New York Times
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O difícil desafio da primeira frase

Algumas lições de 'Good Prose: The Art of Nonfiction'

Tracy Kidder e Richard Todd,

09 de março de 2013 | 01h23

Escrever é falar com estranhos. Você quer que eles confiem em você. Seria bom que começasse confiando neles - imaginando para cada leitor uma inteligência no mínimo igual à que imagina para você mesmo(a). Você seguramente sabe algumas coisas que o leitor não sabe (se não, por que escrever?), mas ajuda pensar que o leitor tem conhecimentos inacessíveis a você. Não é uma questão de generosidade, mas de realismo.

A boa escrita cria um diálogo entre escritor e leitor, com o imaginado leitor em alguns momentos questionando, criticando e, por vezes, assim você espera, concordando. O que a pessoa "sabe" não é algo que ela possa tirar de uma prateleira e entregar. O que ela sabe em prosa é amiúde o que descobre no ato de escrevê-la, como na melhor das conversas com um amigo - como se ela e o leitor fizessem a descoberta juntos.

Dizem aos escritores que eles precisam "agarrar", ou "fisgar", ou "capturar" o leitor. Mas pense nessas metáforas. Seu tema é violência e compulsão. Elas sugerem a relação que se poderia querer ter com um criminoso, não com um leitor. Montaigne escreve: "Não desejo que ninguém use a força para obter minha atenção".

Inícios são um exercício de limites. Você não pode fazer o leitor amá-lo na primeira sentença ou parágrafo, mas pode perder o leitor logo de cara. Ninguém espera que um médico cure na mesma hora, mas o médico seguramente pode alienar o paciente na mesma hora com brusquidão, bravatas, indiferença ou confusão. Há muito a se dizer a favor de um início calmo.

A primeira linha mais memorável da literatura americana é "Call me Ishmael" ("Podem me chamar de Ishmael", em uma tradução possível dessa abertura de ‘Moby Dick’, de H. Melville). Três palavras, quatro tempos. A frase é tão conhecida que, às vezes, citada fora de contexto, é compreendida como uma ordem professoral, uma voz estrondosa do púlpito. Ela é mais apropriadamente ouvida como um convite, quase casual, e, dada a complexidade do que vem depois, é maravilhosamente simples. Quem tentar dizê-la em voz alta, provavelmente o fará com muita suavidade, como se estivesse conversando.

Muitos ensaios, memórias e narrativas memoráveis atingem alturas dramáticas com inícios calmos como esse. In Cold Blood (A Sangue Frio) é lembrado por seu relato fascinante e assustador sobre dois assassinos e suas vítimas, e poderia ter começado de várias maneiras dramáticas. Começa, porém, com uma passagem descritiva contida: "O vilarejo de Holcomb fica nos altos trigais do Kansas oriental, uma região desértica que outros moradores do Estado chamam de ‘confins’. A cerca de 70 milhas a leste da fronteira do Colorado, o campo, com seus céus azuis profundos e um ar límpido de deserto, tem uma atmosfera que é mais Extremo Oeste do que Meio-oeste".

Embora o viés para o início calmo seja apenas um viés, uma predisposição, ele pode servir como uma verificação útil de excessos. Alguns inícios famosos foram certamente escritos como proposições grandiosas ("Todas as famílias felizes se parecem ...") ou considerações vastas ("Era o melhor dos tempos..."). Esses gestos retóricos mostram uma confiança extrema, e mais de um século de leitores foi cativado por eles. A exuberância não deve ser negada a ninguém, mas é sempre prudente lembrar de que não se é Tolstoi ou Dickens e que a modéstia também pode ressoar. Podem me chamar de Ishmael.

Tímido ou ousado, um bom começo tem de ser claro. Uma linha sensível perpassa a prosa; as coisas se encadeiam com a lógica literal ou com a lógica do sentimento. A clareza não é uma virtude entusiasmante, mas é virtude mesmo assim, em especial no começo de um trabalho em prosa. Alguns escritores - alguns acadêmicos, burocratas e críticos de arte, por exemplo - parecem resistir à clareza a ponto de escrever confusamente de propósito. Poucos admitiram isso. Uma que o fez foi a maravilhosa (mas não para ser imitada) Gertrude Stein: "Minha escrita é clara como lama, mas a lama se assenta e o riacho límpido flui e desaparece". Curiosamente, essa é uma das frases mais claras que ela jamais escreveu.

Para muitos outros escritores, escritores de todos os gêneros, a clareza simplesmente cai vítima de um desejo de alcançar outras coisas, de ofuscar com estilo ou bombardear com informação. Com a boa escrita, o leitor experimenta uma dupla experiência, sucumbindo à história ou às ideias enquanto desfruta da maestria do escritor. Aliás, uma maneira de saber que a escrita merece ser chamada de arte é a coexistência desses dois prazeres na mente do leitor.

Mas uma coisa é quando o leitor se compraz com as realizações do escritor, outra quando o prazer do próprio escritor é visível. Habilidade, talento, inventividade, tudo pode se tornar exagerado e intrusivo. E isso é especialmente verdadeiro nos começos de coisas. A imagem que chama a atenção para si é, com frequência, a imagem que não se pode dispensar. O escritor trabalha a serviço de história e ideia, e sempre a serviço do leitor.

Às vezes o escritor que sobrecarrega uma passagem inicial está simplesmente com medo de aborrecer o leitor. Um temor respeitável, mas nada é mais tedioso que a prolixidade. Em sua introdução a Os Elementos do Estilo, E.B. White sugere que o leitor está sempre em risco de confundir. O leitor é "alguém chafurdando num pântano" e cabe ao escritor (a quem pertence o pântano, é claro) "drenar esse pântano rapidamente e colocar esse alguém em terreno seco ou ao menos atirar-lhe uma corda". (...)

Não se pode dizer tudo de uma vez. Boa parte da arte dos inícios é decidir o que guardar para mais tarde, ou para não dizer. Faça uma coisa de cada vez. Prepare o leitor, diga tudo o que ele precisa saber para continuar lendo, e não diga mais. Jornalistas são instruídos a não "enterrar o lead" - instruídos, melhor dizendo, a assegurar que relatem primeiro os fatos mais importantes de uma história. Isso não se justifica em formas mais longas de escrita. O coração da história é geralmente o lugar a se chegar, não o lugar para começar. Evidentemente, o leitor precisa de uma razão para continuar, mas a melhor razão é simplesmente a confiança de que o escritor vai a algum lugar interessante. George Orwell começa Homenagem à Catalunha com a descrição de um miliciano italiano sem nome cujo significado é desconhecido para nós, embora sejamos solicitados a ouvir sobre ele com algum detalhe. No fim de um longo parágrafo de descrição, Orwell escreve:

"Gostaria que ele gostasse de mim como eu gostei dele. Mas também sabia que para reter minha primeira impressão dele não devo vê-lo de novo; e não preciso dizer que nunca mais o vi. Era comum fazer contatos como esse na Espanha." (...) / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

GOOD PROSE: THE ART OF NONFICTION

Autores: Tracy Kidder e Richard Todd

Editora: Random House

(e-book, R$ 33,09)

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