O documentarista João Moreira Salles

Ele é irmão do também diretor Walter Salles e os dois são filhos do banqueiro Walter Moreira Salles. Terá alguma vez este homem cultivado, famoso pelas maneiras aristocráticas, pelo gosto refinado e pela fortuna, imaginado que seus filhos seriam grandes nomes do audiovisual brasileiro? Walter Salles ganhou o Urso de Ouro em Berlim com Central do Brasil, acaba de concluir Abril Despedaçado e roda ainda este ano, na Itália, Assumption of a Virgin, com a musa Juliette Binoche. João Moreira Salles, o irmão, concorre ao Prêmio Multicultural 2001 Estadão Cultura. O que o colocou na disputa foi sua admirável obra como documentarista. Um dos pontos altos dessa atividade poderá ser conferido domingo, no canal GNT, que exibe Notícias de uma Guerra Particular, às 21 horas.Seria divertido se, no fundo, não o aborrecesse. Há mais de dez anos João Moreira Salles vem assinando documentários que alcançam muita repercussão e colhem prêmios no País e no exterior. Mesmo assim, ainda tem gente que pergunta quando ele vai fazer o primeiro filme. Para essas pessoas, o documentário é só uma passagem para a ambição maior, que deve ser a de dirigir ficções para cinema. Não para João. Ele é, e quer continuar sendo, documentarista. Agora mesmo, sua empresa (e do irmão), a Videofilmes, acaba de ser incluída nos planos de patrocínio cultural da Telecom para este ano. A empresa vai investir em dois documentários de João. O Processo e Tempo Imenso formam um tríptico com Notícias de uma Guerra Particular. Depois de investigar a violência urbana no País, documentando o clima de guerra que se vive nas favelas do Rio, João quer fazer outro documentário sobre o sistema judicial brasileiro e um terceiro sobre o sistema penitenciário.Como os três irmãos (Fernando, Pedro e Walter), João também se formou em economia, mas só os dois primeiros permaneceram no campo da engenharia financeira. Waltinho passou dois anos na Califórnia, fazendo cursos de mestrado em Comunicações. Voltou ao Brasil para seguir, primeiro no vídeo, como documentarista, depois no cinema, como diretor de ficção, a carreira bem-sucedida que se sabe. João seguiu-lhe os passos. Ele chegou ao documentário por intermédio de Walter. Por acaso. Tinha 22 anos, não sabia o que fazer da vida, só sabia que não era vocacionado para a economia. Foi quando Waltinho voltou do Japão com 40 horas de material que havia gravado lá, em vídeo. Waltinho havia colhido aquele material sem roteiro algum. Pediu socorro a João que, afinal, não estava fazendo nada. João começou a selecionar o material de Waltinho, a colocar uma ordem naquilo, a criar uma estrutura, um texto. Tomou gosto. O programa foi ao ar e ele ficou no documentário. Virou documentarista.João é um sujeito de fala mansa, que olha o interlocutor nos olhos. Basta olhar para ele, conversar uns minutos e você logo descobre que é "do bem". Mas seria absurdo considerá-lo ingênuo. Um sujeito com a capacidade de observação e crítica que ele revela em seus documentários - a ponto de estar indicado para o prêmio que destaca os artistas que são antenas e raízes da raça - não pode ser considerado ingênuo. Mas foi, ingenuidade sim, que durante a rosagem de Notícias de uma Guerra Particular fez com que João se aproximasse do traficante Marcinho VP. João chegou a pagar a Marcinho uma quantia, durante quatro meses, a título de incentivo para que ele abandonasse a criminalidade e escrevesse um livro sobre sua vida. Por conta desse envolvimento, o cineasta teve problemas com a polícia e chegou a ser condenado a prestar serviço comunitário. Escolheu, ele que já é professor na PUC do Rio, dar aulas no morro carioca. Define a experiência como enriquecedora, extraordinária.Não à arrogância - Na trilha da experiência japonesa de Waltinho, João foi aos EUA e trouxe de lá uma série da qual hoje não