O disco ainda pulsa

Sua morte é anunciada todos os anos, mas algo ainda segura a indústria de CDs

ROBERTA PENNAFORT / RIO , O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2012 | 03h09

Era uma vez uma indústria brasileira que rendia até R$ 1,3 bilhão por ano, não tinha concorrentes e deitava e rolava sobre seus louros. Vieram os piratas e trouxeram dias de crise, pessimismo e ameaças de extinção. Uma década depois, ainda que o faturamento chegue a apenas 20% do que já foi, não é mais assim que a banda toca.

Em harmonia com o momento de estabilização do mercado mundial, propulsionado pelas vendas digitais e pela diminuição da queda do formato físico, as palavras de otimismo ressoam nas gravadoras em atividade por aqui. O Estado ouviu a Sony, a Universal e a Som Livre, três das cinco maiores (nem EMI nem Warner quiseram se pronunciar), além da Biscoito Fino, destaque entre as independentes. Em todas, o clima agora é de "o pior já passou".

Os motivos: os três anos de estabilidade nas vendas de CDs, o contínuo crescimento nas de DVDs e Blu-Rays, de 790% desde 2000, e a confirmação da força do iTunes. A loja brasileira, instalada em dezembro, já superou o resultado mensal da espanhola (no ar desde 2004) e da mexicana (desde 2009).

O golpe foi sentido de 2000 para 2001, com o surgimento do Napster e a disseminação da segunda geração dos sistemas de compartilhamento de música pela internet. Fábricas fecharam, lojas sucumbiram. Acabaram-se as grandes festas de lançamento, as convenções superproduzidas, os presentes caros aos artistas e os adiantamentos milionários, concedidos na certeza do retorno de vendas.

Curiosamente, os prognósticos em 2001 eram de crescimento de 12% até 2004. Acreditava-se que a crise seria passageira.

Pois o R$ 1,3 bilhão de 1997, repetido no ano seguinte e alavancando pelo axé, sertanejo, pagode e pop, chegou a R$ 998 milhões em 2001 (hoje são R$ 373,2 milhões). A posição do Brasil no ranking mundial foi caindo do 5.º lugar até o 12.º.

As demissões devastaram metade das companhias. Os departamentos foram enxugados ao limite. Os promotores que se espalhavam pelos Estados vendendo artistas para rádios, TVs e atacadistas foram os primeiros a cair. O Norte e o Nordeste, assolados talvez irreversivelmente pela pirataria, foram abandonados à própria sorte.

À exceção de ondas teens transitórias, como KLB e Rouge, além de Sandy & Junior, o eclético clube do milhão, do qual até então faziam parte Caetano Veloso, Xuxa, É o Tchan e os sertanejos, ficou às moscas. Hoje ele conta com Paula Fernandes e a volta do Padre Marcelo Rossi. "Estava na Sony do Chile e voltei em 2000, no fim da festa. Daí em diante foi só ressaca. De 200 funcionários hoje temos 88", lembra José Carlos Eboli, presidente da Universal. O advento de Paula Fernandes hoje lhe faz um dos mais otimistas.

Com o Padre Marcelo, campeão com Ágape Musical, a cantora carregou nas costas, com dois CDs e um DVD, o crescimento de 8,4% da indústria em 2011, divulgado pela Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD) no mês passado. "Um milhão e meio de discos em dez meses equivale ao parâmetro do período áureo, mostra que o mercado está vivo", comenta. Os dois são para o Brasil o que Adele e Lady Gaga representam em escala planetária.

Paula, que agora quer ver ampliados seus horizontes trocando o rótulo de sua música de sertanejo para romântico, se surpreende. "Fiquei bastante impressionada. Sei que é um feito raro. Já estou fazendo meu novo CD de inéditas e buscando sempre equilíbrio para gerar músicas no mesmo espírito."

Catorze anos de carreira e mais de 10 milhões de cópias vendidas, Padre Marcelo foi do céu à banca dos piratas. O alerta aos fiéis de que "pirataria é pecado" surtiu efeito. "Fico muito feliz sabendo que estou ajudando a indústria fonográfica. Mas vendi 7,6 milhões de livros Ágape e 1,5 milhão de CDs, com o mesmo valor. Veja como a pirataria atua."

O padre é o atual tesouro da Sony, que tem em Roberto Carlos (120 milhões de discos vendidos no mundo) a estrela maior. A empresa iniciou seu plano de reestruturação, o que incluiu demissão de 160 pessoas, mudança para um prédio mais barato e renegociação de contratos, há oito anos. Ficou no vermelho de 2001 a 2006; lucra desde então. "Hoje somos muito mais eficientes, crescemos 40% nos últimos três anos", diz o presidente, Alexandre Schiavo. A mudança do perfil do negócio, com o agenciamento de artistas, tem sido peça importante para a saúde das finanças. "A dinâmica hoje é totalmente diferente. Quando não se tinha pirataria, não era preciso pensar em mais nada. Agora a gente não pode ficar sentado esperando um artista salvar o ano, como antes acontecia com o Roberto Carlos."

O Brasil está hoje em 8.º lugar no ranking, conforme o recém-divulgado relatório da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI) - é o único país em desenvolvimento entre os dez maiores. O presidente da ABPD, Paulo Rosa, comemora -, mas com moderação. "Estamos em plena transição de um modelo único de vendas físicas para uma diversificação de receitas", ressalta.

Já para Marcelo Soares, presidente da Som Livre, que teve os padres Robson e Reginaldo Manzotti na lista dos dez mais de 2011, além de Luan Santana, "o momento de pânico já passou". Mas é difícil imaginar que se volte aos anos 90, quando as empresas tinham vários produtos com potencial para chegar ao milhão de cópias, outros aspirantes a 500 mil, vários a 150 mil.

Em 2011, Chico Buarque, o grande entre os independentes, vendeu pela Biscoito Fino 80 mil cópias. A gravadora, que já nasceu na crise, reduziu seus funcionários em 15% no ano passado. Por outro lado, mantém dois pontos de venda próprios em shoppings. "É difícil uma gravadora de MPB ter um boom, mas dá para sobreviver bem assim. Não acho que essa alegria seja momentânea", analisa José Carlos Guida, diretor executivo.

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