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O discurso supera o indivíduo?

Estudo defende a ideia de que forças impessoais determinam o rumo das criações humanas

Carlos Granés, de O Estado de S.Paulo,

26 de novembro de 2011 | 03h07

Mais cedo ou mais tarde, a pergunta vem a todo leitor ou criador de ficções: de onde vem a literatura? Como surge este estranho gênero que finge ser realidade e engana o leitor com a ilusão de vidas e mundos inexistentes? Muitos autores tentaram responder a essas perguntas, e é até possível que todo autor de ficção cultive em segredo alguma teoria que explique as obscuras razões que o levam a se entregar ao vício de criar mundos imaginários. É comum encontrar investigações desses temas entre os acadêmicos especializados na literatura, mas, quase sempre, estas se dedicam a investigar as origens do romance anglo-saxão. Por isso, devemos agradecer a Roberto González Echevarría - nascido em Cuba e há décadas radicado nos Estados Unidos -, que empregou toda sua erudição e inteligência na tarefa de desvendar as origens do romance latino-americano.

O primeiro aspecto que precisa ser comentado a respeito do seu livro Mito y Archivo -, publicado originalmente em inglês 21 anos atrás, é o fato de este oferecer, de uma só vez, uma minuciosa recapitulação dos textos precursores da literatura latino-americana e uma teoria para a evolução do romance. De acordo com González Echevarría, na América Latina os romances derivam de discursos hegemônicos, não literários - como os textos jurídicos, os textos científicos e os textos antropológicos. Esta é a tese central do livro. Durante o período colonial, o discurso hegemônico foi o jurídico, e é por isso que os romances produzidos no continente - e também na Espanha durante o século 16 - foram uma derivação espontânea dos documentos legais. Assim, a novela picaresca teria surgido dos informes judiciais e da retórica notarial, como um relato que declarava a inocência do gaiato dirigido à autoridade burocrática do Estado. Tanto o Lazarillo quanto o Buscón, e também as crônicas do Novo Mundo do Inca Garcilaso, teriam nascido como fruto da "retórica das artes notariais".

As coisas foram assim até o século 19, quando entrou em cena um novo discurso que roubaria do discurso jurídico a sua hegemonia. Tratava-se do discurso científico trazido pelos viajantes e expedições europeias que, embebidos de filosofia positivista, chegaram à América Latina para registrar seus encantos naturais. Facundo e Os Sertões, os inclassificáveis livros de Domingo Faustino Sarmiento e Euclides da Cunha, seriam uma derivação lógica desse novo discurso hegemônico.

Depois da 1.ª Guerra Mundial, e graças às deprimentes provas de que a ciência não tinha contribuído para a paz e o progresso, e sim para a carnificina humana, houve uma nova transformação no discurso em favor da antropologia, uma jovem disciplina que prometia encontrar novas formas de conhecimento e novas formas de vida distintas da decadente cultura ocidental. Foi sob o domínio desse novo discurso que surgiram os romances de Ricardo Güiraldes, Rómulo Gallegos e José María Arguedas, todos eles enraizados na cultura de seus respectivos países - Argentina, Venezuela e Peru - e interessados em reproduzir a idiossincrasia, o folclore e os mitos da terra.

A análise de González Echevarría termina nos anos 70 do século 20, com novelas exemplares da narrativa latino-americana contemporânea como Os Passos Perdidos, de Alejo Carpentier, Cem Anos de Solidão, de García Márquez, e Terra Nostra, de Carlos Fuentes, que, de acordo com o autor, já não respondem aos discursos da ciência nem da antropologia, e sim ao do Arquivo, um novo discurso que reúne os três discursos anteriores, e cuja finalidade continua sendo a de entender a identidade latino-americana, não mais somente a partir do discurso antropológico, e sim das interpretações do discurso antropológico. Ainda que este seja o trecho menos claro do livro, não resta dúvida de que a análise feita por González Echevarría, começando com os primeiros textos da Colônia até chegar aos ápices literários do boom latino-americano, é minuciosa, séria e tremendamente sugestiva.

