O desajuste social como tema

William Kennedy, autor de Ironweed, e Hector Babenco conversaram em Paraty a convite do Estado

Antonio Gonçalves Filho ENVIADO ESPECIAL / PARATY, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2010 | 00h00

Reencontro. Kennedy e Babenco dizem que seus personagens não são outsiders, mas autoexilados    

 

 

 

 

 

Parece clara a razão de o escritor norte-americano William Kennedy, de 82 anos, ter escolhido o cineasta Hector Babenco, de 64, para assinar a adaptação cinematográfica de seu livro Ironweed: ambos foram formados lendo os existencialistas franceses e os americanos da Geração Perdida. Sobre eles, Kennedy e Babenco, a convite do Estado, tiveram uma longa conversa na casa ocupada pela editora Cosac Naify durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), encerrada domingo. Ela antecipa alguns tópicos que certamente estarão em pauta no encontro dos dois amanhã, às 19h30, na Livraria da Vila Lorena (Alameda Lorena, 1.731, tel. 3062-1063).

Kennedy e Babenco têm muito em comum além das preferências literárias pelos livros de Albert Camus (1913-1960) e Saul Bellow (1915-2005), de quem o primeiro foi grande amigo desde que vivia em Porto Rico e lá encontrou seu mestre, que o incentivou a escrever. Kennedy também tem muito a ver com Hunter S. Thompson (1937-2005), criador do jornalismo gonzo, que cruzou a fronteira entre ficção e realidade ao abolir a distinção entre sujeito e objeto de sua pesquisa. O chamado Ciclo de Albany (ao qual pertence Ironweed), série de sete romances que está sendo publicada pela Cosac Naify, trata de uma família problemática da cidade natal de Kennedy. O romance representou para seu autor uma oportunidade de rever o próprio passado por meio da saga de seu personagem Francis Phelan. Seu protagonista é um andarilho dependente de álcool que um dia volta para o velório da mãe e acaba na cadeia, sendo solto por seu filho, que abandonou há 22 anos, ao deixar cair o bebê do berço em estado de embriaguez.

 

A exemplo de Francis, Kennedy, com a morte do pai, também voltou para a Albany que detestava após ter vivido fora dos EUA, mas, longe de renegar seu provincianismo, tentou entender como viviam seus habitantes. Empregou-se como jornalista do Times Union e assinou uma série de reportagens investigativas sobre os desocupados de sua cidade, material que lhe serviu para escrever Ironweed. Babenco identificou-se de imediato com o livro, pois teve igualmente experiências dramáticas como deslocado social antes de se tornar um diretor internacionalmente conhecido e premiado. Se não esteve à beira de cavar túmulos em cemitérios para sobreviver, como o vagabundo Francis Phelan, foi obrigado a vender lápides até conseguir convencer produtores a apostar em seu talento, dirigindo depois filmes como Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981) e O Beijo da Mulher Aranha (1985), entre outros.

 

Foi esse último filme que fez Kennedy acionar seu agente literário e dar o sinal verde para Babenco, que logo conseguiu a adesão do ator Jack Nicholson. "Ele considera esse o seu melhor papel no cinema", garantiu o escritor, que escolheu Babenco por sentir firmeza e delicadeza no tratamento de O Beijo da Mulher Aranha, história criada pelo argentino Manuel Puig (1932-1990) sobre um guerrilheiro seduzido por um homossexual na prisão. Essa é outra característica que aproxima os dois: tratam de personagens socialmente desajustados com um olhar que rejeita o julgamento moral da sociedade. Ambos se recusam a aceitar que esses sejam outsiders. Defendem que eles não foram expulsos dessa sociedade, mas pularam fora dela por não concordar com suas regras de conduta. Seriam, em síntese, autoexilados. E são os preferidos tanto de Kennedy como de Babenco, pois espelham justamente a crise de uma sociedade que recusa reconhecer a força moral de personagens como Francis Phelan ou Molina, o gay contador de história de O Beijo da Mulher Aranha, que abdicaram de um lugar social para afirmar sua identidade.

