O diário da peça, feito pelo diretor Felipe Hirsch

Esta peça começou a ser criada há um ano e meio. Mas, é claro, começou a ser criada quando pisei em Curitiba, pela primeira vez, em 1980. Morei, minha vida por aqui, no alto da cidade, parte que chamamos de Alto da Rua XV. Do belo centro da minha juventude, de lugares conhecidos por Boca Maldita ou Rua das Flores, até a minha casa, é certo, sempre passar pela casa cinzenta de esquina onde mora o Vampiro. Para sempre com as janelas fechadas, até hoje, do centro sucateado até a casa de minha mãe.Em dezembro de 2006, finalmente, começamos os ensaios práticos de Educação Sentimental do Vampiro". Da estréia de nosso último espetáculo até agora, os quase quarenta livros de Dalton Trevisan foram lidos e relidos incansavelmente até chegarmos numa possível primeira seleção para a peça. Seleção essa renovada três ou quatro vezes. Nos reunimos, à princípio, em um Clube Folclórico Polonês, numa bela casa de madeira e lambrequins. Nesse lugar e nesses dias, estiveram reunidos atores, assistentes, criadores, técnicos, produtores e convidados. Dessa primeira e difícil parte dos ensaios devo meu sincero agradecimento a Leonardo Medeiros. Depois, uma sala asséptica, branca, climatizada e todos reunidos mais uma vez. Até a estréia, mais de quatro meses de ensaios.Maior desafioComo eu francamente não esperava, foi muito dolorido, intenso. Sabia que seria difícil e que se tratava do maior desafio da história da Companhia. Não sabia o quanto seria uma experiência reveladora, mas antes disso, capaz de me tirar o chão dos pés. Por mais íntimo do universo do autor, que acredite, é muito específico, tinha o eco do tratamento realista que Ademar Guerra dera às suas belas montagens. Na verdade, nunca sofri com isso. Pelo contrário, agradeço a cada envolvido com esses projetos (em especial a minha amiga e produtora Nena Inoue) por me inspirarem e balizarem no caminho que havia decidido seguir.Tinha também a certeza de querer ser fiel a delicadeza do trabalho desse autor, não pelo exercício do literalismo, mas por acreditar que o choque entre o mundo de Dalton Trevisan e a visão dos criadores envolvidos nesse projeto poderia ser, conservando a integridade das duas partes, algo poderosamente original.ExpressionismoFoi quando li uma frase de Oskar Kokoschka, de 1912, cerne conceitual do expressionismo, que inspirou Poty, o maior ilustrador de Dalton Trevisan: "Pois eu os representei, tomei o lugar deles e transmiti sua imagem por meio de minhas visões." Em lugar de descrever uma impressão do mundo que o cercava, o artista imprimia seu temperamento sobre a sua visão do mundo. Esse conceito revolucionário ajudou no desenvolvimento da idéia de personalidade artística que caracterizou a avant-garde. Desde então, o "adjetivo" expressionismo vêm sendo bem e mal usado para definir as mais diversas manifestações artísticas.Como as de Raul Cruz, por exemplo. Que, influenciado pelo ambiente de Dalton Trevisan, gerou uma linda série de linóleo-gravuras usadas nas imagens do cenário desse espetáculo. Raul Cruz, artista plástico inspirado e indomável, morreu muito jovem. Ele é um dos elos perdidos que procurei entre o mundo do vampiro e a homenagem que queremos fazer a esses artistas como Kirchner, por exemplo.Reconhecimento na obraAcredito, porém, que exista uma grande diferença entre "entender e aplicar emocionalmente o conceito expressionista", e "simplesmente citá-lo como estética e forma". É claro que desse ponto em diante, nossas referências passam por esses artistas e mesmo nesse texto, insisto em citá-los como fontes de inspiração e referências de todos os envolvidos com a obra de Dalton Trevisan, porém é preciso que se entenda que a idéia de nos reconhecermos na obra do Vampiro era nosso principal objetivo.Mas, era preciso ir além do instinto que me dizia pra seguir por caminhos soturnos. Eu, infelizmente, sou amaldiçoado por essas vozes que repetem "por que?" e, entre porquês, me encontrei perdido, o que é que isso queira dizer.Enquanto isso, do outro lado da mesa, Daniela Thomas havia feito um trabalho lindo em homenagem à obra do cenógrafo tcheco Svoboda. Trabalho esse que refletiu na nossa montagem de Bluebeard`s Castle que consideramos o que fizemos de melhor e que agora definitivamente reflete nessa Educação Sentimental do Vampiro. Em Bela Bartók, os espelhos de Svoboda e Daniela eram as portas que refletiam o Duque por dentro de sua fortaleza. Agora, os espelhos negros não refletem Dalton Trevisan.Do