Dito isso, é impossível deixar de destacar um elemento de fundo que nos obriga a abrir um debate em torno de Mito y Archivo. Este elemento é a teoria literária que inspira e orienta a indagação a respeito das origens do romance. Para entender minhas reservas em relação a este paradigma - o discurso -, a partir do qual o autor escreve, é importante nos afastarmos um pouco do objeto e observar o contexto intelectual que o nutre. González Echevarría é professor da Universidade Yale, e seu ensaio traz claramente a influência da escrita desconstrutivista surgida nos anos 70, apadrinhada pelo filósofo francês Jaques Derrida e pelo crítico belga Paul de Man, e sustentada pelas teorias pós-estruturalistas de Michel Foucault e outros filósofos franceses. O que caracteriza esta corrente do pensamento? O ensaio de González Echevarría revela a resposta: o indivíduo, a realidade e a vida desaparecem por completo de sua análise. Em Mito y Archivo vemos uma sucessão interminável de textos que o autor apresenta com uma minuciosidade digna de elogio, mas não vemos a vida, nem os conflitos sociais nem as tribulações do escritor, e muito menos as motivações que o levam a separar-se do mundo real, criando um mundo de ficção.

Num de seus famosos livros (Gramatologia), Derrida dizia que do lado de fora do texto não havia nada. Essa ideia levou toda uma geração de críticos a crer que compreender uma obra literária implicava rastrear os textos a partir dos quais esta era derivada, como se a criação artística fosse um processo mecânico, desligado totalmente da vida do criador e de suas preocupações existenciais mais intensas. Este é, ao meu modo de ver, o maior problema de Mito e Arquivo. González Echevarría está nos contando uma história que parece correr sozinha, sem indivíduos nem escritores, na qual grandes forças impessoais determinam o rumo das criações humanas, e são os discursos - como foram antes as estruturas econômicas para os marxistas - que produzem as obras de arte.

Isso decorre, também, da marcada influência das ideias de Michel Foucault em Mito y Archivo. Foi o filósofo francês quem introduziu nos círculos acadêmicos americanos o conceito de "formação discursiva", cujo pressuposto fundamental era o de que o discurso criava a realidade, e não o contrário. De acordo com Foucault, não existiria na realidade nenhuma patologia, loucura, desvio nem anormalidade até que um discurso, amparado pelo poder, conseguisse impor divisões ao mundo e criar estas novas categorias sociais. Daí a importância que González Echevarría enxerga em identificar o discurso hegemônico que opera num dado momento. Destacando-o, ele poderá então prever o aspecto que terá a realidade e o tipo de textos literários que serão produzidos pelos escritores.

No fim de Mito y Archivo o autor especula a respeito de qual poderia ser este novo discurso hegemônico, e sua intuição o anima a se inclinar pelos meios de comunicação. Hoje, com o distanciamento do tempo, estamos mais bem posicionados para dizer se o autor estava correto ou equivocado. Seriam os meios de comunicação o novo discurso hegemônico a partir do qual são derivados os romances contemporâneos? À primeira vista, pareceu que Echevarría tinha acertado. Em 1996 surgiu um grupo de escritores reunidos em torno da recompilação de contos McOndo, alguns dos quais tinham introduzido em seus romances elementos tecnológicos, como o boliviano Edmundo Paz Soldán. Mais recentemente, surgiu na Espanha a Generación Nocilla, ou Afterpop, outro grupo de escritores que se inspiraram nos meios de comunicação para criar histórias fragmentárias, plurais, inacabadas e banais, que reproduzem de certa maneira a experiência de se navegar na internet.

Poderia parecer que este novo discurso hegemônico esteja determinando o presente literário no idioma espanhol, mas aceitar tal premissa suporia eliminar do panorama muitos outros escritores, entre os quais se incluem os mais talentosos. O colombiano Juan Gabriel Vázquez, nascido em 1973 e último autor a receber o prêmio Alfaguara, é um exemplo disso. O caso dele mostra que, num dado momento, apesar da existência de modas ou correntes literárias dominantes, o elemento mais importante dos processos de criação artística é o indivíduo e suas perguntas, obsessões e dilemas. Afastando-se de qualquer "discurso hegemônico" ou "espírito da época", Vázquez se dedicou a um projeto literário que busca compreender os acontecimentos cruciais da história da Colômbia e como esses grandes sucessos afetam de forma imprevisível a vida dos indivíduos. A literatura de Vázquez nada tem a ver com os meios de comunicação e, ainda assim, é ele quem está produzindo os romances mais sérios e iluminadores entre os escritores latino-americanos da sua geração.

A razão disso é clara: o criador não é aquele que reproduz o discurso dominante nem aquele que se deixa apressar pelos paradigmas da moda; o criador original é aquele que segue a própria voz, que atende aos próprios interesses, às suas experiências de vida e aos problemas com os quais se depara durante a vida. TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

* CARLOS GRANÉS é ensaista e doutor em antropologia pela Universidade Complutense de Madri

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