mesmo com fortes dores no nervo ciático, que o obrigou a cantar boa parte do tempo sentado, o Rei não frustrou os fãs

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2010 | 00h00

Foi bem pesado de carregar o presente de Natal que Roberto Carlos deu ao público brasileiro sábado à noite. O cantor sentiu muita dor antes, durante e depois de pisar o palco montado na praia de Copacabana e cantar durante duas horas para um público presente de cerca de 500 mil pessoas, e mais milhões em casa, assistindo pela Globo (com 35 minutos de atraso). Um problema no nervo ciático o deixou sem andar direito dias antes da gravação do especial natalino - ele nem participou de parte dos ensaios. Chegou-se a temer pelo espetáculo, que acabou se realizando graças ao esforço de Roberto - ele sabia que não podia frustrar tanta gente (incluindo a si próprio). Nos minutos finais, declararia: "(Esse show) é para gente não duvidar que Papai Noel existe..."

Sentado praticamente a apresentação inteira (só ficou em pé no início, em Emoções, e para a aguardada distribuição de rosas à mulherada, que foi encurtada), ele tentava minimizar. "Depois dos 35 anos a gente tem que ter cuidado com a motocicleta", brincou, aos 69, logo de cara. "!Esse show foi ideia do prefeito Eduardo Paes, mas era um desejo de Roberto há mais de 30 anos. Chegou o momento certo. Ele está brigando contra um problema na coluna, mas está aí. É o clube de um milhão de amigos. Se fossem 300 mil pessoas, já estaríamos satisfeitos", dizia o empresário Dody Sirena, na área vip cheia de convidados famosos (a modelo Luiza Brunet era a mais animada).

Roberto tentou controlar as expressões de sofrimento, mas seus fãs perceberam que não era um mero "mau jeito" no joelho. Sem ter onde se sentar, na areia o dia inteiro, eles compartilhavam, em parte, seu desconforto (o calor do verão carioca e, quem sabe, as emoções levaram mais de 250 pessoas aos três postos médicos espalhados pela praia). "Está horrível aqui, sem tomar banho, sem fazer xixi, sem comer. Não posso me mexer, porque podem pegar o meu lugar. Mas quando ele aparece tudo vai embora!", contava a dona de casa Sonia Maria Lima, um ano mais velha que o Rei, que foi de manhãzinha de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, a Copacabana, e passou mais de sete horas com o sol na cabeça. "E olha que sou hipertensa..."

Para ela, "parecia o mesmo show de sempre", mas, pensando bem, não era. Dona Sonia, como muitas outras senhoras que acompanharam desde 1974 o especial de Roberto na Globo, se emocionou bastante quando ele se transformou numa espécie de missa campal, com Noite Feliz, seguida de Jesus Cristo. Muitas vestidas de branco, já no clima do réveillon, e também para agradar ao ídolo, as pessoas se cumprimentavam, ainda que não se conhecessem, e batiam palmas para a imagem do Cristo Redentor projetada nos telões.

Foram instalados painéis a cada 70 metros, cobrindo a extensão de areia do hotel Copacabana Palace até o Leme. Para quem chegou cedo e conseguiu ficar mais perto do palco, a curtição era reparar nos detalhes de um Rei popular: a franjinha bem escovada, as unhas feitas no capricho, os pelos no peito aparecendo debaixo da blusa azul deixada aberta, o cordão de ouro, as ombreiras do paletó branco - menores do que já foram um dia, mas renitentes.

Especulava-se que o público chegaria a um milhão de pessoas, mas, segundo a polícia, não chegou à metade disso. Neguinho da Beija-Flor, intérprete da escola de samba do coração de Roberto, cantou o samba-exaltação da escola para o carnaval de 2011, A Simplicidade de Um Rei, Foi o momento samba/pagode do show, para o qual muitos torceram o nariz, mas estendido até a redenção - e o fim do calvário - de Roberto, com Jesus Cristo.

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