outro lado do oceano, da assombrada Whitechapel, a minha amiga, e fotógrafa preferida, Carol Sachs me manda um arquivo com fotos de outro tcheco (estamos fazendo um Kafka, afinal?), dessa vez o incrível fotógrafo Kouldeka, a título de me convencer de que a fotografia não anda os mesmos passos uróboros das outras artes em geral. Pausa. Pela primeira vez vejo um segundo do que sentia.8 e 1/2 de FelliniPassei, em claro, esse tempo, vendo e revendo 8 e 1/2 do Fellini. E, vejam como são as coisas, isso não refletiu no resultado final. Como também, a noite estranha que passei quando adormeci durante os créditos e os aviões pesados de Dr. Strangelove. Isso não está no resultado final. O que, sem dúvida, está no resultado final, pertence a um lugar muito mais distante, inacessível e sufocado em mim. Está no cheiro dessa cidade desde os bairros nobres até a área metropolitana. Está no gosto da água das torneiras, no mofo das roupas de frio retiradas dos armários nos dias de inverno e o céu azul, está no meu primeiro passeio de bicicleta, no uivo macabro do terreno baldio, nas mentiras que contei, no tato do primeiro sexo, nos olhos de todos os amigos de infância, no que me envergonho, no que me orgulho, no que faz de mim único e qualquer um.Me respondi ao por que mais importante. Percebi que só saberia contar o Dalton que conheço. O que testemunhei. O que me assombrou no caminho de casa. E isso era o choque psicológico enfim entre o mundo dele e o meu.Melhor, seria entre o mundo dele e de todos os envolvidos. AgradecimentosTratei de responsabilizar todos em culpa e espalhar a praga (Kafka?). E, a exemplo de nosso último espetáculo, os atores têm uma imensa culpa sobre o resultado desse processo (?). Bem-vindo, Damasceno, Jorge, obrigado Zeca, Maureen e parabéns por 15 anos Gui, Erica, e muito, muito obrigado por sua inspiração sem fim, Magali. É claro que aqui entraria a parte chata dos agradecimentos.Mas eu vou resumir assim: Obrigado a todos os envolvidos nesse projeto e um agradecimento muito especial a você Dani Thomas e ao Murilo Hauser. Obrigado a todos, todos do Sesi, por nossa parceria todo ano ímpar.A partir daí, durante os ensaios, com a maior delicadeza, tentamos não usar tinta forte no trabalho de Dalton Trevisan. O equilíbrio entre luz e sombra. Estar no segundo anterior à narração. Não ilustrar. Estar no segundo anterior à própria criação. Ver e escrever. Imaginar e escrever. Sabíamos que a obra de Dalton não era realista, ao contrário, tinha na sua linguagem o passaporte da poesia. Porém, como Carlos Della Stela diz, sua carga humana é tão clara que somos capazes de suspender nosso julgamento diante da mais macabra ação que uma personagem consiga realizar. Nos reconhecemos naquele maldito, feitos da mesma matéria. Se desumanizarmos os personagens de Dalton Trevisan desconhecemos seus maiores valores. Pelo contrário, temos que nos reconhecer em Dalton Trevisan. Assustadoramente, nos reconhecer. Esse é o choque entre nosso mundo escondido e o do vampiro.É claro que quando falamos em "expressionismo", talvez, ainda antes do abstracionismo de Kandinsky, de Otto Dix, Grosz, Max Beckmann, das visões apocalípticas de Ludwig Meidner, pensemos no Gabinete do Dr. Caligari, no Golem, em Nosferatu e no gênio de Fritz Lang. O cinema alemão do início do século e as obras em madeira (woodcuts) de artistas como Erich Heckel e Kirchner nos remetem ao expressionismo preto-e-branco, de luz e sombras. Isso, e com certeza Käthe Kollwitz, deve ter influenciado Poty Lazzarotto, o maior ilustrador da obra de Dalton Trevisan.Cidade kafkianaBem, Poty foi o responsável pela criação do primeiro mural na União Nacional dos Estudantes (UNE), na Praia do Flamengo, sob o tema "O Processo" de Kafka. Este trabalho foi destruído pelo golpe militar de 1964. Chegamos enfim à Praga de Kouldeka e Svoboda. Uma nota de rodapé: se aprendi algo sobre Curitiba é que se trata da cidade mais kafkiana de que tenho notícia depois de Praga. Gerações morrem e apodrecem em seus processos.Mas Dalton Trevisan, para além de Kafka, é devoto dos russos e de Machadinho (como chama Machado de Assis). Para ele "em cada esquina de Curitiba um Raskolnikov te saúda, a mão na machadinha sob o paletó", e sobre Capitu, Dalton lapidou alguns de seus melhores contos: "Até você, cara - o enigma de Capitu? Essa, não: Capitu inocente? Começa que enigma não há: o livro, de 1900, foi publicado em vida do autor - e até sua morte, oito anos depois, um único leitor ou critico negou o