O desconforto da crítica

A crítica sempre foi malvista na cultura brasileira. Nos momentos em que as coisas aparentemente correm melhor, é ainda mais. Qualquer pessoa que destoe do coro otimista é vista como um chato, um estraga-prazeres, um antipatriota. Disso deriva a noção amplamente estabelecida de que a imprensa só deveria servir para divulgar informações, para prestar uma espécie de serviço público, não para externar opiniões e instigar debates. É fato que em muitas culturas há esse desconforto com o senso crítico, mas num país que se acha predestinado à alegria tudo se complica. E isso se reflete na expectativa de um jornalismo que, afora tragédias naturais e crimes bárbaros, apenas ecoe os dados positivos.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2010 | 00h00

Os exemplos se multiplicam em todas as áreas. Na Justiça, há muitas decisões que dão mais importância a formalidades políticas do que à premissa de que a sociedade deve saber o que é feito com seu dinheiro. Veículos como TVs e rádios são proibidos de emitir juízo sobre candidatos durante as eleições. Colunistas são proibidos de usar este ou aquele termo para se referir a uma personalidade pública. Nesta semana, uma lei foi aprovada para que a vetusta Voz do Brasil, um resquício da ditadura getulista, não tenha horário fixo; a obrigatoriedade é que seja transmitida até 23 h. Mas ela não deveria nem ser obrigatória, assim como o horário político gratuito fora de período eleitoral.

Se Fernando Henrique Cardoso se queixava dos "fracassomaníacos", Luis Inácio Lula da Silva vive disparando contra os que "torcem contra", sugerindo que a imprensa é um obstáculo entre a classe política e o povo, de acordo com o mais antigo ideário populista. Ele acha que a imprensa não dá as boas notícias, mas isso é porque, como confessou, não lê os jornais; todo dia há fotos suas, nas mais diversas situações e lugares, e ao menos um índice positivo nas primeiras páginas, em geral vindos de institutos públicos claramente a serviço da propaganda oficial. Se sua popularidade é superior a 73%, em boa parte é por causa da mídia, e não apesar dela. Afinal, se a imprensa é porta-voz da "zelite", é porta-voz da indisfarçável felicidade de banqueiros e empresários com seu governo.

Na cultura, que não é saudável quando não há confronto, mesmo assim não se muda muito. Já ouvi de diversos artistas e diretores que "no máximo algumas ressalvas" são tudo que cabe ao jornalista fazer sobre uma peça ou um filme; caso contrário, ele é alguém que não quer que Shakespeare seja levado às massas... Revistas mensais culturais ou que se dizem literárias, mesmo que copiadas de modelos estrangeiros em que a crítica é fundamental, suprimem o gênero ou lhe dão poucas e escondidas páginas. As artes no Brasil, feitas à base de patrocínios públicos e por famílias muito ricas, querem tudo menos se comprometer. Quando há discordâncias, é de uma patota em relação à outra. Escritores de renome consideram que resenhar livros é uma atividade menor, é comprar brigas por nada.

É claro que no futebol isso fica ainda mais claro, dado o passionalismo inerente a ele. O ex-técnico Dunga, por exemplo, tentou ser a tradução desse momento anticrítico que o Brasil vive. A seleção era dele, era guerreira e era a representação da pátria; falar mal de seu trabalho ou de qualquer aspecto de seu trabalho, portanto, era ser contra a patriamada. Muita gente acreditou que seus treinos fechados e sua proibição de entrevistas fosse um combate a privilégios como os da Globo. Mas, primeiro, a Globo e a CBF têm tudo a ver; o que elas mais querem é induzir o clima ufanista em torno da seleção, e não por acaso todas as versões oficiais sobre fracassos em Copas como as de 1998 e 2006 foram dadas pela TV (e uma dessas versões, sobre a falta de "comprometimento" de Roberto Carlos e companhia, motivou a escolha de Dunga). Segundo, romper com privilégios é abrir mais, não fechar; é fazer como a maioria das outras seleções e permitir acesso organizado a treinos e jogadores. Nunca soubemos o real estado físico de Kaká e Júlio César, por exemplo.

Quando o Brasil venceu o Chile por 3 a 0, bastando três lances para tanto, a aprovação de Dunga foi a quase 70%. Os que escreveram que a seleção nem precisou jogar bem foram xingados do mesmo modo como Dunga xingou o jornalista Alex Escobar, sem ter sido xingado antes. Depois da derrota, porém, os erros que há muito tempo os críticos apontavam - o temperamento de Felipe Melo, a marcação ruim de Michel Bastos, a falta de jogadores jovens - foram reconhecidos. É curioso como Ricardo Teixeira sempre aparece em seguida a um fracasso em Copa e tem o diagnóstico de todos os problemas. Se o Brasil tivesse vencido, o consenso fingiria que os problemas não existiram. Como nas outras áreas, a maioria só adere à crítica quando as coisas vão muito mal. Mesmo assim, vem entremeada de desculpas. A Holanda, afinal, é um timinho...

