Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

O dia da 'quase' entrevista com Millôr

Em conversa com repórter do 'Estado', em 2010, escritor falou sobre o passado e o presente do País e até sobre Twitter

Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2012 | 22h55

Entrevistei Millôr Fernandes em 1 de dezembro de 2010. Quer dizer, quase. Ao chegar na sua cobertura em Ipanema para uma conversa marcada há semanas para a TV Estadão, ele desconversou. Rindo e brincando como se me conhecesse há anos, disse que tinha mudado de ideia, que não daria mais entrevista, muito menos em frente de câmera. "Você pode ficar aqui e me perguntar o que quiser. Mas sem gravar nem anotar nada". Foi o que fiz. Transcrevi as seguintes linhas, até agora inéditas, logo após deixar o prédio. "Agora volte lá para o seu jornal e escreva sobre o dia em que quase entrevistou o Millôr", despediu-se, gargalhando.Pronto, aí está.

O Brasil está melhorando? 

Melhorou sim. Melhorou muito. Tanto que o Lula sempre vem dizer que a classe média aumentou 20%, que a economia cresceu não sei quanto. O problema é que sempre se avalia isso com base numa coisa que ninguém questiona, que é a sociedade de consumo. 

Isso é ruim? 

Não quero dizer que isso é ruim ou bom, mas foi uma coisa que aconteceu. Aumentar o consumo não é prejudicial quando se fala de comida, de uma pessoa que hoje pode comprar mais carne, mais presunto no supermercado. Mas o problema é quando um menino de 3 anos de idade pede aumento de mesada para comprar um tênis, para comprar um celular. 

Quais foram as piores coisas da história brasileira recente?

A primeira foi o Sarney. Esse cara é um idiota. Até agora não entende como ele e a família conseguem dominar o Maranhão há cinco décadas como eles fazem. E ele como escritor é ridículo. A segunda pior coisa foi Brasília. Se o JK não tivesse feito Brasília, com certeza a revolução não teria demorado o que durou, duraria só uns 4, 5 anos. Imagina, a primeira vez que alguém visse o general correndo de manhã em Ipanema o cara iria gritar: "E aí general, tá virando reaça, hein?", e o general iria se tocar (risos).

Brasília também ajudou a aumentar a corrupção?

É claro. Lá fica tudo escondido, longe de todo mundo. E você não acha o JK, as empreiteiras que construíram aquilo ali não ganharam muito por fora com a obra? É claro que ganharam. Naquela época, ninguém era santo. Se hoje, com a tecnologia, o Twitter e tudo que há, já se sabe de tanta corrupção, imagina como era naquela época em que ninguém ficava sabendo de nada.

Tem como acabar com a corrupção no Brasil?

Não. Isso não tem jeito, porque a corrupção é inerente ao homem. O homem sempre foi corrupto, e vai continuar sendo.

Mas pode-se melhorar as instituições?

Ah, melhora uma ou outra, mas em geral tudo é corrupto. Pega aí por exemplo essa ação da polícia aí, no Complexo do Alemão. Estão dizendo que tão acabando com o crime organizado. Olha, para mim, o crime organizado tem nome: Judiciário, Legislativo e Executivo. O próprio judiciário quer aumentar os próprios salários em 40%, mesmo com todas as mordomias que eles já têm. Esses caras têm carro pago, gasolina paga, tem até uma cozinheira para cada gabinete, e ainda querem ganhar mais. É assim que é o homem.

Mas você disse que o País melhorou. Como um país pode melhorar se a corrupção não tem jeito?

É que a corrupção não impede que as coisas aconteçam. Ao contrário, ela até ajuda. Um governador pode construir uma ponte que custa R$ 1 bilhão, mas ela vai custar oficialmente R$ 2 bilhões. Ou seja, ele constrói a ponte e acaba ganhando por fora. Se não ganhasse, porque ele iria fazer?

Você não acredita no altruísmo?

O altruísmo existe, mas ele dura pouco tempo. Pega um exemplo: o ataque às  torres em Nova York. No começo, todo mundo é bonzinho, todo mundo quer ajudar, faz doação e tudo. Mas 24 horas depois, já entra o pessoal para saquear o prédio e poder levar tudo que consegue. É igual essa ação aí na favela também, onde os policiais tão fazendo o que querem.

Você acha que a tecnologia pode ajudar o País?

Acho. Uma coisa muito interessante é o Twitter. Hoje, não tem como o cara escutar uma crítica e deixar de responder. Antigamente, ele podia dizer que não viu, que não ficou sabendo e ficar quieto, e as coisas ficavam elas por elas. Agora todo mundo fala sobre tudo no Twitter, o assunto fica lá sendo comentado. Tanto que qualquer personalidade hoje já tem Twitter, pra poder responder a essas coisas.

O que mudou no comportamento do brasileiro nas últimas décadas? 

Acho que hoje o brasileiro tem orgulho de falar que é brasileiro. Isso é inédito, nunca tinha acontecido.

Você acha que a juventude hoje é menos combativa? 

Ué, a juventude combate quando tem algo fácil para combater. Na ditadura, tinha a ditadura. Se você der uma ditadura para os jovens hoje, eles vão combater do mesmo jeito. E iriam ainda aproveitar a chance pra transar com as menininhas revolucionárias (risos).

O que mais mudou o brasileiro?

Acho que foi o celular. Um exemplo são as empregadas. Antes, elas chegavam tímidas, com vergonha, pra pedir se podiam usar seu telefone, falavam rapidinho e pronto. Agora todas tem celular, andam pra cá e pra lá falando, combinando de dar pro cara do barzinho ali do lado (risos). O celular mudou muita coisa.

Você acha que o Brasil engatou em um ciclo de crescimento?

O Brasil tem melhorado, mas isso não significa que seja um ciclo que se siga eternamente. Toda sociedade tem seu auge, que dura algumas décadas ou séculos, e depois cai. É o exemplo que se tira da história.

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