O doce perfume do improviso

Em CD duplo, o inglês Paul Lewis se impõe com leitura ímpar de Schubert

O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h08

O pianista inglês Paul Lewis, ex-aluno dileto de Alfred Brendel, demonstrou com folga, ano passado na Sala São Paulo com a Osesp e em recital, que são justíssimos os prêmios internacionais que vem ganhando por gravações e as críticas elogiosas de seus recitais e concertos. Ainda assim, o imenso sucesso obtido com sua integral das 32 sonatas de Beethoven para a Harmonia Mundi, projeto que lhe consumiu os últimos sete anos, provocou certa curiosidade em torno de sua aventura seguinte.

O escolhido foi Franz Schubert, compositor, aliás, com o qual estreou na HM em 2004. O álbum duplo recentíssimo contém três sonatas de 1825-26 - a D 840, em apenas dois movimentos, e as seguintes, em D. 850 e D. 894, que precedem a monumental trilogia final do compositor -, os conhecidíssimos quatro Improvisos D.899 e as três peças para piano D. 946, do finalzinho de sua vida.

Sintomaticamente, Schubert é um exato contemporâneo de Beethoven, muito mais conhecido por seus 600 lieder (canções) do que por sua produção pianística. Schubert é, na verdade, o oposto de Beethoven. O autor da Nona levou a sonata bitemática - os dois temas, em geral bastante simples, que brigam entre si e propiciam um longo desenvolvimento - ao auge, acabando por destroçá-la nas derradeiras obras. Schubert, 17 anos mais novo, carregou uma das alças do caixão do mestre em seu enterro em Viena em 1827. Admirava-o, portanto, profundamente. Mas não se abrigou sob o seu formidável manto: seguiu caminho criativo próprio (morreria aos 31 anos em 1828). Às vastidões públicas beethovenianas, preferia a intimidade de poucos amigos fazendo música por puro prazer. Rei das noitadas vienenses regadas a mulheres, vinho e música, Schubert deixava-se levar por uma bela melodia, mesmo que fosse longa. Gostava de brincar com ela, transferindo-a sem mais nem menos do modo maior para o menor, e vice-versa. Mesmo nas gigantescas sonatas, concentrava-se nos atalhos e desvãos, na prática deliciosos descaminhos sempre surpreendentes aos ouvidos.

É o que faz a genialidade de sua produção pianística e lhe propiciou, durante o século 19, feroz reação negativa dos especialistas, cobrando-lhe coerência. Logo dele, o andarilho solitário para quem "contemplar a natureza é observar-se a si mesmo, através dos espelhos que esta lhe coloca à frente; um solitário que se ocupa menos da humanidade inteira, mais com alguns corações fraternos". Para Schubert, "a fantasia é mais importante que as regras, e este dom de cantar com ternura a melancolia sorridente, ele a partilha apenas com Mozart". Estas belas frases, que definem poeticamente a arte única de Schubert, são de Guy Sacre, 63 anos, compositor francês íntimo da música para piano de todos os tempos. Sacre colocou numa súmula de 3.000 páginas comentários saborosos mas sempre rigorosos e adequados sobre cerca de 4.000 peças para o instrumento (La Musique de Piano, 2 vols., Bouquins, 1998).

Quem ouviu a integral Beethoven de Lewis pode surpreender-se com o seu Schubert. Se no primeiro ele se entregava a excessos que as partituras exigiam, agora constrói incríveis meias-tintas, institui uma atmosfera de improviso adequadíssima à escrita schubertiana. Por sutileza e refinamento, entenda-se não a elegância vazia dos pianistas que preferem transitar na zona de conforto, não assumindo riscos. Ao contrário, o Schubert de Paul Lewis tem o perfume do improviso. Duvida? Ouça primeiro os quatro improvisos D. 899. O primeiro é um grande lied. Sacre diz que Schubert sentiu-se livre, em sua obra para piano, das letras, para construir obras mais longas; é o caso desta obra-prima. O segundo tem uma pitada de dança indisfarçável, que no entanto jamais se escancara; o terceiro canta como nunca uma letra ausente; e o quarto é uma gema perfeita alternando cascatas de notas com uma melodia inesquecível. É o teste supremo para a visão intimista de Lewis, maduro em seus 39 anos para captar, como disse em entrevista recente, que "quando Schubert quer te dizer algo importante, baixa a voz em vez de elevá-la".

As sonatas são um capítulo à parte nessa gravação de exceção. A D. 850, em ré maior, é uma das raras em que predomina o otimismo, presente em seus quase 40 minutos (confira o admirável scherzo). Foi composta nas férias de verão em Gastein, e dedicada a um pianista profissional. Na sequência, outros 40 minutos. Desta vez, de profunda introspecção. Cerca de 17,5 minutos da monumental sonata D. 894, em sol maior, são ocupados pelo Molto moderato e cantabile inicial, tão poético e íntimo que foi apelidado de 'fantasia' e acabou dando nome à sonata inteira. O Allegretto final assume a dança, um bom humor que na aparência põe fim à melancolia (só na aparência).

As três peças D. 946 foram compostas em maio de 1828, seis meses antes da morte de Schubert em 19 de novembro, e publicadas só 40 anos depois. A primeira, antológica, expõe o tema em oitavas em modo menor; lá pelas tantas, ele reaparece em modo maior. Uma modulação inesperada repõe a música no modo menor. Genial. O mais longo deles, com mais de 11 minutos, é o segundo, em forma de rondó; e o último, mais curto, é um Allegro, com oitavas deliciosamente sincopadas.

Lewis jamais acelera ou atropela, dando-se conta de que em Schubert não existem gestos virtuosísticos ou grandiloquentes; nem se recolhe a uma sobriedade igualmente distante do universo altamente dramático desta música. Mantém-se num meio-termo dificílimo, para construir leituras que se impõem, mesmo num oceano de gravações modernas dessas peças.

Crítica: João Marcos Coelho

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