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Ignácio de Loyola Brandão
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O divertido caderninho do Guto Lacaz

"Cesária Évora definiu assim sua alegria em cantar no Brasil: feliz como um chafariz!" Foi a primeira frase que li de um caderninho que recebi pelo correio e pensei em seguida: agora vou ler tudo, não largo de modo algum. Domingo de manhã, nada a fazer. Não que eu não faça nada somente no sábado ou domingo de manhã, nos feriados ou nas férias convencionais. Não faço nada quando decido: agora, não vou fazer nada. Isto significa liberdade. Quantos de vocês tomam estas decisões? Não fazer nada, contudo, não significa que em seguida você vai se esfalfar para tirar o atraso. Nem pensar. A melhor coisa de não fazer nada é, em seguida, repousar do nada fazer. Perceber que está feliz por não ter feito nada. Não sentir culpa por não fazer nada.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2014 | 02h05

Porém, vejo gente argumentando que ler é fazer alguma coisa. E muita. Com razão, mas vou ler depois de nada fazer por um tempo, colocando meu corpo e minha alma em paz. Este caderninho recebido subitamente, mandado entregar em casa tem um titulo que estranhei, à principio: Ouvieri. Depois descobri que temos que fazer uma divisão: Ouvi e Ri. Coisas do Guto Lacaz que os bem informados conhecem como arquiteto, artista plástico, designer, performer, filósofo.

Meus contatos com ele foram poucos até o dia em que a editora Global mandou um livro meu, Manifesto Verde, para que ele repaginasse, desse uma estrutura agradável, já que foi escrito para crianças e jovens. Uma espécie de cartilha ambientalista sem a chatice militante. Pois Guto veio à minha casa, figura doce, tranquila e senti que daquele minuto em diante eu tinha um amigo, entreguei tudo, só vi o livro pronto e me encantei com as sutilezas que ele colocou.

Na manhã ensolarada, disse: vou ler Guto. Ao terminar, quando olhei a crônica que eu tinha pronta sobre a Casa Cisne e as calcinhas V8 para mulheres, pensei: as calcinhas ficam para outra semana, quero repartir estas breves e engraçadas "memórias" com os leitores. Porque este caderninho branco me pareceu uma edição que não vai para livrarias. Portanto, por que esconder? Nelas, há personagens desta cidade, do Brasil. Como esta: "Tive a honra de ilustrar dois livros da escritora e educadora Tatiana Belinky, responsável, junto com seu marido Julio Gouveia, por levar a primeira versão do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, para a televisão. Mandaliques e O Segredo é Não Ter Medo são pequenas edições repletas de bom humor e sabedoria. Em um desses lançamento, uma jornalista perguntou: "Tatiana, por que as crianças não gostam de estudar?" Com convicção, responde Tatiana: "As crianças não gostam de estudar, mas adoram aprender".

Outra: "Nosso mestre Baravelli conta que assistiu uma entrevista de Hebe Camargo com um grupo de índios. Em dado momento, Hebe, deslumbrada comentou: 'Vocês devem estar fascinados com a TV, com os automóveis..."Ao que um dos índios respondeu: "TV, automóvel, índio não gostou; índio gostou escada".

Tem também esta: "Minha amiga, a jornalista Monica Chacon, viveu mais do que dez anos na Suíça. Ao retornar ao Brasil, curioso, quis saber: "E então, Monica, como é lá?" Com a precisão de um relógio local, taxou: "Na Suíça, o que não é proibido, é obrigatório".

Ao viajar, coisas acontecem: "Meu pai era médico e cientista, viajava com frequência pelo mundo, para pesquisas e conferências. Ao retornar de Caracas , nos contou uma gafe latino-americana. Ao chegar lá, foi recebido por um elegante grupo de colegas e suas respectivas esposas. Foram logo elogiando e lhe perguntaram o segredo de sua jovialidade. Sempre bem humorado, respondeu: "Tenho a cuca boa". Constrangimento geral. Rapidamente, os colegas procuraram silenciá-lo, disfarçando. Puxaram-no de lado: "Professor Lacaz, aqui, cuca é vagina".

Esta, lembrou-me uma historinha de 1963, quando eu estava em Roma e Livio Rangan e Fernando de Barros me incluíram na caravana Rhodia que mostrava moda brasileira na Europa. Minha função seria escrever o texto de um documentário, em parceria com o Jô Soares. Eu acompanhei as modelos pelas lojas da Via Condotti e elas, jovens, alegres, ruidosas, apanhavam os produtos e comentavam: "Fica com esta. Quem fica com esta?" O fica era dito e repetido alto e bom som e as caixeiras e outras compradoras, espantadas, riam, riam. Ai fui chamado a um canto e o gerente explicou que 'fica', na gíria italiana, era xoxota.

Guto: "Rafih Farah conta que, na década de 70, em plena ditadura Médici, estudava arquitetura na FAU-USP. Um dia, estava na rampa do prédio observando uma grande manifestação estudantil contra a política vigente, no Salão Caramelo, quando vê subir o professor Flávio Motta. Ao passar por Farah o professor para e o surpreende: 'Farah, a maior subversão é o ser'. E continuou a subir."

E a final: "Antonio Cabral, querido colega, é um homem sofisticado. Erudito, sabe longos poemas de cor. Excelente cozinheiro, viajado, sarado e elegante. Está sempre de preto. À noite, nas baladas, de blazer. Anos atrás, costumávamos almoçar no Ritz, São Paulo, para trocar figurinhas. Aparecia sempre com impecáveis camisetas pretas que pareciam ter saído da loja naquele instante. Queria ser igual a ele. Por se tratar de homem viajado, ficava pensando na procedência: Paris, Nova York, Londres, Milão... Grifes caríssimas? Não perguntava, tinha vergonha, e não ia adiantar nada. Não iria ter aquelas camisetas, quase nunca viajo. Um dia, não aguentei a curiosidade e rompi o silencio: 'Cabral, onde você compra suas camisetas?' E ele: 'Na Casa das Cuecas'."

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