O digital inevitável. Cultura enquanto serviço

Você lembra como fazia, há dez anos, para ouvir um determinado artista que alguém tinha comentado? Era preciso esperar que o disco fosse lançado por alguma gravadora e, caso o artista fosse estrangeiro, torcer para que o álbum saísse no Brasil. Se a obra em questão fosse audiovisual - filme ou programa de TV - o processo era mais complexo, pois os lançamentos eram ainda mais escassos.

Alexandre Matias, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2010 | 00h00

Dez anos dentro do século 21 e como é que um cidadão online descobre sobre determinado artista ou filme? O método mais simples e popular é o YouTube. O site de vídeos do Google tornou-se um imenso repositório de cultura que abriga trechos de shows, programas de TV, trailers de filmes, vídeos de gente filmando discos raros em vinil sendo tocados, artistas que se lançam primeiro em clipes e músicas que outros usuários sobem no site sem autorização dos autores.

Desde que o Google comprou o YouTube há a promessa de limpar o site de conteúdo autoral indevido. Filtros foram criados para detectar vídeos colocados à revelia de seus donos, parcerias foram feitas com estúdios de Hollywood e gravadoras multinacionais, mas o YouTube ainda segue uma imensa terra-sem-lei no que diz respeito a direitos autorais.

(A culpa dessa rixa entre a internet e os velhos produtores de conteúdo pode ser posta nas gravadoras majors que decidiram "resolver" o "problema" da música digital processando quem baixava MP3 sem autorização. Caso fizessem uma associação com o Napster, o primeiro software que permitiu o download digital em escala massiva, talvez hoje estivéssemos felizes por pagar por MP3 legais e de excelente qualidade musical. Mas divago.)

Além do YouTube, no entanto, há outras formas de se consumir conteúdo digital sem que isso necessariamente esteja associado a downloads ilegais. Mesmo porque boa parte dessas alternativas, como o YouTube, nem cogita a possibilidade de download. São serviços pagos por assinatura em que é possível se ouvir qualquer tipo de música, em qualquer computador, a qualquer hora.

São nomes estabelecidos na última década (como as redes da Apple, Sony, Microsoft e Nintendo) e novatos que já fazem muito barulho (como a locadora online Netflix ou os serviços de assinatura musical como Spotify e Grooveshark). Nenhum deles está disponível no Brasil, mas já são uma tendência sem volta: o conteúdo cultural em vez de ser estocado em lojas e prateleiras agora é reunido em HDs e servidores. Cultura, aos poucos, deixa de ser um produto para se tornar um serviço. E se isso já começou a mudar a forma esse consumo, vamos começar a ver como isso afeta a produção cultural. O digital inevitável irá, necessariamente, mudar conceitos como "disco", "livro" e "filme" - novos artistas já estão fazendo isso. Os anos 10 estão só começando. Feliz 2011!

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