Blogs e comunidades virtuais em geral são outro sintoma desse mal-estar da crítica. Quando alguém argumenta contra determinadas decisões políticas ou esportivas, ou aponta o que julga serem defeitos num filme ou livro, as reações raramente vêm na forma de argumentos. São insultos e falácias, ou então a crença de que basta apontar um suposto lapso para demolir o raciocínio inteiro. O que está por trás não é o incômodo com aquela opinião (e toda análise contém opinião), mas com a própria existência de uma opinião que não seja a sua. É por isso que tantas das réplicas querem mesmo é que o autor perca seu emprego, de preferência dando lugar ao próprio replicante... O mau leitor é justamente o que acha que o autor serve para dizer apenas o que ele queria dizer.

Sim, os maus críticos fazem mal à crítica também. Muitos autores não conseguem fazer crítica sem cair no ataque pessoal, sem destilar preconceitos, sem desmerecer totalmente o trabalho alheio, sem apontar o dedo para erros banais. Muitas das críticas ao governo Lula caíram no vazio porque sua ênfase era nos adjetivos ao presidente, assim como muitas críticas a jogadores famosos queimaram a língua porque criticavam suas baladas em vez de suas boladas. E pense em quantos artigos com boas causas, como a crítica à arte contemporânea, por exemplo, não estragaram essas causas ao dizer que Picasso não foi um grande pintor (sic!) ou que as instalações nem sequer são "uma linguagem" (mas não são um arranjo de signos?), desprezando qualquer hipótese de seriedade na arte atual.

Como dizia Machado de Assis, opinião assim é fruto do temperamento, não do pensamento. Mas o fato de uma crítica não ser boa não significa que não deva existir - ou que deva ser substituída pela ridicularização do outro. Vide Teoria do Medalhão. Preconceito e desprezo são más críticas; nenhuma crítica é o pior. Onde ela não é valorizada, os poderosos é que determinam o que a história dirá. E serão apenas boas notícias.

Rodapé. Na literatura, por sinal, um dos maiores sucessos de crítica na última década é o chileno Roberto Bolaño, morto prematuramente em 2003, aos 50 anos. Ele começou a publicar aos 40 anos fazendo uma média de um livro por ano, entre contos, novelas, ensaios e romances. A edição póstuma de suas obras em países como EUA e França lhe deu uma reputação intelectual que havia muito um intelectual latino-americano não desfrutava. Gosto muito de livros como Noturno do Chile e Putas Assassinas, mas suas obras mais festejadas nos círculos intelectuais são os romances, Os Detetives Selvagens e 2666. Levei este para a África do Sul e ao longo do mês atravessei suas 850 páginas.

Soube que Bolaño pretendia provar com eles que era capaz de fazer ficção de fôlego, de grande dimensão, não apenas contos e novelas. Deixou instruções para que 2666 fosse publicado em cinco partes, e o fato de ter dado um título ao conjunto justificou que sua família o publicasse num único volume. Mas confesso que achei chato. Bolaño ora assume um tom secamente objetivo, quase relatorial, ora solta sua conhecida verve, sobretudo contra "círculos intelectuais", como fizera em Detetives Selvagens. Mas a energia de sua imaginação crítica se perde na infinidade de referências e em frases sem cor como "Lia um gibi e tinha alguma coisa na boca, provavelmente uma bala" e no abuso de "então" como locução.

Sei que o efeito é intencional, mas os fatos vão se encadeando e os personagens se acumulando, entre cenas de sexo e violência, mas são poucas as recompensas, quer linguísticas, quer existenciais. A história gira em torno da busca de quatro intelectuais mexicanos por um autor recluso, com o pomposo nome Benno von Archimboldi. A última parte, que se passa na Segunda Guerra, ganha do tema uma força maior, apesar de frases como "o amor é a aparência da paz". Desconfio que boa parte do prestígio de Bolaño venha dessas tramas sobre escritores, desse pós-modernismo sem muito artifício. Prefiro muito mais o Bolaño dos livros curtos ou, para ir atrás, Borges e Onetti, cada um em seu estilo.

Por que não me ufano. Depois de tantas idas e vindas, de nomes como Aécio Neves, José Serra fechou com Índio da Costa, do DEM do Rio, como candidato a vice-presidente. Um jovem e desconhecido político, que poderia ser associado a uma campanha como a do Ficha Limpa, ou apenas uma conveniência pelo partido e pelo Estado que ele representa? Dizem que vices não são importantes, mas, enfim, são os que assumem caso o presidente venha a faltar... Enquanto isso, Dilma Rousseff mais uma vez assinou sem ler? O programa do PT para a candidata é de um anacronismo infeliz, que ela logo tratou de rechaçar, mas o cidadão tem todo o direito de pensar que, no fundo, ou caso a situação seja favorável, muitos daqueles conceitos são dela também. Decididamente, 1968 é um ano que no Brasil não terminou.

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