O Doente Imaginário

Sempre insisto: sigo Epicuro. O filósofo falava de viver e morrer de forma tranquila

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

16 Maio 2018 | 02h00

O gênio criativo de Molière criou o mais clássico hipocondríaco dos palcos: o doente imaginário. A última peça do comediógrafo trata do senhor Argan. O protagonista vivia entre enemas e sangrias, cercado por médicos para centenas de males que supunha possuir. Em nossa época de obsessão pela higidez e assepsia, a personagem parece muito atual. Basta uma notícia de nova epidemia e lotamos os consultórios. Nossa ortorexia (fixação pela qualidade dos alimentos, pela pureza e a dieta perfeita) é quase cômica. Será que este azeite de oliva é 100% virgem? Foi produzido sem agrotóxicos? Sua acidez é inferior a 5%? A embalagem é realmente escura para preservar as propriedades da oliveira? Procuro todas as informações no rótulo elaborado por produtores que desejam vender muito e, como tal, tornam cabível certa desconfiança da veracidade das informações.

Considero-me um pouco a salvo da angústia aguda em torno de doenças. Faço todas as vacinas e realizo check-up anual. Já fiz colonoscopia e exame de próstata. Gostaria de nunca os repetir. Amo a medicina preventiva por considerá-la mais barata e lógica. Meu rito médico é anual. Depois, findos exames e a consulta de avaliação dos resultados, eu me esqueço por completo de que sou mortal. Tomo um remédio do grupo das estatinas em função da fixação do meu fígado em produzir colesterol. Ingiro, diariamente, um medicamento de verdade e alguns possíveis placebos, como eu chamo aquelas pílulas que prometem vitalidade até os 120 anos com memória perfeita. É a minha concessão ao pensamento mágico. Não é humano refugiar-se por completo na racionalidade. 

A prudência e o caráter metódico da avaliação anual pareciam transmitir uma serena tranquilidade de que, pelo agora, não existia risco imediato. No último check-up, despontou uma novidade inquietante. Ao examinar movimentos de braço e outros indicativos, dr. Jairo Hidal desconfiou da possibilidade de Parkinson. Pela prudência que o caracteriza e rigor no exame de possibilidades, meu esculápio demandou um exame especial de uma área do cérebro que eu nem imaginava possuir, uma “substância nigra”. Ali estaria uma resposta mais específica sobre o risco que passava a pairar no meu horizonte.

Aquela tarde no Einstein foi surpreendente. Sempre espero uma revelação sobre triglicérides e até imagino, não muito longe de hoje, que surja algum marcador tumoral trazendo à tona um foco perigoso de células mutantes a minha consciência. Estou preparado para a morte, para o colapso cardíaco e para o câncer, não estava apto a digerir Parkinson. A novidade fez minha mente de especialista em religiões divagar: o padroeiro contra Parkinson é São João Paulo II. Qual a relevância disso? Nenhuma, mas talvez fosse uma defesa mental em reação ao medo. A primeira pesquisa na internet aumentou minha angústia: perda de controle de movimentos e sem solução conhecida. Incurável e progressiva, o que poderia piorar?

Sempre insisto: sigo Epicuro. O filósofo falava de viver e morrer de forma tranquila. Acho a morte natural. Confesso entredentes: temo doenças degenerativas e que impliquem perda de controle. Aí estava a kriptonita de Leandro: estar na dependência de terceiros. Minha segurança sempre foi xifópaga da minha autonomia.

O exame só poderia ocorrer em duas semanas. Eu tinha meio mês para digerir a possibilidade. Calei-me sobre o fato. Não queria preocupar alguém até surgir uma resposta definitiva. Retomei o ritmo de trabalho já estimando quanto tempo eu teria de autonomia caso se confirmasse a suspeita. Uma pergunta bailava na consciência: como eu enfrentaria o futuro com Parkinson? Quanto tempo ainda daria aula? Conseguiria digitar? Dirigir?

Fiz o exame e o resultado foi negativo. Não havia alterações na região. Com o resultado em mãos, contei a pessoas próximas a angústia das semanas anteriores. Abri um vinho expressivo naquela noite (bem expressivo). Com orgulhosa firmeza nas mãos, toquei as Suítes Francesas de Bach. O alemão sempre restaura minha ordem interna e recoloca tudo no eixo. Tocando e bebendo, refleti sobre outra ironia do tempo: por que os dedos estão cada vez mais duros e o resto vive processo inverso? Uma piada interna ajuda a dar distância e não crer em excesso de nossa centralidade no universo.

Eu teria sido um doente imaginário por duas semanas? Por que nos preparamos para o pior? Acho que é defesa. Funciona como o adolescente blasé que vai à festa já desdenhando dela e das pessoas. Assim, se for rejeitado, pode desviar a ferida narcísica para a ideia: “Eu nem queria vir mesmo...”.

Cheguei até aqui sem nenhum grande drama de saúde. O neuroma de Morton do pé esquerdo não é algo preocupante. Schopenhauer garantiu que a dor produz consciência. Quando sinto a agulhada do neuroma, sei que tenho um pé. A inevitável presbiopia avançou, porém meus olhos são guardados pelo casal Marcelo e Rosana Cunha. Confio neles, com perdão do trocadilho, cegamente. Como todos os seres humanos, enfrentarei maiores problemas daqui para a frente e, por fim, o barco do meu ser, cada vez mais avariado, irá naufragar. A imortalidade é uma praga. Poder digitar com firmeza é um privilégio que eu jamais imaginara possuir. Boa semana para todos nós!

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