adultério?".Um dos grandes momentos de prazer desses ensaios foi ler e perceber a evolução do Dalton de Sete Noites de Pastor, da revista Joaquim no início da década de 50, ainda simulando a sensação de um conto russo, para o Dalton de No Beco, já nas suas Novelas Nada Exemplares no final da década de 50, com uma personalidade eterna.Quando estávamos no auge do desespero da compressão que todo mergulho profundo impõe, eu perguntei para todos os envolvidos o que eles desejariam dizer ou realizar com esse projeto. Um número grande de idéias, sensações e formas foram descritas e reconhecidas. Batizamos esse processo de "Ensaio Atonal", porque se colocássemos esses desejos lado a lado teríamos uma obra assim. Isso nos levou até a manifestação do movimento expressionista na música com a atonalidade que também é reconhecida por multitonalidade. As figuras centrais do período expressionista na música foram Shoënberg (período atonal, já que ele é o responsável pelo desenvolvimento da música dodecafônica), e seus pupilos Webern e Alban Berg. Também conhecida como Segunda Escola Vienense. Ciclicamente, no que diz respeito à história da Sutil Companhia de Teatro, uma clara influência desse grupo, pode ser sentida em Bluebeard´s Castle de Bela Bartók.Música e atorPercebo que estamos entrando em um terreno que há muito tempo me fascina. A aplicação da relação entre a música (e o seu poder de diminuir ao máximo a mediação racional de seu ouvinte) e as tons, semitons e dissonâncias emocionais dos atores. Assim como me interesso pela utilização do conceito de samplers na dramaturgia. Rodrigo Barros Homem Del Rei e L A Ferreira estão trabalhando na edição dessa trilha que inicia tonal e até barroca e depois segue o caminho dos concertos atonais.Esse grupo de artistas criadores da qual fazem parte a Daniela Thomas, eu, Murilo Hauser, Guilherme Weber, Erica Migon, Veronica Julian e tantos outros, além de cerca de 15 atores chamados especificamente para cada trabalho, é a Sutil Companhia de Teatro que em 2007 comemora 15 anos e que com esses criadores, atores, técnicos, produtores e convidados criou 21 espetáculos entre eles: Estou te Escrevendo de um País Distante (1997), A Vida é Cheia de Som & Fúria (2000), Os Solitários (2002), Temporada de Gripe (2003), Avenida Dropsie (2005) e O Castelo do Barba Azul (2006) e que está preparando agora Educação Sentimental do Vampiro sobre a obra de Dalton Trevisan, Inverno sobre a obra de Paulo Leminski e um tal Sobre o Amor / Não Sobre o Amor.Semente secaEnfim, criamos um espetáculo sempre a partir de uma idéia. Depois discutimos conceitos sobre essa idéia. E o espetáculo vai se formando, com nossas ferramentas, com nossa memória e emoções, discutimos formas também, os instintos e os sentidos sendo educados e reeducados o tempo todo. João Cabral de Melo Neto dizia algo sobre a semente de uma fruta, cerne da idéia, e sua poesia era assim, ao contrário de uma suculenta polpa sugada e dispensada, era a semente seca para ser plantada e produzir outros frutos.Percebo claramente quatro fases distintas na Companhia. A primeira, com influência direta de Abu e Denise Stoklos, era dividida entre trabalhos solo do Guilherme e recriações de clássicos. Dessa época destaco Estou te Escrevendo de um País Distante (1997), espetáculo que foi motivo de tese de doutorado da Dr. Célia Arns de Miranda na USP. Esse espetáculo ainda desperta uma grande saudade de uma parcela do público que acompanha a história da Sutil Companhia.A segunda fase teve início exatamente no ATO V desse espetáculo quando Hamlet estava morrendo nos braços de Horácio e pediu para que, no futuro, ele contasse a sua história. Naquele momento o teatro passou a admitir que Horácio repetisse através dos séculos aquela história e que estivéssemos diante da primeira peça de memória. Estudamos profundamente os caminhos da memória. A memória voluntária e involuntária, mas também a educação dos sentidos, que despertam a memória, por exemplo. Passamos a usá-la para mover com velocidade o tempo e o lugar de nossas narrativas. Essa velocidade é a principal ligação de nossos trabalhos com os roteiros cinematográficos. Não as imagens projetadas na tela como pensam. O choque dos cortes de tempo e espaço induzidos pela narrativa de memória e o choque dessa linguagem rápida com a interpretação naturalista é a principal característica da Sutil Companhia na segunda fase, da qual eu destaco A Vida é Cheia de Som & Fúria (2000).MemóriaAlém desses tempos, a memória até