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O desassossego de um pintor

Museu de Arte Contemporânea de Chicago exibe 75 telas do belga Luc Tuymans até janeiro

Francisco Quinteiro Pires ESPECIAL PARA O ESTADO CHICAGO, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2010 | 00h00

Luc Tuymans é considerado um dos pintores mais importantes do mundo porque lhe falta ingenuidade. Por não acreditar no que vê, ele pinta. A descrença, porém, não é absoluta. O artista belga confia nas lições dadas por traumas coletivos e pessoais: além de violentos, os homens são incapazes de aprender com os erros do passado. Sob a dura perspectiva de Tuymans, restariam à humanidade apenas a cultura e a inteligência para se defender de si mesma.

A visão pessimista do pintor belga de 52 anos ganhou agora, nos EUA, a mostra mais abrangente da carreira. Até 9 de janeiro, o Museum of Contemporary Art, em Chicago, abriga Luc Tuymans, exibição de 75 obras criadas desde 1978. Junto a telas como Turtle (2007) e The Heritage VI (1996), a curadoria apresenta quatro séries na concepção original: At Random, Der Architekt, Mwana Kitoko e Proper. Há uma seção dedicada ao processo criativo do artista, participante da 26.ª Bienal de São Paulo e casado com a pintora venezuelana Carla Arocha. Pela primeira vez, ele revela as fotografias, as revistas, os filmes e os livros nos quais se baseia. O interesse de Tuymans vai de Branca de Neve e os Sete Anões (1937) a revistas de propaganda nazista. Nesse espaço, o visitante do museu entende a afirmação de Tuymans de que, sob o seu pincel, "os materiais e o produto final da pintura geram dúvidas sobre a obra artística". Para ele, nenhuma imagem é conclusiva nem está finalizada.

Ele diz pintar igual a uma Polaroid, máquina de fotografar instantânea cujas imagens têm qualidade imprevisível. Os enquadramentos do cinema - ele tentou ser cineasta no início dos anos 1980, mas desistiu - e da fotografia são transpostos para as telas cujas formas muitas vezes beiram a falta de sentido. Tuymans não pretende que o visitante assimile facilmente as suas paisagens, retratos e naturezas mortas, deseja antes o estranhamento que coloca em dúvida a capacidade de ver.

Esse estilo oscilante entre a coerência e a incompreensão não o impede de se proclamar pintor figurativo nem de adotar um meio tradicional como a pintura em óleo. Os quadros de cores diluídas, com tonalidades de cinza que reproduzem o céu da Antuérpia, região onde nasceu e instalou o seu estúdio, almejam a realidade. O seu método consiste em meses de pesquisa exaustiva, depois dos quais existe o prazo de um dia para pintar a tela, colocando as cores claras antes das escuras. Se não se satisfizer nesse período restrito, ele desiste da obra.

O artista mais citado por Tuymans é Jan van Eyck (c. 1390-1441), "o primeiro pintor da realidade". A manipulação do contraste e o exercício do detalhismo pelo mestre flamengo proporcionaram um realismo inédito à pintura. Tuymans se diz artista europeu. De fato, o passado bélico e as realizações culturais da Bélgica moldam o seu ponto de vista. Nenhuma obra de arte, para ele, se gera espontaneamente. Ela está calcada em eventos concretos, mesmo que passados. Não à toa, o Holocausto e o 11 de Setembro são temas de pesquisa. As figuras sem rosto de algumas de suas telas representam a incapacidade de acessar o sentido da perversidade. A maldade existe, mas é inexplicável. Em telas como W (2008) e Ballroom Dancing (2005), por exemplo, o ex-presidente dos EUA George W. Bush emerge como um fanfarrão. A banalidade do mal assusta. Depois dessas experiências horrendas, cabe à arte a tarefa de investigar os traumas da humanidade. A cultura é o que restou para os homens, diz o pintor ao Estado.

O sr. se diz um artista europeu. O que isso significa?

Ser um artista originário de um país pequeno como a Bélgica - fundado somente em 1830, depois das Guerras Napoleônicas - significa que a minha herança cultural é infestada por uma história bélica. O interessante é que, em meio ao passado violento, a região da Bélgica exerceu grande e constante impacto na cultura da Europa Central, a começar pelo mestre flamengo Jan van Eyck para chegar aos dias atuais.

Na sua opinião, as obras de arte não nascem espontaneamente. São o resultado da transformação do real em algo novo. Como o sr. transfigura a realidade em uma obra de arte?

Todas as imagens que utilizo em minhas pinturas existem de verdade. Elas vêm de desenhos, aquarelas, maquetes, Polaroids, websites, etc., todas retrabalhadas em uma variedade de formas. O fato é que os materiais e o produto final da pintura, de acordo com o meu ponto de vista, geram dúvidas sobre a obra artística. Para mim, imagens nunca são conclusivas ou estão finalizadas, elas apenas alcançam um determinado limite dentro do que chamo de a realidade do real.

O seu olhar se dirige sempre para traumas do passado, sugerindo que a tragédia se avizinha quando se ignoram os exemplos da história. Por que o exame da memória é tão crucial para as suas pinturas?

Para se entender como europeu, é preciso contemplar as consequências da história. Ao contrário do chamado Novo Mundo - que não consegue se descolar totalmente do passado de colonialismo e culturas tribais -, a história pode informar a nós, europeus, sobre o futuro. À medida que a nossa população se adensa e os nossos recursos diminuem, o que nos resta como único capital simbólico são apenas a nossa herança cultural e a nossa inteligência.

 

Anticolonialista. Tuymans ficou famoso pela série 'Mwana Kitoko' sobre o Congo dos anos de 1950.

O colapso físico e psicológico é um tema constante da sua obra. As cores empregadas pelo sr. exibem tonalidades que sugerem tristeza, desesperança e sadismo. Como podemos interpretar o seu trabalho?

Mais que tristeza, desesperança e sadismo, as tonalidades das cores em meu trabalho enfatizam a indiferença, a alienação, o distanciamento e o incômodo da incapacidade de memorizar algo sem fragmentos. Além disso, a tonalidade pode expandir ou criar uma profundidade diferente daquela proporcionada pela ilusão da perspectiva.

Por que a sua expressão artística se baseia em um meio tão tradicional quanto a pintura a óleo, certa vez tachada de arte anacrônica?

Bem antes do início de uma pintura, eu me dedico a uma extensa pesquisa de imagens e a um treinamento meticuloso. Como trabalho com figuração, é de extrema importância saber o que vou pintar e o que essa pintura significa para em seguida decidir o modo pelo qual vou pintar. Eu uso tudo, desde desenhos originais até websites. Tempos atrás, os artistas resistiam à ideia de reprodução mecânica da imagem, mas hoje acredito que continuar negando novas formas de mídia é algo sabidamente ridículo. É melhor percebê-las e incorporá-las como parte da caixa de ferramentas. Já passou a época em que um artista poderia ser caracterizado pelo material que utiliza. Embora seja tradicional, a pintura a óleo é para mim algo bem específico tanto em sua proposta quanto em sua precisão. Ela nunca será anacrônica. A sua constituição física e a sua vasta quantidade de detalhes criam um artefato que, de tão único, se torna insubstituível. Em resumo, eu pinto porque não sou ingênuo.

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