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O desafio do casal

'Começou nova fase: seu amigo tem esposa. Você a trata com o máximo de carinho e respeito, afinal, foi a escolha dele. Porém, você e ela possuem pouca intimidade'

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2021 | 03h00

Você tem um amigo muito especial. Ele lhe acompanha há anos. Estudaram juntos. Suas conquistas foram saudadas com genuíno entusiasmo e suas dores, compartilhadas com empatia. São confidentes. Como é da natureza das coisas, ele encontrou uma companheira e se casou. Você foi até padrinho. Que felicidade!

Começou nova fase: seu amigo tem esposa. Você a trata com o máximo de carinho e respeito, afinal, foi a escolha dele. Porém, você e ela possuem pouca intimidade. Surgiu a necessidade de um desabafo? Não dá mais para fazer como na época de solteiro. Ele tem uma família, não pode ser “alugado” em um sábado à noite para ouvir seu drama. E se, para piorar, a mulher do seu amigo tiver o hábito de ficar sempre junto ao marido? Como resolver o novo patamar que a vida oferece ao afeto entre vocês?

A história se repete. Sua melhor amiga se casou e o marido é chato. Ela escolheu aquele homem. Você não pode e não deve criticar. É um terreno perigoso. Sabe que o discurso negativo pode ser desgastante para a relação de vocês. Não obstante, o cônjuge é, definitivamente, azucrinante. Sim, sua vontade de estar com a pessoa querida é enorme, mas o pacote da amizade ganhou um bônus complexo. Como resolver?

Tenho uma pessoa que me contou algo mais no campo do desnível do casal. Seu grande amigo era muito desejado nas festas. Conversa boa, carisma e animação: modelo de bom convidado. Infelizmente, ele se casou com uma mulher insuportável. O que fazer? Perder o bom ou incorporar a ruim? O grupo da minha amiga tomou uma resolução sábia: cada convidado da festa tinha de ficar meia hora conversando com a esposa do simpático. Era obrigatório. Uma espécie de pedágio. “Quer estar na festa? Tem de conversar com ela por meia hora.” Após o período probatório doloroso em que a vítima era metralhada com observações desagradáveis, fazia um sinal de socorro e vinha o substituto ou a substituta. Convencionou-se que meia hora era o possível para um ser humano tolerar aquela pessoa. Enquanto uma vítima era imolada no altar do bem comum, os outros se divertiam e riam com intensidade. O sistema sofisticou-se com listas prévias e até concessões subjetivas: “Hoje eu estou bem, posso ficar 45 minutos” ou “Pelo amor de Deus, o mês está difícil, hoje só tolero 20 minutos”. Todos compreendiam que havia dias em que o prazo de meia hora era excessivo ou em que se poderia oferecer um “chorinho”. Notava-se, inclusive, que, liberto daquele “ordálio” (provação medieval extrema vista como sinal divino), todo convidado acabava ficando mais feliz depois e as festas ganharam um ânimo extra. E a chata? Voltava mais alegre a sua casa, tendo conversado com quase todos do evento e despejado sua personalidade desagradável de forma democrática sobre o grupo. Ressalto para minha querida leitora e para meu caro leitor: a história é real. 

Os casos variam. Citando pessoas que conheço, posso indicar tipologias variadas: ela é ótima, ele bebe demais e dá vexame; ele é agradabilíssimo, ela quer ir embora cedo e fica insistindo nisso; ele é positivo ao extremo, ela é um chá de boldo forte... Não sei na sua experiência – na minha, é raro um casal com mesmo padrão de qualidades sociais. 

Se já existe o desafio quando você encara um casal, imagine com novos modelos como “trisal” ou “poliamor”. As formas em si são válidas, claro, todavia aumentam a matemática do caos. E se seu amigo estiver com duas pessoas? Há, claro, a hipótese de duas pessoas agradáveis mais o seu amigo. Lembremo-nos, não obstante, do princípio universal conhecido como lei de Murphy: “Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível”. Já imaginou se o seu amigo ou amiga chegar com duas pessoas insuportáveis? Isso complica a solução descrita um pouco antes de convidados voluntários para o martírio em nome da fé no grupo. 

E o casal fascinante em dupla? Tarsila do Amaral conheceu Oswald de Andrade e brotou um amor intenso. Ele? Genial, escritor, bem-humorado. Ela? Brilhante, pintora de primeira grandeza, culta e agradável. Ambos aristocratas elegantes e com conversas que eram o centro das atenções. Chegaram a criar um nome para o casal: TarsiWald. Foi uma dupla de encanto homogêneo, pelo menos até Oswald ter uma aproximação com outra mulher brilhante: Patrícia Rehder Galvão, conhecida como Pagu. Bem, ainda temos tal desafio: o casal interessante pode terminar o casamento. 

A pergunta já deve ter lhe ocorrido. Como aquela sua amiga tão bacana, tão agradável e tão positiva foi namorar/casar com um tipo tão insuportável? De que forma seu amigo que teve tantas pretendentes legais foi ficar, justamente, com a mulher mais chata? Escolhas afetivas são difíceis de ser ponderadas por testemunhas externas.

Não tenho uma solução perfeita para o problema que denominarei de “desnível do casal”. Um dos dois será, sempre, mais agradável, carismático ou de fácil convívio. Aceitar? Esperar o fim? Selecionar alguém para distrair a parte problemática? Bem, a pandemia tinha suspendido o problema. E agora? Boa semana de sociabilidades. É preciso ter esperança, bons amigos e boas escolhas. 

*Leandro Karnal é historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, autor de A Coragem da Esperança, entre outros

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