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O digital é o limite

Cannes foi a vitrine que anunciou/consolidou as mudanças que haveriam de marcar o cinema da década. Em 2000, o maior evento planetário de cinema promoveu um grande seminário para discutir as novas tecnologias.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2010 | 00h00

Elas já vinham se impondo há pelo menos 20 anos, desde que, no começo dos anos 1980, Francis Ford Coppola e Jean-Luc Godard incorporaram o vídeo e fizeram O Fundo do Coração e Número 1. Nos anos seguintes, Peter Greenaway ligou-se a técnicos japoneses de ponta para fazer pesquisas de alta definição. Há dez anos, o aporte dessas novas tecnologias já era tão grande que o Festival de Cannes reuniu artistas e técnicos para uma ampla discussão sobre o assunto.

Surgiu a questão - e se o suporte do cinema deixasse de ser a película, o celuloide, ainda assim seria cinema? Cannes não ficou só na discussão e o júri presidido por Luc Besson deu a Palma de Ouro a Dançando no Escuro, de Lars Von Trier. De repente, o digital passou a ser o assunto dominante. Uma interrogação recorrente era se o digital teria um impacto estético tão forte quanto tiveram as câmeras portáteis e os equipamentos de gravação de som direto nos anos 1960, pedra de toque da afirmação de movimentos como a nouvelle vague.

Dez anos depois de Dançando no Escuro, as novas tecnologias mudaram tudo. Filmes podem ser feitos hoje com o mínimo de dinheiro, embora os efeitos de ponta de blockbusters como Avatar, de James Cameron, ou A Origem, de Christopher Nolan, tenham inflacionado os custos de produção. E o problema básico não mudou. Filmes podem ter-se tornado baratos, em termos, democratizando a produção, mas o imenso problema continua sendo mostrar essas imagens.

Continua a ditadura da exibição. Existem hoje telas alternativas, mas o cinema, como negócio, continua, e agora mais até, em mãos das grandes empresas produtoras e distribuidoras de Hollywood. Mas, no Brasil, o diretor José Padilha, associado a Marcos Prado e Marco Aurélio Marcondes, conseguiu montar um sistema próprio para a distribuição de Tropa de Elite 2 e o resultado é que o filme fez história neste ano como o maior sucesso de público do cinema brasileiro de todos os tempos, alcançando a marca de 11 milhões de espectadores.

No primeiro semestre, em visita a São Paulo para promover o DVD de Avatar, James Cameron fez uma afirmação ousada. Disse que, hoje, o limite dos cineastas é a imaginação. Existem tecnologias para fazer não importa o quê. Prova disso é o desenvolvimento da animação, que, com a tecnologia digital, se tornou tão apurada que está saindo do gueto. Por mais brilhantes e até vanguardistas que tenham sido algumas animações, ao longo do tempo - Branca de Neve e os Sete Anões e Fantasia, na Disney; o Submarino Amarelo, de George Dunning, nos anos 1960, elas sempre foram consideradas um gênero em si, a oitava arte. Hoje, Toy Story 3, de Lee Unkrich, e Ratatouille, de Brad Bird e Jan Pinkava, são experiências radicais que competem com o mais forte cinema de autor, ou o mais realista dos dramas.

As novas tecnologias terminaram, sim, por criar um impacto estético. Perfeccionando um sistema chamado de motion capture, que captura os movimentos humanos no computador, o neozelandês Peter Jackson iniciou a década fazendo a trilogia O Senhor dos Anéis. Baseado na saga erudita de J. R. R. Tolkien, não foi só um evento técnico. O filme antecipou uma das tendências da década - o cinema como veículo de massificação da cultura erudita. Um pouco na mesma vertente, Christopher Nolan recorreu aos labirintos de M.C. Escher tanto quanto a Freud (à psicanálise) para investigar os sonhos em A Origem.

O digital serviu a todos os gêneros e estilos. O australiano Baz Luhrmann usou-o para equalizar a cor de Moulin Rouge e o musical com Nicole Kidman anunciou o retorno triunfante do gênero a Hollywood. Um diretor que sempre trabalhou com efeitos, Steven Spielberg, concebeu uma trilogia informal, formada por O Terminal, Guerra dos Mundos e Munique, para refletir sobre o 11 de Setembro, sem que uma palavra seja dita, em nenhum dos filmes, sobre o atraque às torres gêmeas.

Cinematografias periféricas abriram novas janelas para a contemplação do mundo. O tailandês Apichatpong Weerasethakul colocou o cinema de seu país no mapa com Mal dos Trópicos. Periférico numa cinematografia importante como a francesa, Abdellatif Kechiche usou o digital em O Segredo do Grão, mas o que faz de seu filme especial é a investigação da linguagem oral - o que falam e como falam os islâmicos integrados, melhor seria dizer discriminados, na sociedade francesa.

Manipulação. O 11 de Setembro foi o grande fantasma da primeira década do terceiro milênio. Os anos 90 foram marcados pela queda do Muro de Berlim e pela derrocada do império soviético. Os 2000 por aquelas imagens que o mundo viu pela TV. Por mais discutido que seja, Michael Moore, com frequência acusado de manipulação, fez de Fahrenheit 11 de Setembro não só uma crítica da era George W. Bush mas também da manipulação das imagens pela mídia a serviço do poder.

Falamos só de novas técnicas. Não se pode esquecer que um adepto do celuloide, Pedro Almodóvar, tem feito avançar outra discussão - sobre comportamentos e novas organizações familiares. Difícil é selecionar o melhor Almodóvar. Tudo Sobre Minha Mãe? Fale com Ela?, Mas a maturidade artística do autor espanhol foi um dos destaques da década.

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