O desafio de uma atriz que costura para dentro

Aos 60 anos de carreira, Camilla Amado faz sua primeira peça infantil, no Rio

Daniel Schenker , Especial para O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2013 | 02h16

RIO - Camilla Amado comemora 60 anos de carreira com um desafio: pela primeira vez, participará de um espetáculo infantil. Trata-se de O Jardim Secreto, inspirado no livro homônimo de Frances Hodgson Burnett, lançado em 1911 e já transportado para o cinema por Agnieszka Holland, em 1993. "Quis fazer um trabalho para os meus netos. Eles me viram recentemente no palco em O Lugar Escuro (de Heloisa Seixas, direção de André Paes Leme), mas eu interpretava uma personagem que sofria com o mal de Alzheimer", afirma Camilla, referindo-se à montagem pela qual foi indicada para os prêmios Shell e Cesgranrio.

Em cartaz no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, O Jardim Secreto, que fala sobre autoconhecimento e o valor da amizade, tem outro significado especial para Camilla: a possibilidade de ser dirigida pela própria filha, Rafaela Amado, que divide a função com Mariah Schwartz. "A filha não aparece. Vejo uma entidade de diretora implacável com frestas de humor. Rafaela possui um método. No início, fiquei perdida. Até que lembrei da frase de Clarice Lispector: 'Tem gente que costura para fora. Eu costuro para dentro'. Rafaela conduz o ator de modo minucioso, ao contrário de muitos diretores que se preocupam mais com o espetáculo", assinala.

Em O Jardim Secreto, obra adaptada por Renata Mizrahi, Camilla interpreta a governanta Gertrudes, que proíbe a menina Miranda de brincar na casa de seu tio, Heitor. Por intermédio do jardineiro Nicolau, a garota descobre que, desde a morte da mulher de Heitor, ninguém teve permissão para entrar no jardim. Curiosa e cansada das muitas proibições, ela consegue acesso ao local com Gregório, filho de Heitor, que vive trancado no quarto, proibido de interagir com qualquer pessoa.

A personagem contrasta com o espírito libertário de Camilla Amado, que foi influenciada pelo convívio com os pais, Gilson Amado, fundador da TVE, e Henriette, educadora. "Ninguém ensina nada. Cabe extrair o que cada um guarda dentro de si. Educação é tratar bem o outro", ressalta ainda.

Camilla começou a dar aula cedo, atividade que mantém até hoje como preparadora de atores, função na qual se tornou referência em todo o Brasil. "Quando fiz 14 anos, meu pai disse: 'Eu te dou casa, comida, roupa lavada e só'. Minha mãe me aconselhou a dirigir alunos em Aululária, de Plauto, em latim, e em O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, em francês", conta.

A ligação com o teatro despontou ainda antes, pela proximidade com Henriette Morineau (1908-1990). "Eu era pequena e fui ver O Casaco Encantado, de Lúcia Benedetti, com Morineau. Minha mãe era amiga dela e me levou no camarim. Vestida de bruxa, ela me pegou no colo. Na frente do espelho foi tirando a maquiagem. A bruxa sumiu e apareceu a Morineau sorrindo. Fiquei fascinada", recorda.

Ao longo da carreira, Camilla, que é também produtora teatral, firmou elos determinantes, a começar por Morineau. Muito tempo depois de tê-la conhecido, foi informada de que Morineau estava internada num hospício. "Fui até lá e ela surgiu cercada por loucos que gritavam: 'Eu quero pular o muro'. Ela disse: 'Agora todo mundo quieto que eu vou conversar com a minha amiga'. Aí eu perguntei: 'O que a senhora acha que aconteceu com o teatro?' Ela respondeu: 'O teatro recuou'."

Com o ator e diretor Luís de Lima, estabeleceu parceria longeva. Sob a condução dele, participou de Espetáculo Ionesco. Voltou a trabalhar com Lima nos textos de Ionesco, décadas depois, e na encenação de Um Equilíbrio Delicado, de Edward Albee, nos anos 1990. Também travou vínculo duradouro com Miriam Mehler, atriz que substituiu em O Anjo de Pedra, de Tennessee Williams, montagem do Teatro Brasileiro de Comédia. "Nós nos conhecemos desde mocinhas e sinto enorme admiração por ela", elogia Mehler.

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