O DJ dos DJs também foi embora

Grego estava na sala de parto de vários movimentos, entre eles, o pop rock dos anos 80 no Brasil

Claudia Assef e Eletrônica, O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2010 | 00h00

O baile lá no andar de cima deve estar bem animado. Depois da perda de Ricardo Guedes, falecido em junho deste ano, e de Lula, há coisa de dois meses, o mundo DJ ficou em choque com a morte, em 16 de setembro passado, de Ippocratis Bournellis, mais conhecido como DJ Grego, Gregão ou, para os mais chegados, só "Mans".

Vítima de uma crise de úlcera, Grego faleceu aos 54 anos de idade, deixando dois filhos legítimos (Dani e Fabinho) e uma legião de filhotes que o seguiam como a um sacerdote.

A importância do DJ Grego vai muito além do universo da dance music - que ele ajudou a criar no País. Grego estava na sala de parto de vários movimentos surgidos no Brasil, entre eles, foi um dos responsáveis pelo boom do pop rock nacional em meados dos anos 80, graças à sua gilete afiada, com a qual abriu espaço para um novo mercado na música nacional, o dos remixes.

Ao lado de Iraí Campos e Julinho Mazzei, Grego remontou, na base de giletadas e durex, a música Loiras Geladas, que fez o RPM estourar no Brasil inteiro. O próprio Paulo Ricardo, vocalista do grupo, já disse que foi graças à interferência dos DJs que sua banda decolou - até nos shows do RPM as pessoas cantavam a versão criada por eles.

Gregão foi também um dos primeiros caras a mixar músicas no rádio, no programa Jovem Pan Disco Dance, nos anos 70. Foi ainda um dos primeiros a lançar discos de DJ no Brasil. Seu LP Maestro Mecânico, de 1977, vinha com uma novidade antes só vista em discos gringos: era mixado, com músicas coladas umas nas outras. Era como se fosse uma faixa inteira do lado A e outra do lado B.

Nos anos 80, ele foi pioneiro ao incentivar DJs e produtores mais jovens, criando campeonatos e uma escola dentro de sua loja de discos, a Rock"n"Soul. Entre a meninada que vivia grudada com o "Mans" estavam talentos como XRS e Marky, que depois viriam a se tornar ídolos do drum"n"bass nacional.

Nos anos 90, Gregão se aproximou do mercado fonográfico internacional, foi morar em Miami e chegou a lançar remixes de artistas gringos de renome, como Mariah Carey e Earth, Wind & Fire, de quem remixou a belíssima Fantasy, merecendo elogios até mesmo do próprio grupo.

Até aqui falei do Grego o que daria para encontrar na Wikipédia, caso a gente vivesse num país que cultivasse a sua memória. Mas o Grego, pra mim, foi muito mais do que um capítulo na história da música. No dia 16 de setembro, perdi um amigo querido, alguém que eu admirava principalmente pela paixão com que exercia seu ofício e pelo respeito com que tratava as pessoas.

Respeito, aliás, era quase um mantra do Grego. Nada mais natural para um cara que começou a carreira no início dos anos 70, época em que DJ era tratado como marginal e ficava nas discotecas "sempre perto do fritador de batatas", como dizia o Mans. Por isso, a frase "Respect The DJs" era invariavelmente lançada no meio de suas falas, talvez até para mesmo que ele nunca tivesse dúvida disso.

Tudo no castelo. Respeito aos DJs, valorização da noite e a morte do Grego. Tudo isso está embaralhado na minha cabeça enquanto finalizo a direção da exposição Smirnoff@Nightlife, que foi aberta ontem ao público e fica em cartaz até dia 17 de outubro no Castelinho da Avenida Brigadeiro Luis Antônio (número 826). Quando comecei os trabalhos de compilação de materiais para a exposição, há pouco mais de um mês, Gregão foi dos caras que mais se articularam para me ajudar.

Agora, lá no Castelinho, um módulo com objetos, roupas, fotos e discos do Gregão vai nos ajudar a lembrar deste DJ, que entrou para a história da música contemporânea no Brasil. E para a história pessoal de muita gente.

Junto com meu parceiro Camilo Rocha, com quem divido a festa Discology há vários anos, farei outra homenagem ao "Mans", reunindo duas coisas que ele tanto amava: amigos e balada. Hoje à noite no Vegas Club, em São Paulo, estará reunida uma verdadeira Santa Ceia de DJs dos anos 70, 80, 90 e 00: Sonia Abreu, Índio Blues, Vadão, Mister Sam, Sylvio Muller, Magoo, além de parceiros da nova geração que tinham Gregão como mestre: Acácio, Murilo Rosseti e Anthony Garcia.

Então, se você gosta pelo menos um pouquinho de dançar, aproveite para prestar a sua homenagem particular a esse que foi o DJ dos DJs do Brasil. Afinal, respeito é sempre bom.

CLAUDIA ASSEF É JORNALISTA,PRODUTORA E DJ, AUTORA DO LIVRO TODO DJ JÁ SAMBOU

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