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O Deus menino, na visão de Bento XVI

'A Infância de Jesus' tem mais a marca do teólogo do que do papa

José Maria Mayrink,

21 de dezembro de 2012 | 19h08

Foram quase dez anos de trabalho. O cardeal alemão Joseph Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, no Vaticano, ainda não era o papa Bento XVI, quando escreveu os dez capítulos de Jesus de Nazaré, Do Batismo no Jordão à Transfiguração, primeira parte de uma obra que se completa agora com A Infância a de Jesus. Entre os dois títulos, saiu Jesus de Nazaré, Da Entrada em Jerusalém Até a Ressurreição.

A intenção do autor, conforme ele revela, não era produzir uma trilogia, mas apresentar a vida pública de Jesus, com base na narração dos Evangelhos. As histórias da infância, do anúncio do nascimento à fuga para o Egito, seriam contadas num capítulo apenas. Acabou merecendo um terceiro volume, que cronologicamente deveria ser o primeiro. Sucesso editorial em mais de 50 países, os três livros foram publicados no Brasil pela Planeta, que não é uma editora religiosa.

"Não preciso certamente dizer que este livro não é de modo algum um ato de magistério, mas unicamente expressão de minha procura pessoal do 'rosto do Senhor' (cf. Salmo 27,8). Por isso, cada um está livre para me contradizer", preveniu Ratzinger no prefácio de Jesus de Nazaré. Ou seja: quem escreve não é o papa, infalível em matéria de fé, mas um escritor e pesquisador cristão que pode se equivocar ao interpretar dados históricos da trajetória do Filho de Deus. "É um livro mais para ser meditado, rezado, do que estudado", observou a teóloga brasileira Maria Clara Bingemer, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), que participou do lançamento de A Infância de Jesus em Roma, a convite do Vaticano.

Bento XVI aproveitou o tempo livre, o espaço que lhe deixava a agenda de compromissos pastorais e burocráticos, para fazer o que sempre gostou de fazer: ler, pesquisar e escrever. Parecia preocupado com a saúde, em abril de 2010, quando constatou, ao concluir o segundo volume, que a obra não estava completa. "A minha vontade é tentar permanecer fiel à minha promessa e apresentar mais um pequeno fascículo sobre tal argumento (a infância de Jesus), se me for dada ainda força para isso." Surpreendeu os assessores nas férias de verão deste ano, ao prolongar por mais algumas semanas a permanência em Castelgandolfo. Não foi para fugir do calor de Roma, mas para concluir a obra.

Na mesma linha dos dois volumes anteriores, não é bem o papa Bento XVI, mas o teólogo Ratzinger quem se projeta numa erudita e piedosa meditação sobre a vida de Jesus. Não escreve uma biografia, mas apoia-se nos textos dos evangelistas Mateus e Lucas para rememorar os fatos históricos. Ao tratar dos mistérios, e por isso mesmo coisas complicadas e inadmissíveis para quem não tem fé, Ratzinger cita respeitáveis exegetas, historiadores e biblistas, com os quais nem sempre concorda. Católicos ou não. Por exemplo, o teólogo protestante Joachim Ringleben, autor da "volumosa obra" Jesus (2008), a quem considera um "irmão" ecumênico.

Bento XVI rebate os autores que fazem derivar a narração do nascimento virginal de Jesus da história das religiões, como a geração divina dos faraós, por contato sexual dos deuses com as mães. Também menciona a quarta écloga das poesias Bucólicas, de Virgílio, texto escrito por volta de 40 anos antes de Cristo, sobre um menino nascido de uma virgem que estabeleceria uma nova ordem no mundo. O papa afirma que não se deve fazer paralelismo entre a mitologia egípcia ou a poesia pastoral de Virgílio e o nascimento de Jesus, concebido por obra do Espírito Santo. "O parto virginal e a ressurreição real do túmulo são pedras de toque para a fé", ensina.

Jesus Cristo nasceu seis ou sete anos antes do que ensina a tradição, com base em informação do monge Dionísio, falecido no ano 550, "que evidentemente errou alguns anos nos seus cálculos", conforme observa e admite Ratzinger. A explicação é que o recenseamento que levou Maria e José a Belém ocorreu no tempo do rei Herodes, que morreu no ano 4 a.C. O papa acrescenta que, de acordo com o historiador judeu Flávio Josefo, contemporâneo de Jesus, o censo foi feito no ano 6 a.C., sob o governador Quirino. Nesse caso, teria sido crucificado aos 39 ou 40 anos de idade, e não aos 33 anos, como se costuma registrar.

Mesclando estudos de exegetas com dados históricos, Bento XVI traz informações sobre o local do nascimento de Jesus em Belém, chegando à conclusão de que pode ter sido mesmo numa gruta, pois os pastores costumavam abrigar em grutas seus rebanhos. A estrela que guiou os magos, que não eram reis, mas sábios vindos do Oriente, deve ter sido não uma estrela, mas uma grande luz provocada pela junção dos planetas Júpiter, Saturno e Marte. O papa dá sua opinião na primeira pessoa, acatando argumentos de cientistas e astrônomos.

A Infância de Jesus é um livro que se pode ler isoladamente com proveito, mas quem quiser meditar com Bento XVI sobre a história de Jesus e o que significa a mensagem dos Evangelhos para o cristão nos tempos de hoje deveria ler os três volumes de Jesus de Nazaré, de preferência na ordem cronológica da narração. Concordando ou não com o papa, já que ele admite divergência.

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