O desejo vira arte em "Erotica"

Sexo e arte andam juntos desde o início dos tempos. Relacionam-se com a idéia de deleite, físico e emocional, com a noção de impulso vital e a expressão consciente e inconsciente dos desejos humanos. Talvez por isso tantos artistas se dedicaram a produzir imagens explicitamente eróticas ou sutilmente sensuais e tantos colecionadores e curadores tenham buscado reunir essas imagens em acervos que potencializam seus significados individuais.Foi aberta hoje, no Centro Cultural do Brasil de São Paulo, uma seleção de qualidade, por meio de mais de uma centena de obras garimpadas no País e no exterior, e a preocupação em fazê-lo a partir de critérios precisos de escolha e edição que sobrepassem a mera alusão ao sexo. Certamente ele continua sendo o tema central. O próprio título da exposição, Erotica, designa um conjunto de textos ou imagens que suscitam ou induzem ao desejo sexual. Como o termo não existe em português com essa conotação, os organizadores optaram inclusive pela eliminação do acento para sublinhar esse aspecto. No entanto, a mostra parte sobretudo de critérios formais e estéticos. "Trata-se de uma exposição de arte; são objetos artísticos vistos como estéticos por nossa sociedade", explica o curador Tadeu Chiarelli, mostrando assim que resistiu à tentação de abrir outras portas como as da psicanálise e antropologia para abordar tema tão complexo. O surrealismo, escola em que a questão dos impulsos inconscientes e a sexualidade em particular tiveram papel central, funciona como ponto de partida. Questões caras aos surrealistas como o automatismo psíquico e a noção de "beleza convulsiva" - quando a representação é tomada como realidade, uma imagem funcionando como índice de outra coisa - estão fortemente presentes. Exemplo claro desse procedimento é a "coleção de vulvas" de Franklin Cassaro, na verdade tampas dobradas de vários tamanhos que remetem ao órgão sexual feminino, ou a concha de mar usada como objeto votivo por sociedades muito antigas e que hoje pertence ao Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. O gosto por uma certa vulgaridade desconcertante, beirando o pornográfico, é outro caminho presente, assim como os exemplos de voyeurismo e relação narcísica com a própria imagem. "Frente às obras de arte, somos todos voyeurs, sendo que o voyeur maior é sempre o próprio artista, aquele que primeiro observa a imagem que produz (enquanto ainda a produz), numa tentativa quase sempre vã de posse/fusão entre criador e criatura. Em qualquer segmento de uma erotica está sempre presente o erotismo que configura o ato de olhar", avança o curador. O tema do auto-retrato também remete a uma dupla leitura, sexual e artística, e encerra a exposição com grande intensidade (reunindo trabalhos de artistas como Eliseu Visconti, Emygdio de Barros e Luiz Zerbini), revelando ao mesmo tempo o caráter auto-erótico desse tipo de representação e sua importância ao longo da história da arte. "Muitos que já produziram auto-retratos afirmam que são poucas as relações eróticas tão ou mais intensas do que o auto-erotismo implícito nessa ação: tradicionalmente, o espelho faz a intermediação entre o olho que observa e a mão que representa", conta Chiarelli. Com 109 obras de diferentes origens, a mostra reúne desde artistas ainda pouco conhecidos, como o goiano Pitágoras, até estrelas internacionais como Rodin, Picasso, Picabia e Marquet. Há também lugar de destaque para os grandes modernistas brasileiros como Anita Malfatti, Vicente do Rego Monteiro e Ismael Nery, este, sem dúvida, a grande personalidade do evento. Além desse grande painel visual, que depois de São Paulo segue para o Rio e Brasília, a mostra também se torna ocasião para discutir de forma mais ampla a questão da sexualidade. Nessa etapa paulistana foi organizada uma série de conferências nos meses de outubro e dezembro com seis pesquisadores, entre eles o próprio Chiarelli, Ulpiano Bezerra de Menezes, Nicolau Sevcenko e José Miguel Wisnik. O modelo de conferências se repetirá nas outras cidades e o resultado dessas palestras poderá ser reunido futuramente numa publicação, afirma a coordenadora da mostra, Maria Ignez Mantovani Franco. Por enquanto será lançado um catálogo, no dia 28 de novembro. Erótica - Os Sentidos na Arte - Centro Cultural Banco do Brasil. R. Álvares Penteado, 112, Centro, 3131-3651. 10h/21h (fecha 2.ª). Grátis. Até 8/1. Abre amanhã para o público

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