Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90

O desapego em torno do mito Elis Regina

A convite do 'Estado', João Marcello Bôscoli e Pedro Mariano falam de 'Elis'

Pedro Mariano, especial para O Estado de S.Paulo,

29 de março de 2014 | 02h10

Depois de mais de 30 anos, mesmo sem uma reunião formal (ou informal), sem nem ao menos um evento específico, decidimos reavaliar nossa posição e começarmos a ver com bons olhos a possibilidade de Elis virar enredo de filme, livro, peça teatral e tudo mais. Talvez essa irredutibilidade estivesse calçada em algum ciúme, em alguma insegurança. A busca pelo roteiro perfeito, o diretor que se eximisse de licenças poéticas para retratá-la e finalmente a atriz que pudesse encarná-la. Confesso que, no meu caso, o tempo foi um grande aliado na maturação dessas ideias.

O mais interessante foi o fato de termos baixado a guarda um instante e não demorou para que essas iniciativas se apresentassem, e começássemos essa nova etapa do que eu mesmo chamo de "desapego". Sim, porque apesar de defender a tese protecionista inerente à minha posição de filho, sou artista e acredito que a carreira que construímos passa, acima de tudo, pela percepção daquilo que mostramos e criamos àqueles que nos assistem.

Os três projetos começaram praticamente ao mesmo tempo e quis o destino que o musical ficasse pronto primeiro. Talvez o melhor modo de começarmos a falar de Elis: através da música.

Estive presente em novembro na estreia no Rio de Janeiro de Elis - A Musical, onde tentei de todas as formas deixar no hotel minhas inseguranças e supostas certezas. Em vão. Tenso e absolutamente desconfiado, assisti às 3 horas de espetáculo e ao final só uma certeza: o respeito e o profissionalismo empregados por todos os envolvidos era indiscutível. Resumindo toda a minha experiência daquela noite, disse a cada um que eu encontrava na coxia: "muito obrigado!".

Passados quatro meses, me vi na plateia para a estreia em São Paulo. Na primeira música, percebi o quanto eu havia amadurecido e o quanto foi benéfico rever todo aquele protecionismo. O espetáculo se mostra leve, divertido, bem-humorado, respeitoso e extremamente competente. Exatamente como eu imaginava que deveria ser um espetáculo sobre Elis. Laila Garin é de uma coragem e competência emocionantes. Interpretando, nunca imitando. A direção do Dennis Carvalho é de uma elegância incrível. Fechando com o roteiro de Nelson Motta e Patricia Andrade, preciso e enriquecedor.

É muito difícil não se emocionar com a história da Elis. Sempre disse que sua música era uma extensão de sua vida, não existindo linha divisória. Assistindo ao musical, isso se torna muito mais latente, tudo faz muito mais sentido. Uma oportunidade para aqueles que não puderam viver contemporaneamente a ela.

Fico muito feliz de ter amadurecido. Não tenho o direito de privar o público dela, de se emocionar novamente. Elis Regina é um patrimônio que deve ser cuidado, mas acima de tudo perpetuado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.