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Ignácio de Loyola Brandão
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O dinossauro queria ir ao cinema

Escondido, ele pensava: Estão mal os brasileiros, vão enfartar. Nunca mais venho aqui

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

21 Agosto 2015 | 02h00

Desde que um senador despudorado xingou um procurador da República de filho de uma rameira, ou meretriz, ou marafona, ninguém mais tem surpresas neste Brasil. Tudo vale, tudo pode. Assim, na manhã de domingo, quem primeiro achou natural a chegada do dinossauro foram “as meninas da padaria CPL”, como são chamadas as professoras aposentadas que se juntam às 9 da manhã para o café. Elas viram o animal, imponente, atravessar civilizadamente pela faixa, vindo da rua Artur de Azevedo. O bicho olhou para a padaria, todas as mesas ocupadas, e dirigiu-se para a banca de jornais. Naquele dia, a Lourdes, conhecida como “a bela da banca”, não estava, Cid lhe dera um dia de folga, de maneira que quando o dinossauro chegou, Cid hesitou, receoso, porém se acalmou quando ouviu uma voz delicada:

– Bom dia, meu senhor. Por favor, ainda terá, por acaso, o jornal de sexta-feira com a programação de cinemas? 

Um dinossauro educado, cumprimentando, dizendo por favor, palavras esquecidas neste mundo de hoje, falando bom português, era de arrepiar. Nada daqueles rugidos, ou seja lá como se chamam os sons dinossáuricos. Cid lembrou-se que o Jonas, um senhor sempre de bolsa na mão, que vive pelas redondezas, não tinha apanhado o seu exemplar do Estadão na sexta-feira. Achou o suplemento. Então, o animal pediu:

– Como o senhor vê, não tenho mãos para segurar uma revista. Olhe por mim em que cinema está sendo exibido Jurassic World – O Mundo dos Dinossauros. 

Cid demorou um pouco. Adoraria tentar levar o Dino (ele estava ficando íntimo) até sua casa. Seria um presente para o filho Leonardo, tão novo. Imaginou a alegria do menino, passando o domingo com um bichão daqueles. Nunca mais se esqueceria. Seria um estegossauro? Um paquicefalossauro? Um ornitópode ou um ceratopsídeo? Cid vê canais como Discovery.

– Olha, o filme está no Cinemark 1 Aricanduva e também no Cinemark 1 Guarulhos.

– Qual você acha que é o mais próximo? Posso te chamar de você, não? 

– Não sei, mas o José, aqui da padaria, mora em Guarulhos, e, de repente, ele pode te levar.

– Ora, meu senhor, vocês humanos são simpáticos, ainda que tenham políticos medíocres e analfabetos que vivem no período do caos primordial. Como você vê, não caibo dentro de um carro. Falei certo? Este verbo é difícil de conjugar. Vou a pé mesmo, estou acostumado. Aliás, se eu for de carro, com essa nova lei de dirigir a dois metros por hora, eu nunca chegaria. 

– Melhor o senhor levar meu celular, disse um garotão que tinha saído da Underdog, a lanchonete de jovens que está bombando na rua. Coloco as coordenadas no GPS e o senhor... Senhor, não... Não interessa, leve, senão vai se perder.

– E como devolvo?

– Deixe aqui com alguém do ponto de táxi. Ou com as jovens da farmácia, ou com o vendedor de milho verde que vem à noite. Ou com a Jane no Toque de Vinho.

O Dinossauro apanhou o celular com a boca e partiu. Andava rápido, todo mundo saía da frente. Ninguém acreditava que estava vendo um bichão daqueles, usando a ciclovia para não atrapalhar o trânsito. Os que viram, jamais dirão que viram. Sabem que serão chamados de loucos, podem ser internados. Há coisas que não devemos ver. Pois até tivemos um presidente que jamais viu coisa alguma, nega tudo. Confessar que viu algo estranho é ser tachado de insano, zureta, miolo mole. O que sei é que o Marcelo Duarte, especialista em curiosidades, seguiu o dinossauro. O dino (vejam a intimidade) chegou ao cine Aricanduva, comprou meia-entrada, a bilheteira acreditou que ele tinha sete milhões de anos e nem pediu documento. Depois, desmaiou. O porteiro ainda perguntou:

– Meu caro, você é um anquilossauro, não é? Conheço pela carapaça. Parece tanque da polícia contra manifestantes. Nunca tinha visto um. Nem precisava comprar entrada. É um honra tê-lo entre nós.

Assim que entrou, o amável dinossauro estranhou os espectadores saindo apressados, atropelando-se. O projecionista ficou porque não sabia de nada, só soube quando o filme terminou e o bichão gritou na plateia:

– Eta filme mentiroso! Não somos brutos, não somos pré-históricos. Se somos pré-históricos, aquele presidente da Câmara é o quê? Vou voltar para minha era mesozoica, tem mais civilização.

Ao sair, irritou-se, havia uma multidão querendo tirar selfies. Atropelavam, batiam, uivavam, se acotovelavam. Então, ele rugiu como um dinossauro de cinema e todos o chamaram de grosseiro, mal-educado, temperamental, agressivo, incitador de violência e até de vândalo e black bloc. Aproveitaram e depredaram tudo ao redor. Escondido num posto de gasolina, aquele que tem de tudo, ele pensava: Estão mal os brasileiros, todos vão enfartar, pegar úlcera. Nunca mais venho aqui.

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