Imagem Leandro Karnal
Colunista
Leandro Karnal
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O deus das pequenas coisas

Ser gentil desarma cenhos e punhos e traz à tona o melhor de cada um

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

01 Agosto 2018 | 02h00

Existe a grande ética, aquela analisada por Aristóteles e que fala das escolhas corretas para atingir a felicidade verdadeira. Também a grande ética contemporânea trata da lisura nos negócios públicos e privados e inunda nossas manchetes há alguns anos. A grande ética filosófica e política é um debate fundamental e uma prática indispensável. Hoje quero tratar da pequena ética, a etiqueta.

Muita gente imagina que aprender etiqueta é distinguir o copo correto para o vinho adequado, a maneira apropriada de segurar o escargot ou instruções para que o uso da lavanda seja natural. Lembrem-se: alguém de família aristocrática nunca precisou de uma aula sobre a lavanda porque nasceu vendo seu uso. O nosso nobre não aprendeu o correto uso do guardanapo com uma professora de boas maneiras ou em algum livro, ele viu sua mãe usando desde a infância. O ramo formal da etiqueta tem algumas regras de bom senso e outras absolutamente ridículas. Volto à origem do termo. No Antigo Regime, quando alguém que não pertencia ao círculo da polidez da nobreza recebia um convite para visitar a corte, recebia uma etiqueta, um pequeno “rótulo” com as instruções do que fazer e do que não fazer.

Não quero falar do campo do uso dos garfos e facas. Não desejo distribuir etiquetas de visita ao rei. Quero falar da etiqueta como pequena ética. O centro da etiqueta é fazer com que meu comportamento exista em harmonia com os outros, sem perturbar, invadir, desagradar ou agredir pessoas de forma intencional. Se a grande ética mira na convivência da polis e das suas instituições, a pequena ética fala do respeito microfísico do poder da gentileza. Explorei a relação entre ambas em um texto de 2016.

No recorte que quero abordar hoje, o primeiro passo é multiplicar expressões que me desloquem do centro do universo. Com palavras e gestos, devo indicar que faço parte de um todo maior e que existo, mas não vivo isolado. Assim, “por favor”, “com licença”, “muito obrigado” e o coloquial “me desculpe” indicam que desejo me harmonizar com outras pessoas, respeitar suas existências. Todos os indivíduos que me proporcionam benefícios devem ser notados para retirar seu caráter de robôs e reintegrá-los ao mundo humano. O “por favor” e o “muito obrigado” têm, ambos, o dom de aplainar o automatismo das ações, reconhecer que existe um ser humano que está me servindo e que, por pequeno que seja o gesto, deve ser notado. Se o gesto for feito por alguém que não tem nenhuma necessidade de me dirigir uma ajuda, as expressões se tornam mais enfáticas ainda. Se a pessoa que me serve, por motivos profissionais, cumpre seu estatuto laboral, as duas expressões revestem o servido com a aura da gentileza e da humanidade, reconhecendo o bom serviço e o humano que ali trabalha e cumpre bem seu ofício.

“Com licença” implica(a) plena consciência de que necessito invadir um espaço que não é meu. O coloquial e proclítico “me desculpe” afirma ao mundo minha falibilidade e meu arrependimento por um gesto ou expressão inadequados. Um pedido de desculpas, pequeno ou grande, é o simbólico reconhecimento da nossa igualdade e de que somos perfectíveis, não perfeitos.

As quatro expressões utilizadas devem ser enunciadas de forma clara e olhando nos olhos da pessoa. Sem esse cuidado, ingressam no campo do automatismo e deixam de ser uma pequena ética para se diluírem no campo oco da formalidade fria.

A cena se repete diariamente nos restaurantes. O indivíduo faz um pedido olhando para o prato ou, pior, digitando algo no celular. Sem contato visual e com a voz projetada para baixo, amiúde não é entendido e chega a se irritar com a falha que, na origem, é dele. Depois, recebe o pedido e de novo não agradece ou sorri. Malgrado o gesto grosseiro e vulgar, utiliza o talher correto para o peixe e harmoniza o vinho com sabedoria. Ele compreendeu o acessório e ignorou o principal. Se fosse um católico, saberia todas as respostas da missa com clareza, só não sabe o sentido real da sua presença na igreja.

A gentileza é a chave da etiqueta. Meu amigo Clóvis de Barros Filho acaba de lançar um livro fascinante sobre o tema: a leitura é obrigatória para quem deseja melhorar como pessoa (Shinsetsu – O Poder da Gentileza, editora Planeta).

A etiqueta empurra nosso egocentrismo para a jornada de purificação e o começo da ascensão moral. A gentileza é a chave de uma canastra inaudita que libera surpresas positivas. Ser gentil desarma cenhos e punhos. A gentileza é o deus das pequenas coisas, o antídoto ao Neandertal permanente que nos acompanha no trânsito, à mesa e no leito. A grosseria é densa e esconde nosso ser dos outros, pois é uma defesa. A gentileza traz à tona o melhor de cada um.

De tudo o que já escrevi na minha vida, o texto de hoje é o que mais eu preciso ler, reler, refletir e tentar seguir o que recomendo aos outros. Meu troglodita interno é vivo, forte e altivo. Sob a pátina de civilizado há em mim um homem primitivo e tosco. É uma luta. Sou derrotado com frequência, todavia tento, tento e tento novamente. Todas as muitas vezes que eu não consigo, peço licença a vocês, dou meu muito obrigado ao carinho e, por favor, aceitem meu proclítico “me desculpem”. É preciso manter a esperança.

Mais conteúdo sobre:
filosofia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.