 

"Você tem que viver à margem do mundo se o quiser mudar", observa Kennedy, recordando Bellow e citando Phelan como exemplo de um personagem obrigado a se reinventar o tempo todo, "alguém, enfim, destinado a usar sua experiência existencial para se transformar", conclui, referindo-se ao mais conhecido livro do amigo Saul Bellow, As Aventuras de Augie March (1953), sobre a jornada de um americano com ideais românticos na juventude e cínico na velhice, modelo assumido para a construção de Francis Phelan. "Ele escolhe ser um vagabundo, não foi compelido pela miséria, o que me fascinou desde o início em Ironweed", diz Babenco a respeito do personagem de Kennedy. "Não há melodrama nele, mas até uma certa ironia."

 

Talvez por isso a primeira obra literária a provocar Babenco na juventude tenha sido Nadja, do surrealista André Breton (1896-1966), romance publicado em 1928 sobre um narrador que inventa uma mulher para perseguir pelas ruas de Paris. A personagem deslocada assume dimensão real no delírio de seu criador e acaba internada num hospício. O cineasta, como Breton, viveu a juventude de um sonhador em sua terra natal, a Argentina, lendo os existencialistas e ouvindo as canções de Juliette Greco, experiência retratada no autobiográfico Coração Iluminado (1998). "Sempre admirei mais a prostituta do que a pessoa que ganha dinheiro decentemente", resume Babenco, justificando a razão de os personagens de seus filmes estarem sempre à margem, como os de Kennedy. "O importante é dar voz a quem não é considerado pela sociedade."

 

Existem vários formas de legitimar o discurso dos marginalizados, seja por meio de um relato jornalístico ou ficcional. Kennedy tentou ambas. E assume que a ficção lhe dá mais prazer, no sentido de a literatura não ser apenas uma "coleção de fatos", mas uma via de interpretação filosófica que tanto pode ser dramática, como no caso de Camus, como irônica. "Nathanael West é um bom exemplo disso", argumenta Kennedy, citando Miss Lonelyhearts (1933), livro passado na época de Depressão, em que um colunista, assinando sob o pseudônimo do título, dá conselhos para desesperados nova-iorquinos sobre sexo, religião e tudo o mais, até entrar numa crise depressiva pela avalanche de problemas dos seus leitores. Kennedy conhece poucos escritores contemporâneos capazes de escrever de forma tão sardônica sobre a miséria humana. "Talvez Don DeLillo, Corman McCarthy, ou ainda Joyce Carol Oates, mas não sei o suficiente sobre outros autores mais jovens para fazer comentários.

 

Roteiros. "Hoje se escreve como se compra pipoca", dispara Babenco, condenando a forma "mecânica" usada pelos autores para traduzir o drama alheio. "Não sei se Colum McCann faz ou não boa literatura, mas posso dizer que há os que escrevem de fora para dentro e os que escrevem de dentro para fora", diz, referindo-se ao irlandês que dividiu uma mesa de debates com Kennedy na Flip. Babenco não chegou a repetir a experiência de escrever um roteiro com William Kennedy, que trabalhou com outros grande cineastas, entre eles Francis Coppola em Cotton Club. O diretor de Ironweed buscou depois deles outros escritores estrangeiros para filmar, entre eles o islandês Halldór Laxness (1902-1998), autor de Gente Importante e ganhador do Nobel de 1955, e O Mar, do irlandês John Banville, uma reflexão sobre a morte, dama sinistra que passou bem perto de Babenco e desistiu dele. A exemplo dos seus personagens, o diretor não se entrega tão facilmente. Nem Kennedy, que caçoa da "indesejável das gentes" como um bom descendente de irlandeses: com um copo de uísque nas mãos.

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