Diego Padgurschi
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O desafio de se isolar na quarentena com os filhos

Mães e pais cuidam de tudo em casa ao mesmo tempo; psicanalista Ilana Katz explica que ninguém deve ter a pretensão de manter a rotina que tinha antes do isolamento

Renata Cafardo, O Estado de S. Paulo

15 de abril de 2020 | 05h00

Ane bloqueou sua agenda para reuniões online entre 11 e 14 horas e colocou um aviso: “cuidando da minha filha”. Camilla fez uma planilha em que estabelece quando é a vez dela ou do marido de trocar fralda, dar comida ou fazer a bebê dormir. Giovanna se esforça para trabalhar no último mês de gestação e precisa dividir disposição e computador com os dois filhos maiores, cujas atividades escolares remotas não param de chegar. São mães e pais sobrevivendo ao isolamento determinado pela pandemia de coronavírus no Brasil e no mundo. 

A psicanalista Ilana Katz explica que ninguém deve ter a pretensão de manter a rotina que tinha antes da quarentena, mas a situação é mais difícil ainda para quem tem filhos. “Todas as atividades do cuidado da criança, que eram divididas com escola, funcionários domésticos, membros da família, tudo isso ficou debilitado agora”, diz. “É tudo o tempo inteiro e sem intervalo. O tempo inteiro de escola, o tempo inteiro de trabalho, de filhos, de cuidado com a casa, no mesmo lugar e sem variação de contatos. É muito excesso, muita sobrecarga.”

A professora universitária Fabíola Faria, de 43 anos, precisa dar aulas online com um dos filhos ao lado. O outro, ela deixa na televisão. “Percebi que o lance é não deixar os dois juntos, se não começam a me chamar ou brigar.” Ela diz que o trabalho “triplicou” depois do fechamento da faculdade porque teve de aprender a preparar aulas online e ainda ficar disponível para os alunos no WhatsApp. “Não consigo fazer nem uma caminhada. Ou estou em aula, ou estou com os meninos, e à noite eu quero dormir.”

Ilana defende que as empresas flexibilizem o trabalho para mães e pais e não exijam o mesmo desempenho de antes. O LinkedIn e o Google, duas gigantes de tecnologia, fizeram políticas semelhantes após a pandemia para quem tem filhos. Permitem que os funcionários reduzam a carga de trabalho, agora em home office, e ainda tornou-se possível pedir até quatro semanas de licença remunerada. 

A economista Ane Martins da Silva, de 36 anos, mãe de Liz, de 3, pôde organizar o trabalho em turnos que intercalassem o cuidado com a filha. “Começo a trabalhar antes das 7 horas. É quando consigo fazer as atividades de maior concentração”, conta ela, que mora em Londres e é gerente de produto para a América Latina da TransferWise, empresa de transferência de dinheiro para o exterior. 

Ane reveza horários com o marido para ficar com a filha, que passava o dia todo na escola, agora fechada. “É bem desafiador ter ela do meu lado quando tenho que trabalhar. Ela não brinca sozinha e temos que ficar sempre a entretendo.” Em uma reunião online, outro dia, a menina entrou vestida de Mulher-Maravilha e apareceu na câmera para os colegas da mãe.

Segundo a TransferWise, fatos como esse estão sendo tratados com normalidade e há recomendação para os 14 escritórios no mundo facilitarem a situação de quem tem filhos. Até um CEO já apareceu com bebê no colo em um dos encontros.

Empatia

“Sempre fui ativista do movimento feminista, mas só quando se é mãe, está na pele, você consegue saber que cada filho é um, cada maternidade demanda uma atenção”, diz Camilla Feliciano Lopes, de 39 anos, mãe de Maria Flor, de 11 meses. Ela é uma das fundadoras da Mediação On Line, uma startup que faz intermediação de acordos extrajudiciais. A experiência de mãe na quarentena também a ajudou a flexibilizar o trabalho das suas funcionárias na mesma situação. 

Antes do isolamento, Camilla ficava fora de casa das 8 horas até as 19 horas e Maria Flor era cuidada por uma babá. Foi por isso que ela sentiu necessidade de criar a planilha para organizar as tarefas da casa e da bebê. “Tem muita coisa para fazer, é muito cansativo, como empreendedora eu tinha muita liberdade de ter meu tempo para criar. Agora, é primeiro o tempo dela para depois ter o meu.”

Giovanna Balogh, de 38 anos, que tem uma agência de comunicação e trabalha como doula, precisa dedicar boa parte do seu dia a ajudar os dois filhos a fazer as atividades que a escola tem mandado. “Não tem a menor condição, não sou pedagoga, cada hora chega um vídeo novo e eles não conseguem fazer sozinhos. Precisamos parar de trabalhar para ajudar”, diz. 

Fora isso, está grávida de Teresa, que nasce no mês que vem, e sofre com a angústia de ter um bebê em meio à pandemia. “Meus pais não poderem conhecer a neta me dói demais. Não ter minha mãe por perto para ajudar, que mora a 15 minutos de casa, é muito triste.” O chá de bebê foi organizado online e as amigas mandaram entregar os presentes. 

Rodrigo Flores, de 33 anos, tinha ajuda de uma diarista e dos sogros, que agora também estão isolados. Sua mulher trabalha na área da saúde, sai de casa cedo e volta apenas às 15 horas, quando então ele começa a se dedicar exclusivamente ao trabalho como gerente de engenharia do Nubank. “Conversei na empresa e foram bem compreensivos.”

O Brasil tem ainda um número crescente de famílias monoparentais, apenas com a mãe, em que a situação é mais complicada. E, mesmo com casais, é comum a mulher ficar com a maioria da carga do cuidado dos filhos. “É preciso fazer uma rotina que inclua compartilhar tarefas entre o casal e também com as crianças, isso é importante no efeito que vamos vir a colher no futuro dessa experiência difícil que estamos atravessando”, diz Ilana. 

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