O desencanto de Günter Grass em "A Ratazana"

Na juventude, o alemão Günter Grass, prêmio Nobel de Literatura em 1999, estudou desenho eescultura. Dessa formação, provavelmente, se origina parteimportante do senso de equilíbrio e de profundidade que norteiamseus relatos. Essas qualidades estão presentes também em ARatazana (Record, 420 págs., R$ 42), com tradução de Lya Luft,romance em que ele mescla sua habitual imaginação barroca e dadaa rompantes cômicos com um certo pessimismo e alguma filosofia.Para refletir sobre os homens, dessa vez Günter Grass foibuscar um contraste nos ratos. Quantas vezes nos comportamoscomo ratos, mesmo continuando a ser humanos? O que existe em nósdo rato, esse repulsivo e desprezível animalzinho que circulapelas sarjetas e dormita no lixo - em nós, orgulhosos sujeitospensantes? Grass parte dessas perguntas, que nós fazemos naspiores horas, para avançar ainda mais: ele escreveu ARatazana empenhado em pensar aqueles aspectos, insuspeitos, emque os ratos podem ser, de fato, superiores à espécie humana.O rato costuma ser imediatamente associado à peste negrae, em conseqüência, à morte. É esfomeado, multiplica-se comincrível rapidez e tem hábitos noturnos e misteriosos. Nocélebre estudo O Homem dos Ratos, Freud mostrou como eleguarda conotações sujas (anais) e violentas (fálicas), queajudam a compor uma imagem repulsiva; mas que também ligam seunome à abundância e à prosperidade. Nas lendas cotidianas, orato é visto como um ladrão incorrigível, que só pode sercontido com a degola nas ratoeiras; no entanto, muitas criançasgostam de criar doces ratinhos brancos e os enchem de mimos. Umanimal, portanto, que guarda uma imagem cheia de feridas e decontradições.De feridas, Grass entende muito bem. Hoje beirando os 75anos, ele sobreviveu a Adolf Hitler e isso não se apaga. Suastrês primeiras grandes narrativas, entre as quais se destaca OTambor, têm como tema a vida dos alemães em Danzig, cidade emque ele mesmo nasceu e onde passou a infância, mas que hoje nãopertence mais à Alemanha, fica na Polônia e é conhecida comoGdansk. É com males não curados e forças invisíveis ouinexistentes que ele tem o hábito de trabalhar. Com esses mundosparalelos que, sobrevivendo pelos cantos, vêm desmentir oesplendor das verdades oficiais. Pelos cantos, como os ratos.Escritor engajado, Grass não faz, porém, uma literaturanaturalista, embora a realidade seja um elemento crucial em suaescrita; não a pega, contudo, pelo que guarda de superficial ede nítido, mas sim pelo que tem de cômico, de grotesco, deinconcebível e absurdo. Não é por outro motivo que seu maisimportante romance, O Tambor, é considerado pela crítica umaespécie de livro fundador da moderna literatura alemã, narrativaque veio retomar um laço com a vida, depois dos tempos perversose corrosivos do nazismo. Oskar, o protagonista de O Tambor,é um menino que se recusa a crescer - e pára efetivamente decrescer. Passa a se comunicar com o mundo, unicamente, atravésde seu tambor de lata e é armado com ele que presencia a subidaao poder do nacional-socialismo. A literatura de Grass é umaluta contínua contra a covardia - representada, no caso, pelarecusa de Oskar em se tornar adulto e responsável. Uma luta parase defrontar com a complexidade da realidade, que não cabe numafotografia três por quatro, ou num cartão de visita.O engajamento de Grass é um aspecto fundador de suaobra: entre 1969 e 74, ele chegou a trabalhar como ghost writerdo líder social-democrata Willy Brandt e depois disso, mesmo seafastando dos laços diretos com o poder, conservou o espírito decrítico duro do mundo capitalista, e sua fé, no hoje consideradoum tanto fora de moda, engajamento. A Ratazana, romance de1986, é desencantado e pessimista - embora Grass se declare umcético, sem esperança, na linha de Albert Camus, e não umpessimista. Se o homem pode vir a ser apenas um vulto na memóriados ratos, como sustentar a arrogância e o narcisismo com osquais, ainda hoje, nos concebemos em pleno vértice da criação? Ahistória de A Ratazana se passa numa época em que a raçahumana já não existe mais, em que o planeta foi ocupado pelosratos - justamente por esses bichinhos que tanta repugnânciadespertam em nós.Nada somos - somos apenas seres sonhados por ratos! Podehaver destino pior?O romance de Grass mistura muitas histórias, e entre os ratos aparecem até personagens clássicos do próprio escritor,como Oskar Matzerath, de O Tambor; agora velho, ele setornou um produtor de vídeos. Há um grupo que tenta salvar umafloresta da destruição - luta moderna, até pelo que guarda deinglório. Há os preparativos para uma festa de 106 anos, comtudo o que guarda de monótono. Pelas páginas de A Ratazanacirculam, ainda, célebres criaturas de fábulas, como o flautistade Hamelin, entre personagens dos irmãos Grimm. Em sua cozinha,o caldo da cultura alemã ora ferve, ora azeda.Grass tem uma relação ambígua com a Alemanha e já foi,mais de uma vez, acusado de traí-la. Ele se declarou, desde oinício, um inimigo da reunificação que, a seu ver - e parece queos fatos o amparam -, só poderia ser feita lentamente. Grass temo gosto de deslocar os pontos de vista tradicionais. Já em OTambor, ele deixou de lado a perspectiva dos heróis paraadotar o olhar de um menino de 3 anos. Ao retorcer os pontos devista, é a história e os valores de toda uma cultura que elequestiona, atitude que, muitas vezes, pode parecer não sóintolerável, mas também repulsiva. Como os ratos, mais uma vez.Tal relação com a história se calca, em parte, em suahistória pessoal. Aos 14 anos, contra sua vontade, Grass foiforçado a entrar para a juventude hitlerista. No Exército, viuseu batalhão ser dizimado durante um ataque militar. Foi feridoe depois capturado pelas forças americanas, que dele fizeramprisioneiro de guerra. Só depois de atravessar a esse infernopessoal, começou a estudar desenho e escultura e, por fim, pôdededicar-se à literatura. O que Grass enfrenta são os aspectosirracionais de nossa civilização, que parecem cada vez maispotentes e fora de controle; mas também os modelos "racionais"que, rígidos e insuficientes, deles não podem dar conta.Ele é discípulo declarado da tradição picaresca, que vemde Cervantes e, antes dele, dos árabes. Declara-se, ainda,inimigo das ilusões totalitárias e das utopias, de direita ou deesquerda, que cegam o homem e corrompem sua lucidez. Exibe suafúria para todos os lados, o que gera rancor e incompreensão.O pessimismo de Grass em A Ratazana, livro escritonos anos 80, é premonitório. Ele acredita que a queda do Muro deBerlim tornou o capitalismo ainda mais selvagem. A vida humanaparece cada vez mais fora de controle, mais difícil e hostil, eem contraste com ela, de fato, a rotina dos ratos em suassarjetas e subterrâneos, norteada apenas pelo relógio doinstinto, toma uma aparência mansa e consoladora. Duas décadasdepois, os vaticínios de Günter Grass só se assemelham mais emais com a realidade, paralelo que, contra aqueles que acreditamnuma arte descolada do mundo, vem apontar para a vitalidade daliteratura.

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