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Roberto DaMatta
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O Diabo brasileiro

Aqui, se manifesta na 'política' e na 'arte' de fazer e desfazer leis pensando nos nossos interesses

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

29 Março 2017 | 02h00

Reli, com meu alunos, A Igreja do Diabo, um dos contos mais brilhantes de Machado de Assis. Durante a discussão, tive plena consciência de como o Diabo tem sido uma figura presente na minha vida. 

Nasci canhoto. Fui marcado pelo lado esquerdo. Meus irmãos atiravam pedra e chupavam manga com a mão direita. Por que diabos eu não era como eles e usava com naturalidade e eficiência a sinistra, em vez da santificada direita? 

- Robertinho é canhoto!

A frase ressoa na minha mente e ela se liga às histórias nas quais o caminho da esquerda, repleto de ouro e pedras preciosas (hoje seria de nomeações, propinas e dólares), era o errado; ao passo que, o da direita, pobre e cheio de obstáculos, era o escolhido pelo herói. Tudo culminando com Satanás tirando com a mão esquerda a alma do estudante pobre que, com ele, fizera um pacto para enriquecer. 

Levei um bom tempo para sair dessa “outridade” entre os “meus”. Mais tarde e como estudante de antropologia, fiquei fascinado ao descobrir que um antropólogo meu xará - Robert Hertz - havia estudado o simbolismo negativo universal da mão esquerda até que, um outro francês, Louis Dumont, reviu a polaridade esquerda/direita como um dualismo completar e hierárquico no qual a esquerda - desprezada em tudo - é, contudo, a mão (ou o lado) adequado para realizar tarefas - e isso parece até uma parábola - vedadas à direita. Abençoamos com a direita, mas a mão que segura o cálice é a esquerda. Sem ela, não há alternativa ou mudança.

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No catecismo, minhas relações com o Demo ampliaram-se. Conhecedor dos 10 Mandamentos e da graduação dos pecados, não tinha mais como esconder que Deus era um interlocutor invisível e distante (mas onipresente); ao passo que o Diabo era uma presença constante (mas evitável) na minha pequena vida. Qual era a minha Igreja? 

Lembro que o mito machadiano termina com um Diabo desiludido. Afinal, a mesma hipocrisia e ingratidão devida a Deus é igualmente replicada para com o Capeta, já que ambos são obrigados a conhecer a “eterna contradição humana”. Essa contradição que faz com que o Bem e o Mal, o ódio e o amor, sejam nossos companheiros de viagem.

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Em meio a esses nobres pensamentos, aprendi (depois de levar várias reguadas na mão esquerda) a usar as duas mãos. Cheguei ao virtuosismo de poder escolher entre uma e outra e, quando descobri que o grande Leonardo Da Vinci era um canhoto, que escrevia da esquerda para a direita num código que só poderia ser decifrado com a ajuda de um espelho, decido que usaria a esquerda nos meus encontros secretos com o Demônio no banheiro; enquanto a direita seria empregada para escrever.

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Como seria o Diabo em outras sociedades e culturas? Em sociedades tribais, ele surge como um feiticeiro canibal, que troca a noite pelo dia e pratica um egoísmo negativo que impede e destrói os elos sociais. O projeto individual sem peias canibaliza o todo. O Diabo, tal como o conheço, é um símbolo das antifronteiras e das regras. Ele é um motor que enlouquece individualizando, pois, entre a negativa da moralidade e o sim do interesse individual, ele dá licença para realizar todos os desejos. No caso da sociedade brasileira, o Diabo é símbolo de um enriquecimento brutal sem trabalho e por meio de propinas inacreditáveis e, por isso mesmo, diabólicas! 

Basta ser eleito para enricar. O mecanismo que deveria igualar traz de volta a hierarquia. Aqui, o Diabo se manifesta majoritariamente na “política”, no companheirismo e na “arte” de fazer e desfazer leis pensando nos nossos interesses.

 

O Diabo sempre foi individualista. Nasceu da competição e de uma revolta e vive de projetos pessoais. Ele seduz pela confusão entre a parte e o todo, que é tão difícil de perceber na maioria dos contextos humanos e jamais foi plenamente discutida no Brasil. 

A “eterna ingratidão humana” do Diabo de Machado de Assis é uma expressão da ambiguidade brasileira. A ingratidão humana seria a desculpa para o malfeito e a má-fé. Ela transforma em ideologia uma enorme condescendência, ao lado de um profundo sentimento de culpa. 

Em outras terras, outros diabos procedem de modo diverso. Não haveria ambiguidade e ele não teria a necessidade de fundar uma Igreja e de legislar sobre isso ou aquilo conforme manda a nossa índole. Ademais, nelas, o demônio não perdoa ou perde. Pactos com o demo não seriam, dizem, revogáveis. 

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