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O dilema da depiladora

Meses atrás, uma amiga compartilhou nas redes sociais uma de suas maiores angústias: “Se eu fizer um bolo e for levar para a minha depiladora Selma, estarei sendo fofa ou um pouco assustadora?”, perguntou, aflita. No mesmo post, ela explicou que nutria um afeto significativo por Selma, mas tinha medo de soar psicopata porque elas se viam apenas uma vez por mês. Preparar um quitute especialmente para ela poderia soar “como se eu estivesse querendo forçar uma amizade que só existe na minha cabeça”. 

Vanessa Barbara, O Estado de S. Paulo

31 Outubro 2016 | 03h00

Ingrid pediu a validação dos amigos, que se pronunciaram em sua maioria pelo merecimento da depiladora. Uma delas até se prontificou a buscá-la na delegacia, na eventualidade de Selma resolver prestar queixa. Outro, mais prudente, sugeriu que ela começasse com um cupcake. 

No fim das contas, Ingrid assou um bolo formigueiro, mas, num ímpeto de covardia, cortou apenas um pedaço, que botou numa tigela e levou de presente. Selma pareceu apreciar o quitute. Até o momento não houve represálias ou a ocorrência súbita de pelos encravados.

O saldo positivo deste exemplo particular do Dilema da Depiladora não lhe diminui a complexidade nos âmbitos moral, existencial e psiquiátrico. Até onde é permitido demonstrar afeto a alguém a quem pouco se conhece, mas que ganhou seu coração pela habilidade no manejo da cera quente? É anormal nutrir amizades platônicas? Qual a linha divisória entre fofura e psicopatia? 

Costumo me deparar com esse dilema constantemente.

Tomem como exemplo o Julio, por quem passei a nutrir sentimentos de descomedido afeto desde que ele adotou a Frida, uma adorável cachorra que resgatei na rua (cf. crônica de 26/03/16, “Tá com pena? Leva pra casa!”). Já fui visitá-los várias vezes e pensei em convidá-los para o meu casamento, embora pessoas de meu convívio tenham sugerido que, no mundo real, Julio e Frida não são propriamente meus amigos íntimos.

Acrescente-se como agravante que eu nem fiz uma festa de casamento, mas estive cogitando mudar de ideia só para poder convidá-los. Imagino os dois constrangidos num salão vazio diante de uma banda de grindcore chamada Caninus e um rodízio de frango, e eu me esforçando para não ficar eufórica. 

Além disso, comprei há pouco um cacto de crochê com as feições da artista mexicana (uma Fridinha Kahcto) só como desculpa para uma nova visita. Temo, porém, acabar ocasionando a troca da fechadura da casa. (Vocês achariam muito psicopata se eu começasse a procurar um apartamento em Pinheiros?)

Outras pessoas por quem tenho sérias dificuldades em equilibrar proximidade efetiva e demonstração de afeto são: os porteiros do meu prédio, o meu psiquiatra, a minha professora de dança, o Luis Fernando Verissimo e o cão Paçoca. 

Todos os dias aguardo a chegada de um oficial de justiça com uma ordem de restrição. Enquanto isso não acontece, continuo exagerando nos cactos de crochê.

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