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O dilema do herdeiro universal

Luis Ernesto ligou para um amigo Roberto:

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2014 | 03h26

- O que é herdeiro universal?

- Herdeiro universal? Por que deseja saber isso? De onde tirou? É uma expressão jurídica.

- Recebi uma carta dizendo que sou herdeiro universal.

- De quem?

- Não conheço a pessoa. Não entendi direito, é difícil de ler.

- Deve ser linguagem jurídica. Não é fácil mesmo.

Luis Ernesto parecia inquieto. Não entendia os termos, não conhecia nenhuma pessoa com aquele nome que assinava a carta. Tinha ligado para Roberto porque este era o mais inteligente de seus amigos, tinha estudado na universidade. Barbeiro, Luis Ernesto cortava os cabelos de Roberto, um homem metódico, mensalmente no mesmo dia e hora.

- Será que vou ser preso?

- Não, nada disso. Herdeiro universal é coisa boa. Quer dizer, pelo que sei, você vai herdar alguma coisa de alguém que gostou de você e deixou um testamento te beneficiando.

- Então, não é ruim?

- Claro que não. Pode ser que você vá receber uma casa, dinheiro, terreno, um carro, um sítio, tanta coisa.

- Como se fosse Mega Sena?

- Nem tanto. Mas nunca se sabe. Fique calmo, pode ser uma bela notícia.

Roberto tinha uma reunião com o conselho da Unesp, precisou desligar, mas combinou que, assim que tivesse um tempo livre, leria a carta, conversaria com um advogado amigo, o Sidney Sanchez, pessoa categorizada, que gostaria de ter uma ação em que pensar, uma complicação para desembaraçar. No entanto, a vida social nesta cidade é agitada, são almoços, happy hours, esquiar na represa, jogar tênis no clube, jantares variados, assistir a show no Sesc, participar de uma manifestação de rua, irritar-se no trânsito haddadiano (quer dizer, paralisado), enfim... grande e diverso é o mundo... Assim, Roberto acabou se esquecendo do herdeiro universal. Até que chamou o barbeiro para cortar o cabelo, porque Roberto é requintado, é atendido em casa. Somente quando Luis Ernesto entrou com um envelope nas mãos é que Roberto se lembrou. O barbeiro estendeu a carta:

- Antes de cortar, doutor Roberto, o senhor me leia a carta.

- Claro, era sobre isso que ia falar, consultei amigos, precisava do documento.

Roberto leu e à medida que lia empalidecia. Terminou e tremia. Luis Ernesto percebeu, ficou preocupado.

- É muito ruim, doutor?

- Não! É bom. Mas é muita responsabilidade.

- Grave assim?

- Muito! Demais! Nem imagina quanto é complicado.

- Responsabilidade? O que aconteceu?

- Você acabou de ser herdeiro universal do mundo.

- Do mundo?

- Do mundo, da Terra, de tudo.

- Do Brasil...?

- Do Brasil e de todos os países, dos oceanos, povos, de tudo. Tudo será seu!

- Tudo? As ilhas também. Meu sonho é conhecer uma ilha! Mas, isso é bom ou ruim?

- É complicado, você precisa pensar muito, pedir ajuda.

- E o que o senhor acha que devo fazer? Aceitar?

- Quer uma opinião sincera?

- Claro, é tudo o que quero.

- Aceite. Aceite, pegue. E jogue tudo fora. Fará um bem para a humanidade.

- Jogar fora o mundo? Por quê?

- O mundo está violento, medíocre, rançoso, cheio de medo, de ódio, ultrapassado, avariado, degradado, decadente, bichado, embolorado, mofado, enferrujado, oxidado, apodrecido, carunchado, desnaturado, fazendo água, deteriorado, podre, fétido, decomposto, corrupto, fodido.

- E o que faço? É uma batata quente nas minhas mãos.

- Caia fora! Mas me avise quando pretender se desfazer dele.

- Posso telefonar, fique tranquilo.

- Porque vou te pegar para seguirmos o conselho daquela antiga canção: "Pare o mundo que vamos pular fora".

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