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O dia da urucubaca

Descobri no Google que em 15 de março comemora-se, aqui, o Dia da Escola

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

29 de fevereiro de 2020 | 03h00

Estava eu entretido a ler tudo ao meu alcance sobre a prometida alteração no Código Penal da Espanha, visando a banir o franquismo do espaço público espanhol, quando sobreveio a convocatória eletrônica para a marcha bolsonarista do próximo dia 15 de março, visando a banir o Congresso, o STJ e o que mais puder ser extinto por um sucedâneo do AI-5 ou, presumo, por balas milicianas. 

Cada governo faz desaparecer o que bem entende. O espanhol almeja sumir com o fantasma do caudilho Francisco Franco (1892-1975) e o bolsonarista, mais ambicioso, com a democracia. Os espanhóis buscam aliviar o vergonhoso fardo do passado, eliminando da paisagem a imagem do ditador que oprimiu o país de 1938 a 1973, enquanto aqui uma falange neofascista se empenha em ressuscitar, com o beneplácito presidencial, uma ditadura que se esmerou em calar, prender, torturar e sumir com quem lhe fizesse oposição. 

Se aprovada a tipificação delituosa da apologia e do mero merchandising de Franco e do franquismo, o cidadão que infligir a lei irá para o xadrez. Se castigo similar vigorasse no Brasil, Bolsonaro nem teria sido candidato a presidente. Sua exaltação ao torturador Ustra e outras ameaças, como a de repetir aqui, em escala menor, o genocídio indonésio de 1965, em que 300.000 “inimigos do regime” foram mortos pela repressão, poderiam tê-lo colocado atrás das grades quatro anos atrás. 

Por que 15 de março? 

Por que não no dia 8, que também cai num domingo, o dia padrão das manifestações da nossa direita? Embora a exiguidade de tempo para organizá-la seja uma explicação razoável, tenho para mim que seus articuladores queriam mesmo era evitar a concorrência feminista. 8 de março é o Dia Internacional da Mulher. Se os bolsominions saíssem às ruas no próximo domingo, poderiam ser fragorosamente abafados pela manifestação concorrente. 

Descobri no Google que em 15 de março comemora-se, aqui, o Dia da Escola (ironia n.º 1) e, no resto do mundo, o Dia Internacional Contra a Violência Policial (ironia n.º 2). Riam. 

Riram? Agora esqueçam as irônicas coincidências e observem os demais eventos ocorridos num 15 de março. Alguns bem horripilantes.

Consagrado no calendário romano como os “idos de março”, foi naquela data que, em 44 a.C., o ditador da República Romana Júlio César também virou ido ao ser esfaqueado até a morte quando chegava para iniciar os trabalhos no Senado. 

Assustados, supersticiosos bolsominions? Não foi essa minha intenção. Minto: foi sim.

Uma prova de que a escolha do dia 15 para avacalhar com as nossas instituições republicanas e atiçar sua destruição foi, mesmo sem querer, uma aposta coerente é que naquela data, 231 anos atrás, Joaquim Silvério dos Reis entregou ao Visconde de Barbacena sua carta-denúncia contra a Inconfidência Mineira. 

Eta! diazinho danado de aziago e afeito a traições. Em 493, Odoacro, primeiro rei da Itália após a queda do Império Romano do Ocidente, acabou morto pelo rei dos ostrogodos, Teodorico, o Grande, durante um banquete em que ambos festejavam a bipartição do poder imperial – um estranho caso de estrangulamento amigo. Em 856, o imperador bizantino Miguel III derrubou a regência da imperatriz Teodora, o que seria bem menos espantoso se a usurpação do trono não configurasse um matricídio simbólico. Teodora era mãe de Miguel. 

Tanta coisa ruim aconteceu num 15 de março, que melhor seria consagrá-lo como o Dia Internacional da Urucubaca. 

Em 15 de março de 1545 teve início o famigerado Concílio de Trento, a mais longa e reacionária assembleia eclesiástica patrocinada pelo Vaticano, marco zero de diversas malvadezas da Igreja Católica, como o Index Librorum Prohibitorum e outras maleficências inquisitoriais. Em 1916, o presidente americano Woodrow Wilson invadiu o México com 12.000 soldados para capturar Pancho Villa, missão não cumprida, pois seu comandante, John J. Pershing, precisou ser deslocado para a 1.ª Guerra Mundial. O revolucionário mexicano viveria mais sete anos.

Àquela altura, o futuro jurista Luis Antônio da Gama e Silva ainda era criança em Mogi-Mirim, onde nasceu nos idos de março de 1913, para um futuro promissor como tríplice ministro da ditadura militar (Educação! Justiça! Minas e Energia!), ocupações merecidas porquanto antes, ainda reitor da USP, fizera do próprio punho o listão de processados e cassados daquela universidade, entre os quais os professores Florestan Fernandes, Mario Schenberg, Octavio Ianni, Paul Singer, Fernando Henrique Cardoso e outros mais com “ideias esquerdistas”. Cinco anos depois, mas não em março, Gaminha prestou-se a redigir o texto do AI-5. 

Se a Checoslováquia deixou de existir em 15 de março de 1939, quando tropas nazistas ocuparam o que restava da Boêmia e da Moldávia, em compensação o Rio de Janeiro deixou de ser Estado da Guanabara em 15 de março de 1975. Isso foi ótimo. Dez anos depois, na mesma data, José Sarney tomaria posse no lugar de Tancredo Neves. Isso foi péssimo, a recidiva da urucubaca. 

Outras calamidades estavam a caminho: a destruição, por três explosões, de uma plataforma da Petrobrás na Bacia de Campos (2001), o início da guerra civil na Síria (2011), sem contar as manifestações em 160 cidades brasileiras contra o governo Dilma (2015), que deram no que deram – inclusive na manifestação de domingo que vem. 

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