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O desafio de criar leitores

A crítica e ensaísta Beatriz Sarlo fala sobre tema de sua mesa na Jornada de Passo Fundo

, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2011 | 00h00

Uma das maiores críticas literárias e, ao mesmo tempo, incontornável voz de oposição política na Argentina, Beatriz Sarlo conhece hoje mais da política que da produção literária brasileira. Ao mesmo tempo em que fala com desenvoltura sobre a forma como Dilma vem imprimindo seu caráter "irredutível" e "moralizante" ao governo, diz ter pouco acesso a autores brasileiros contemporâneos - entre os que admira, estão Milton Hatoum, que leu traduzido, e Chico Buarque, cujos romances conheceu em português.

Também a política tem sido mais associada ultimamente a Sarlo que à literatura na Argentina - seu título de ensaios La Audácia y el Cálculo: Kirchner 2003- 2010, uma crítica ao estilo kirchnerista num mundo midiatizado, tem frequentado a lista de mais vendidos no país. Mas é sobre leitura, ou sobre a formação do leitor, que ela vem falar nesta sexta na 14.ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, que começa hoje, em mesa da qual também participa seu conterrâneo Alberto Manguel. Na conversa a seguir, ela trata do tema.

Em Modernidade Periférica (1982), lançado aqui em 2010, você cita que o governo argentino foi importante para a criação de um público leitor. Como foi?

O Estado deu instrumentos educativos para que se pudesse constituir esse público. Desde o fim do século 19, o governo argentino tem como política uma educação pública, gratuita e obrigatória. Naquele período, também procurou nacionalizar os imigrantes nas escolas públicas, o que ajudou a atrair leitores para a imprensa jornalística e para os romances.

E como é o público leitor na Argentina hoje?

O público está dividido, como na maior parte dos países do mundo, em três tipos: o público que lê best-sellers no sentido mais estrito, esses fabricados para ser muito vendidos. Em geral, traduções, como Ken Follet. Outro é o que lê o que chamo de literatura de qualidade, que não é o que para mim é boa literatura, mas dá a impressão de trabalhar com as marcas da boa literatura. Essa não é a literatura que leem nem os críticos nem os escritores nem o terceiro segmento do público, que lê a literatura mais experimental, mais difícil. Ao segundo segmento chamo de literatura de qualidade tomando o nome do que nos EUA se chama de quality films. Esses são não as obras de arte, mas os filmes médios, benfeitos, sem grandes problemas, que vão para as grandes salas.

Nos últimos anos, tem-se trabalhado no Brasil em nome da implantação de bibliotecas públicas. Na Argentina isso já aconteceu com força há mais tempo?

Há uma rede de bibliotecas populares em todas as províncias argentinas há uns 100 anos, que às vezes têm características razoáveis ou até baixas. Mas há essa rede e várias iniciativas provinciais para criar um clima favorável à leitura. De toda maneira, há que se pensar que a literatura hoje passa pela internet e por aqueles que têm acesso à internet.

A internet pode ser positiva para a formação de leitores?

Depende do nível cultural e de alfabetização da pessoa que tem acesso a ela. Assim como no século 15 se inventou a imprensa e no século 18 surgiram as bibliotecas circulantes, hoje há a internet. Não se pode prescindir dela. Muito do que lemos hoje nós o fazemos comprando, baixando e imprimindo a partir dela. O que temos de ver é como trabalhar no nível público com isso e quais são as novas formas estéticas que podem surgir aí.

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