hoje é usada como ferramenta. Depois disso, chega a Daniela Thomas e outra questões muito mais profundas. O caminho artístico é aprimorado conceitualmente. Crescemos muito, pensamos em obras. O papel artístico é questionado o tempo todo. Os erros, as dúvidas, a insegurança, o acaso, todas as distorções do desconhecido. Paramos de lidar com a multiplicação de possibilidades e passamos a lidar com um homem sem saída. Repetindo. Nessa época nos afundamos no desespero do desconhecido. Destaco aí Os Solitários (2002).O agora veio com Temporada de Gripe (2003). Ela nos colocou no caminho das obras inéditas, que podem ser inspiradas em um tema racional ou até instintivo, mas que passarão, sem dúvida, pelos temas ali propostos, como relatei acima. Depois disso, uma conexão com minha juventude Avenida Dropsie (2005) e o que acho o mais emocionalmente impactante trabalho da Companhia: O Castelo do Barba Azul (2006), ainda inédito em São Paulo.Sobre Educação Sentimental do Vampiro, o primeiro trabalho da Sutil Companhia com texto de um autor brasileiro (excluindo os inéditos desenvolvidos pela própria Companhia), quero dizer que escolher Dalton Trevisan foi simples como recolher um livro caído na calçada da frente de sua casa. Observo a janela fechada do Vampiro desde meus 11 anos de idade. Queria passar mais tempo por aqui (escolhemos ensaiar em Curitiba) mas hoje moro em São Paulo.Dalton, LeminskiPor outro lado, trabalhar com Dalton, Leminski ou com nossas idéias é sempre difícil porque não supomos ou arriscamos por se tratarem de coisas tão próximas. Imaginamos, sugerimos, simulamos e criamos uma Rússia, mas não admitimos criar algo tão conhecido. Por sabermos do que se trata. O impossível está a um passo. O possível está o mais distante possível. A imaginação é possível. A vida na sua esquina não é.Mas é a partir dessa compreensão que trabalhar com Dalton Trevisan aos poucos se tornou uma revelação. Não escondo que acho o quadro razoavelmente entediante em qualquer lugar. Três ou quatro dramaturgos jovens me interessam. Acho que existem os mestres vivos como Albee, Pinter, Churchill, Stoppard, Bond, Botho Strauss, por exemplo. Mas, de maneira geral, o teatro está sem grandes idéias dramatúrgicas. No Brasil, acho forte o trabalho do Zé, do Antunes, do Abu, do Gerald, dos Fodidos, do Aderbal, da Sutil, da Companhia dos Atores, do Fernando Kinas, do Vertigem, do Gabriel, do Michel Melamed. Todos esses exemplos estão pensando em dramaturgia de uma outra maneira. Estão escrevendo ou encenando seus espetáculos a partir de suas pesquisas que partem dos mais diversos lugares, textos de teatro, livros de ficção, clássicos revisitados, não literatura, diários, ensaios sociológicos, etc. Todos estão consumidos por suas referências, idéias, emoções, instintos.Todos estão querendo lidar com isso. Não percebo o espaço que percebia para o desenvolvimento formal de uma dramaturgia. A não ser que ela se expanda. Atravesse os limites que a sufocam, experimente formas. Muita água correu bloominianamente por debaixo da ponte. Plágios e originalEsse é o meu desinteresse quanto aos dramaturgos em sua grande maioria. Sejam eles gregos, ingleses, orientais, russos, brasileiros ou esquimós. Essa questão dramaturgia brasileira e estrangeira me entedia tanto que prefiro falar sobre design. Falar de Tenreiro, Sergio Rodrigues, Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha. Falar de música ou de samplers (que, aliás, deveria começar a ser discutido na dramaturgia também). Ou como disse Leminski "Vou te mostrar com quantos plágios se faz um original").Moleskine quase todo riscado, grupo incrível de artistas. Precisamos decifrar o que é esse estado entre a verdade e a função. Conseguimos algo lindo com a voz. Voz que vem de algum lugar nenhum e está ali, nos guiando e sendo guiada. Só vozes masculinas, por enquanto. A não ser que sejam de personagens femininos em primeira pessoa. Existe sim, o diário noturno da educação sentimental do vampiro. A sala está linda, parece uma caixa de brinquedos. Fora disso, um mundo real, quente, com um céu que contrasta com nossa garoa, cheio de ansiedade, problemas mínimos e médios e felicidade.Porque o milagre da vida nos deu uma chance de perguntar um porque pra cada coisa que existe. Porque existe uma resposta para tudo, menos para o milagre da vida, não é isso? E por isso os personagens de Beckett olham pra cima, os de Pinter pro lado, e os de Dalton pra baixo.

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