O desafio de unir pop com erudito

Crítica: João Marcos Coelho

O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2012 | 03h10

Avaliação: Bom

Além de ser necessariamente breve, a canção popular precisa ter uma estrutura repetitiva, senão não se torna imediatamente memorável. Esse é seu maior objetivo, está no seu DNA. Como então unir a música contemporânea, que nega a repetição e busca o novo, com um gênero popular que faz da repetição o seu fundamento? Esse o desafio a que se propôs o pianista francês Alexandre Tharaud em seu projeto "Piano Song", uma suíte de 15 peças curtas por ele encomendadas a seis compositores contemporâneos baseadas em canções pop do último meio século.

"São minhas duas grandes paixões", disse Tharaud ao público apenas razoável anteontem à tarde na Sala São Paulo, antes de tocar. "Dois gêneros que não conversam muito (...) Pedi que fizessem ao menos uma referência explícita ao tema da canção pop." Mas apressou-se em arrematar: "Este é um verdadeiro recital de música contemporânea que homenageia a música popular".

Vários dos compositores interpretados por Tharaud - aliás, ótimo em música contemporânea, como demonstra seu admirável CD com peças de Mauricio Kagel - caíram no conto golijoviano de clonar ralamente sucessos pop. Caso das peças de Régis Campo, em que Tharaud deu gritinhos ridículos emulando astros pop em transe (em Bad Boy, baseada no megahit Bad, de Michael Jackson") e recorreu a truques banais, como colocar o virador de páginas tocando nas cordas em La Javanaise.

A parte bem-sucedida ficou por conta de Gérard Pésson, em aventuras interessantíssimas. Em Noir Dormant - Acalanto em Baixa Voltagem, retrabalhou uma canção de Barbara, cantora e compositora francesa de sucesso nas décadas do pós-guerra; levantou o público com uma versão extraordinária do clássico My Way imortalizado por Frank Sinatra, mudando-o para Why May? - Marcha Elegíaca. O ouvido ora mergulha em Sinatra, ora se desencaminha para sons remotos. Pésson, em texto no programa, diz que age como "nas pinturas de Arcimboldo, em que o rosto de uma mulher é constituído por um acúmulo de flores. Esse tipo de imagem na imagem, de boneca russa gráfica, tem em alemão o belo nome de Vexierbild ".

Vincent Bouchot envolve suas versões em moldura e forma barrocas, no caso uma suíte de danças. E Thierry Pecou mantém sempre o pulso em Madonna Erotica; quando o ouvido popular sente-se à vontade, inicia-se uma delirante torrente virtuosística, "como se um gravador de som tivesse disparado", na sua expressão.

Ao todo, foram 60 minutos de um quebra-cabeça contemporâneo que manteve o público atento mais pelas alusões pop. Será que vale esse tipo de truque de marketing para atrair plateias para a música de hoje?

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