gosta. Deplora o que lhe parece a arrogância de América. "É um documentário de quem acha que sabe tudo." Nestes anos todos - América foi ao ar em 1989 -, João aprendeu que o bom do documentário é a atitude oposta. Ele se coloca hoje na posição de quem não sabe, mas quer descobrir. E confirma que o grande documentário tem de ser autoral. Comentando Notícias de uma Guerra Particular e outros documentários que também obtiveram boas críticas - Futebol e Santa Cruz -, define sua experiência no documentário como "voltar para casa com um filme que você não concebeu". Ao fazê-lo, cita Richard Leacock, um dos mestres do cinema documentário dos EUA e do mundo: "Meu cinema existe porque não foi imaginado." João assina embaixo.Quando começou, ele admite que não sabia nada de documentário. Aprendeu errando. E teve de aprender porque resolveu dar aulas. Teve de preparar-se para isso. Passou um ano na África ensinando realização de documentário. Foi quando, realmente, descobriu a riqueza do cinema de não-ficção. Virou militante. Chega a dizer que gosta mais de dar aulas do que propriamente de filmar. Lamenta que a sua geração não conheça muito, ou não conheça nada, a história do documentário. Está convencido de que um documentarista, para dominar sua linguagem, tem de conhecer Joris Ivens, as experiências de Alberto Cavalcanti na Inglaterra, o cinema direto americano, o cinéma-vérité de Jean Rouch, o experimentalismo de Dziga Vertov, com seu cinema-olho. Vê nessa ausência de cultura a origem da falta de vitalidade que o gênero apresenta hoje no Brasil.Falta de vitalidade? Como, se ele próprio é a prova da pujança do documentário brasileiro? Nem por isso, João deixa de se colocar à sombra daquele que lhe parece o maior de todos os documentaristas do País, e é mesmo - Eduardo Coutinho, o mestre de Cabra Marcado para Morrer, de Santo Forte e Babilônia 2000. Ele fala com respeito e admiração de Coutinho. Os olhos brilham. Não é preciso estar falando de um documentário dele para emergir o militante. Essa militância começou durante a aventura africana de João, no Quênia. Foi logo depois de América, que não foi seu primeiro trabalho, pois antes ele havia feito o roteiro e o texto de Japão e, logo em seguida, outro documentário sobre a China. Só depois disso foi aos EUA para fazer América. Não estava muito certo de que era aquilo que queria fazer. Teve vontade de afastar-se do Brasil, até para pensar um pouco. Um amigo colocou-o em contato com uma organização não-governamental que, na época, era presidida pelo bispo Tutu. Ele foi ensinar padres e freiras a usar recursos audiovisuais. Virou profissão, de fato e de direito. E por vocação, já que, como afirma, é o que mais gosta de fazer.João é especialista em dar aulas sobre documentário. Além do curso na universidade, ministra cursos livres pelo Brasil e, no Rio, especificamente, na Fundação Progresso. Gosta de falar sobre os limites entre ficção e documentário. Lembra que um dos primeiros filmes de não-ficção foi a tomada de San Juan Hill em Cuba, durante a Guerra Hispano-Americana. A imprensa da época estava cheia de relatos sensacionalistas sobre o assunto e o público achou muito sem graça aquela ação sem grandeza, quase banal, que não reproduzia os dois ou três dias de combates encarniçados que os jornais descreviam como o tempo heróico para a tomada do forte. A solução foi ir ao estúdio e encenar a batalha. O público então gostou, foi um sucesso, mas não era mais um documentário e sim, uma ficção. Esse limite é até hoje a grande dúvida para João. Onde fica a fronteira entre ficção e documentário?Ele lembra Robert Flaherty, o autor de Nanook, o Esquimó, de O Homem de Aran, de Louisiana Story. As imagens eram sempre combinadas de antemão, eram encenadas para a câmera. Analisando o processo criativo, João chega à conclusão de que a filmagem é muito semelhante, seja