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Festival de Ópera de Massada busca novos públicos

Espetáculo quer mostrar uma imagem diferente de Israel

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S. Paulo

16 de junho de 2015 | 02h05

A história aconteceu no ano 66 d.C. - e foi narrada pelo historiador Flávio Josefo. No Deserto da Judéia, a poucos quilômetros do Mar Morto, um grupo de judeus se refugiou no alto da montanha, em uma fortaleza construída pelo rei Herodes. E lá tentaram resistir ao cerco das tropas romanas, optando, em um lance dramático, pelo suicídio coletivo, única forma de evitar a captura. Por conta disso, a Fortaleza de Massada, identificada no século 19 e, a partir dos anos 1960, restaurada pelo arqueólogo Yigael Yadin, tornou-se símbolo da história do povo judeu, um dos principais destinos turísticos do país - e, recentemente, palco de um festival de ópera de proporções monumentais, que encerrou no fim de semana sua quinta edição

Criado em 2011, com uma apresentação de Nabucco, de Verdi, o Festival de Ópera de Massada acontece em um enorme palco montado aos pés da montanha em que foi construída a fortaleza. E serve a um propósito duplo - que oferece olhar sobre o modo como o gênero pode ser compreendido nos dias de hoje. O primeiro deles tem a ver com a percepção da cultura como elemento a estimular o turismo. "Ouve-se muita coisa sobre o Oriente Médio e Israel. Mas o nosso país é mais do que Benjamin Netanyahu, é mais do que o palco de conflitos. O que o povo israelense quer é uma vida normal, com música, cultura. E queremos oferecer isso também ao visitante, além do turismo religioso, obviamente muito forte", diz Hanna Munitz, diretora geral da Ópera Israel, companhia responsável pelo evento.

O segundo objetivo está na própria compreensão da função da Ópera Israel. Baseada em Tel Aviv, a companhia tem buscado ocupar espaços mais amplos. "Nós somos a única casa de ópera do país e isso traz algumas responsabilidades", diz Michael Ajzenstadt, administrador artístico do grupo. "Há uma enorme tradição musical em Israel, mas há ainda muito a se fazer com relação à ópera, seja no que diz respeito à formação de artistas, seja na construção de novas plateias. Em um contexto como esse, você atrai um público diferente, gente que nunca viu uma ópera na vida, mas se interessa pelo evento em si, pelo cenário", afirma Munitz. Por conta disso, além do Festival de Massada e da temporada lírica oficial, com oito títulos, a Ópera Israel vai promover ainda este mês, em um palco montado na Piscina da Sultão, em Jerusalém, apresentações da ópera O Elixir do Amor, de Donizetti; e, em setembro, em Akko, cidade portuária do norte do país tida como exemplo da convivência pacífica entre árabes e judeus, As Bodas de Fígaro, de Mozart.

A programação deste ano do Festival de Massada, orçada em 25 milhões de shekels (cerca de R$ 20,2 milhões), teve dois títulos: Tosca, de Puccini, e uma versão encenada da cantata Carmina Burana, de Carl Orff. Para o maestro Daniel Oren, ainda que não seja um título de proporções monumentais, Tosca se presta bem ao formato do evento. "A rigor, qualquer ópera pode funcionar aqui. No ano que vem, por exemplo, teremos Sansão e Dalila, de Saint-Saëns, e Um Baile de Máscaras, de Verdi. Mas no caso da Tosca, acho importante ressaltar que ela fala de uma mulher que prefere a morte à perda da liberdade, o que tem uma ligação clara com a própria história de Massada", diz Oren, diretor artístico da Ópera Israel.

A montagem foi assinada pelo diretor Nicolas Joel, que tem produções importantes em seu currículo e é diretor artístico da Ópera de Paris. Sua concepção é extremamente funcional e aposta em especial na iluminação, que recria os diferentes ambientes da ópera e faz dialogar com bom gosto o que se passa no palco com a paisagem natural do deserto da Judeia (em oposição ao que faz o diretor Michal Znaniecki, cuja versão "Indiana Jones" de Carmina Burana é uma ode ao kitsch). No elenco, o tenor argentino Gustavo Porta, depois de um início irregular, acabou se impondo como destaque, em especial por conta da interpretação de tons exagerados da soprano Svetla Vassilieva e do barítono Scott Hendricks.

Construindo repertório, longe de Wagner

A Ópera Israel completa, em 2015, 30 anos de atividades - mas as origens da companhia remontam a 1919, quando foi criada a Ópera da Palestina. “É uma companhia jovem, que ainda está montando o seu repertório”, explica Michael Ajzenstadt. “Nosso foco principal está no grande repertório, na obra dos autores fundamentais do gênero. Em 2016, faremos pela primeira vez uma ópera de Gounod, o Romeu e Julieta”, completa.

Óperas de Richard Wagner, no entanto, não estão nos planos. “Não há uma lógica ou motivos históricos concretos, mas a música de Wagner tornou-se o último grande símbolo do nazismo e da Segunda Guerra. Por conta disso, não vejo a possibilidade de encenarmos tão cedo uma de suas óperas.”


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