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Ignácio de Loyola Brandão
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O dia em que os selos acabaram

Nada mais há a se admirar com este governo demente. Há de tudo

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

18 de dezembro de 2020 | 03h00

Enorme surpresa, posso mesmo dizer estupefação, teve o arquiteto Michel em uma agência dos Correios, na Vila Madalena. Levou, como faz todos os anos, e coloquem anos nisso, o primeiro lote das centenas de cartões de Natal desenhados por ele e pela Ciça Barbieri, sua mulher e também arquiteta. Todos os anos, o grupo de amigos espera para ver o que a dupla criou, ambos são designers de alto humor. Michel chegou à agência e encontrou o usual. Pessoas esparramadas, quase aglomeradas na calçada, porque, segundo o protocolo, não podem entrar. E se amontoam para poder descobrir a chamada do número da senha.

Ainda bem que a tal pandemia está no final, segundo o nosso presidente. Afinal, são apenas 180 mil mortos e mais mil a cada dia. Falando em presidente, agora temos mais um filho, o 04. Logo chegaremos ao 007, que terá licença para matar. Finalmente, Michel foi atendido e a funcionária passou um tempo conferindo cartão a cartão. “Estou a conferir os destinos, explicou.” Coisa que jamais vimos. Conferir destinos? Indagada, ela revelou:

“Se for para o México, Colômbia e Turquia não posso aceitar.”

Michel levou um susto. Qualquer um de nós levaria, pensando nas loucuras do Ernesto Araújo, o chanceler que acredita que a terra é plana e a ciência uma charlatanice. 

“Por quê? Estamos em guerra com tais países?”

“Não sei se é guerra, ou o que é! Só sei que o correio está sem comunicação com vários destinos e estes três estão no seu pacote.”

Nada mais há a se admirar com este governo demente. Há de tudo. Pois o casal presidencial não exibe em uma vitrine o terno e o vestido da posse? O terno nada tem de especial. Não é londrino, de Saville Row, nem feito sob medida em Roma, ou com o Diógenes Estilista que, no Rio, atendeu a vida inteira o Roberto Marinho, além de ser quem sempre faz os fardões da Academia Brasileira. Um craque. 

Ele, o terninho presidencial, pode ter sido comprado no Mappin, na Exposição, na Mesbla, na Isnard, na Sears, no Eron (pioneiro dos crediários), na Cassio Muniz... Epa! Estou delirando, essas lojas desapareceram há décadas, era onde comprávamos a prestação. Mas este governo parece daquela época, estamos andando para trás no tempo. Quantos anos regredimos neste período bolsonarista? Quanto ao vestido da primeira dama, deve ter sido comprado com aquele cheque de 89 mil reais, que ninguém explicou.

Há mais a se admirar. Dias depois, Michel levou ao correio a segunda parte dos cartões e pediu 80 selos. A funcionaria avisou.

“Oitenta? Meu senhor, lamento, não tem nenhum.”

“Nenhum? Alguém comprou todos? O estoque inteiro? Ou existe cota para cada cidadão?”

“Não tem cota coisa nenhuma. Não há selos. Simples assim.”

“Simples? Isso é uma catástrofe. Como não há selos?”

“Acabaram.”

“Acabaram? Correio sem selo é sorveteria sem sorvete, farmácia sem remédio, igreja sem pastor pedindo dízimo...”

“Meu senhor, entenda. Fomos vendendo, as pessoas foram comprando, lambendo e colando nos envelopes. Quando vimos, não tinha mais nenhum.” 

“Como assim? Parece o ministro Guedes. Não tem previsão de nada? Uma semana atrás trouxe um pacote de 60 cartões e foi tudo bem.

“Meu senhor, não entende português? Não temos. Nenhuma agência tem. Ninguém tem, não há previsão de reposição.”

Encasquetado (palavra que ele aprendeu em Araraquara, onde conheceu Ciça), meu amigo, que é calmo mesmo diante das maiores anormalidades – e todos sabemos que estamos vivendo o anormal dentro do normal –, voltou à carga. 

“Minha boa senhora. Em qualquer comércio, quando falta um produto, o proprietário procura repor. Ou haverá um problema, o dinheiro não entra.”

“Sei disso. Todos sabem. Pedimos os selos, mas comunicaram que não há mais. Acabaram.”

Vai ver, pensou Michel, o papel acabou quando imprimiram as notas de 200, as do Lobo Guará, que ninguém viu, e quem viu não quer, porque ninguém troca.

“Pediram a quem?

“Sei lá, acho que ao chefe do depósito, ou ao gerente, ou ao presidente da organização. Não sei, o controle de material não é comigo. Eu só recebo cartas e vendo selos. Estou muito chateada, toda hora tenho de explicar.”

“Não havia selos em outras agências? Para emprestar.”

“Olhe, me desculpe. Chega. O senhor pergunta sem parar, a conversa demora, preciso atender outros clientes. Por favor, volte depois.”

Michel retirou-se. Algum dia, há de enviar seus cartões, eles chegarão com meses de atraso, talvez anos, décadas. Pode ser que cheguem antes do centenário da Independência. Porque imagino que estamos atrasados assim. E agora meu amigo preocupa-se, pensa em vacinas, que logísticos como o general-ministro confundem com vaginas. Ele reflete e teme como será a vacinação/não vacinação, com armazenamento a 70 graus negativos. Mas, e se faltar geladeira com tal temperatura?

Feliz Natal junto aos seus. 

Junto ao seu ou a sua. 

A você consigo mesmo.

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR 'ZERO' E 'NÃO VERÁS PAÍS NENHUM'

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Ignácio de Loyola Brandão

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