''O disco perdeu em baianidade''

Por telefone, Roque Ferreira conversou com o Estado sobre o novo CD de Roberta Sá. Ele ficou muito contente com a homenagem, mas sentiu falta da baianidade do samba-de-roda do qual é porta-estandarte. Também gostaria que tivesse sido incluído no encarte o glossário que explica os termos em línguas africanas presentes em boa parte das faixas, para que se compreendesse do que ele fala. Autodidata, filho de doméstica e de pintor de parede, vindo de uma casa "onde não entrava um jornal", o compositor, hoje com 63 anos, completou o segundo grau e desde então lê de tudo, de Schopenhauer à literatura negra que garimpa em sebos de Salvador, cidade em que vive desde bebê.

Entrevista com

Roberta Pennafort/RIO, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2010 | 00h00

Nesta entrevista, ele fala sobre seu novo projeto de CD, o qual deverá gravar assim que se recuperar de um problema renal que o atormenta há dois anos.

O que você achou do CD da Roberta Sá?

O disco está bem feito, eu achei legal. Ela canta bonito, é muito afinada. A Roberta e o Trio Madeira Brasil fizeram a leitura deles sobre o meu trabalho. Mas se fosse eu a gravar seria diferente. O disco é light, e o samba-de-roda não é light. É um samba que tem grande quantidade de percussão, o que no disco da Roberta não tem. Isso não tira o mérito. Eu fico muito grato pela homenagem. O trio é maravilhoso.

Por que te soa tão diferente assim?

O disco perdeu em baianidade, ficou mais MPB. Eu sou comprometido com a realidade musical do Recôncavo. As melodias são bonitas, as harmonias são simples. Eles sofisticaram as harmonias. É bonito, mas se eu mostrar pro pessoal do Recôncavo, eles não vão acreditar.

Quando a Roberta te ligou pela primeira vez, você conhecia seu trabalho?

Eu nunca tinha escutado. Queria ver o que ela fazia e ela me mandou um disco. Vi que tinha bom gosto para escolher repertório, como a Bethânia, guardando as devidas proporções, porque a Bethânia tem mais estrada. Tenho o maior orgulho de ser gravado pela Bethânia, porque ela é excepcional em tudo que faz e não grava qualquer um. Roberta também não: é criteriosa e inteligente.

Quando você voltará a gravar?

Já era pra eu ter gravado, a Bethânia me chamou. Mas eu adoeci, um rim parou de funcionar, e tive um choque psicológico, sofri muita angústia. Fiz tratamento com psiquiatra e os remédios me fizeram mal. Hoje falei com a Luciana Rabello (produtora de seu primeiro CD), que foi quem viu que eu poderia cantar, e estamos vendo quando faria. Ela deve ter nas mãos 35, 40 músicas, pra gente escolher umas treze. Se eu fizer o CD mesmo (o título provisório é Terreiros), se tiver coragem de viajar, vai ser bem diferente do da Roberta, com predominância de percussão, viola. Não vai ter bandolim, e sim cavaco, até mais do que no meu primeiro disco.

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