ficção ou documentário, e a montagem é mais parecida ainda. A montagem é fundamental. Quando dá a entrevista, ele ainda está finalizando seu documentário sobre o pianista Nelson Freire. Diz que é a "sua" visão de Freire. Outro documentarista, também munido de câmera ou até remontando o mesmo material, faria outras escolhas outro documentário. Mas a montagem, como ordenação, é uma etapa posterior. No documentário, o diretor entrega a co-autoria para a realidade. Entra em cena o acaso, de uma forma muito mais forte do que pode intervir na ficção. O verdadeiro diretor de documentário nunca pode ter certeza do filme que vai levar para casa. E assim se chega ao cinema que existe porque não foi imaginado de Leacock.Para se fazer documentário, João Moreira Salles acha que são necessários: 1) afeto pela realidade e 2) uma tocante curiosidade pelo mundo. E não existem regras fixas. Ele conta que Notícias, que passa domingo na TV, não teve planejamento algum. No início, o projeto até era outro. João e Kátia Lund, sua parceira, queriam fazer um filme sobre ação comunitária numa favela do Rio. Descobriram, a câmera na mão, que moravam numa cidade conflagrada. Fizeram o documentário em regime de urgência num estilo de reportagem, resolvendo os problemas no próprio momento da filmagem. Mas essa não é a maneira como João prefere trabalhar. Ele pensa muito no assunto antes de sair com a câmera. Foi assim, pensando, refletindo muito, que fez, com Marcos Sá Corrêa, o documentário sobre os evangélicos que integra a série Seis Histórias Brasileiras.A visão do excluído - Queria descobrir por que uma religião tão restritiva consegue prosperar no morro, na periferia, onde as pessoas têm tão pouco. E descobriu - elas entregam o que têm porque em troca ganham o que não têm: ordem. João diz essas coisas com emoção. É todo um mundo que ele descobre, um afeto que se espalha e não se encerra, ao fazer documentário. Por isso mesmo, acha que não se pode mostrar tudo no documentário. A aids, o paciente terminal, ele, pessoalmente, acha que não pode mostrar por uma questão de pudor. E também de moral. Diz, mesmo com risco de ser mal compreendido, que o documentarista tem de ter consciência da sua inutilidade, não pode (ou não deve) querer ser Deus.Quando fala nessa inutilidade, ele tem medo de ser considerado mascarado, mas o que quer dizer é que Notícias de uma Guerra Particular pode desencadear um debate sobre a questão social e a violência urbana, mas não vai resolver nem uma nem outra. Nem por isso deixa de acreditar no poder de informação e conscientização do cinema e, dentro dele, do documentário. Analisando historicamente o documentário brasileiro, chega à conclusão de que os grandes documentaristas que vieram dos anos 60, uma época de muita politização, eram homens de esquerda, de classe média, intelectuais que dirigiam suas câmeras para os excluídos, os marginalizados.Seu sonho é percorrer o caminho inverso. Admira, como um pioneiro, o Arnaldo Jabor de Opinião Pública. Ao dar aulas de documentário, no morro, gostaria de estar fornecendo aos que sempre foram excluídos o instrumental para que eles filmem o outro lado da realidade social brasileira - a classe média, a burguesia. Seria original, para não dizer fascinante, retomar, em chave de documentário, uma lição que Fernando Coni Campos deu na ficção, em Ladrões de Cinema. E então, não está explicado por que João Moreira Salles concorre ao Prêmio Multicultural 2001 Estadão Cultura? Ele se sente honrado com a indicação. E faz uma última revelação sobre o irmão, tão premiado, Walter Salles. Respeita tanto Waltinho que acha que virou documentarista para fugir à sombra dele, tão bom na ficção. Waltinho o admira, também. Um no documentário, outro na ficção, são faróis do audiovisual brasileiro que entra no século 21.

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