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O divórcio entre o morro e o asfalto

Com HQ sobre a filha de uma doméstica negra do Rio, franceses revisitam mitos sociais e raciais do País

Jotabê Medeiros, de O Estado de S.Paulo,

17 de outubro de 2009 | 18h22

Aquela “grande suavidade” que o legado da escravidão espalhou pela alma brasileira, segundo descreveu Joaquim Nabuco (1849-1910), de vez em quando é examinada pela ficção. Mas raramente pela ficção pop, a não ser no caso do hip-hop dos Racionais, MV Bill e outros que sabem bem onde o calo aperta.

Negrinha (R$ 44, 104 páginas, Editora Desiderata, tradução de Fernanda Abreu) desafia essa tradição. Trata-se de uma história em quadrinhos escrita por um francês (de sangue tropical, pois a mãe é brasileira), Jean-Christophe Camus, e desenhada por outro francês, Olivier Tallec, e que examina com lupa essa triste suavidade do racismo brasileiro – ou a suposta “democracia racial”, como esquematizou Gilberto Freyre nos anos 1930.

A HQ foi publicada originalmente na França este ano pela Gallimard Jeunesse. Teve boa acolhida, com resenhas positivas em publicações como L’Express. É uma história parcialmente biográfica, conta, em entrevista ao Estado, Jean-Christophe Camus, que ouviu parte dos relatos de sua mãe, “enxertando” nos fatos reais alguma dose de ficção. Para recriar tudo, o autor ambientou sua ação num Rio de Janeiro ainda idílico, nos anos 1950. É nesse Rio pré-bossa-novista, numa Copacabana ainda com trejeitos aristocráticos, que uma menina de 13 anos vai descobrir que nem tudo na vida é cenário.

Neste universo, dona Olinda, negra e analfabeta, cria a única filha, Maria, num gigantesco apartamento aristocrático de um embaixador, que é seu patrão. Mas o embaixador nunca está, Olinda tem muito espaço e cria a filha sem que esta saiba da verdadeira origem de sua mãe – o morro. A menina, mulata, frequenta escola de elite, ambiente burguês clássico, estuda balé e mesmo suas amigas a têm como “uma delas”.

O parisiense Camus, de 47 anos, estreou aos 20 como autor desenhando para a Charlie. É diretor artístico das Éditions Delcourt, e fundador da agência gráfica Trait pour Trait. Admirador de Albert Uderzo (o criador do Asterix) e do cineasta e cartunista Gérard Lauzier (autor de Lili Fatale), ele buscou conselheiros brasileiros para embasar sua visão do País. Um desses amigos que o orientou foi Antonio ‘Tunico’ Carlos Amâncio, um teórico do cinema, doutorado pela USP com uma tese sobre a representação do Brasil no cinema estrangeiro de ficção. Amâncio publicou O Brasil dos Gringos: Imagens no Cinema (Intertexto), sobre como o País tem sido representado na tela pelos estrangeiros.

“Uma morena de Copacabana não é uma negrinha da favela”, diz uma tia a Maria, personagem-título de Negrinha, preocupada com a sobrinha que vai descobrindo sozinha o universo que lhe é interdito – o samba, a festa, o morro, o amor. É por meio de um vendedor de amendoim na praia, Toquinho, que o drama de Jean-Christophe Camus se aproxima de outro Camus, Marcel, e seu Orfeu Negro, cult cinematográfico.

Camus trata o tema com cores solares e uma abordagem ingênua, por vezes piegas, que vê o morro como uma terra sem conflitos, amorosa e abnegada. Há alguns erros e por vezes o discurso é mal ajambrado, como nessa parte: “Você é descendente de escravos, meu amor, e apesar de a escravidão ter sido abolida 65 anos atrás, pode acreditar, é melhor ser branco do que ser preto. A menos que você seja músico ou jogador de futebol.”

Não é pelo discurso, no entanto, que o Rio de Janeiro de Camus se firma como verossímil. É pela contraposição entre personagens, pela doçura com que o autor enxerga seus protagonistas. Religiosa, honesta, fustigada pela própria consciência Dona Odila se vê diante de um problema quando resolve abrigar Dona Ruth, decadente aristocrata abandonada pelo marido com uma das mãos à frente e a outra atrás. A mulher, mesmo por baixo, a trata como empregada todo o tempo, a explora e toma a decisão de ficar “encostada” quanto puder na benfeitora.

É um terreno espinhoso esse no qual pisam os franceses Camus e Tallec. Travas de interpretação perseguem o tema. Um dos mais populares cartunistas brasileiros, Mauricio de Sousa, teve um inesperado contratempo. “Eu estava lendo uma entrevista de uma ex-ministra da Igualdade Racial, e ela usava como exemplo de como os negros são vilipendiados no nosso país citando o meu personagem Cascão”, conta Mauricio.

“A ex-ministra dizia que até no mundo das crianças a imagem dos negros era prejudicada, e por isso o Cascão era um negro que não tomava banho. Eu caí duro. Cresci num mundo em que não havia esse tipo de coisa, não havia esse maniqueísmo. Na minha rua, tinha negro, italiano, japonês. O que a gente considerava era se era bom colega, se era bom de bola, de estilingue. Só depois de velho é que aprendi isso que as pessoas rotulam como raça. Esse sistema artificial de segregação é um crime”, diz o cartunista.

A propósito: Cascão não é negro, informa Mauricio. Ele lembra que, em uma de suas aventuras, os amigos o limparam com um aspirador de pó e descobriram que não só ele é branco, como tem olhos azuis.

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