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O desafio da banana

Virtude final da fruta: seu nome é escrito igual em quase todas as línguas, até em alemão!

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2021 | 03h00

Gosto de temas elevados e dramáticos: ascensão e queda de impérios, o sentido da existência, o choque entre civilização e impulsos. Porém, na metade de dezembro de um ano complicado, permito-me descer um pouco e fazer uma reflexão densa a partir de um recorte trivial: o ponto das bananas.

A banana é presente na dieta de quase todo o planeta. É fruta fácil, nutritiva e auto-higienizada. Compare-se com a sofisticada romã que, para oferecer seus benefícios, exige habilidade extrema do candidato a comê-la. O sabor intenso do abacaxi não se revela de forma automática. O coco tem duras barreiras alfandegárias. Nosso brasileiríssimo pequi pode ser risco médico sem instrução prévia sobre espinhos. A banana é generosa e fácil. Em dose individual, sacia o apetite de um ser humano. E basta! Mais, ela vem em cachos, fraciona-se em pencas, serve-se esmagada ou in natura. Faz bolos maravilhosos e doces tradicionais. Orna a cabeça de Carmen Miranda e, com alguma calúnia, caracteriza repúblicas onde tudo se revolve com maracutaias. Algo barato? Preço de banana! Permite até saber a idade: se brincar com a cena de alguém comendo com prazer a forma sugestiva da banana, é, com certeza, um tiozão! A banana é nossa! A banana é agro! A banana é pop!

A banana tem um defeito, contudo. Ter uma banana madura por dia é ato de estrategista avançado. Você precisa avaliar o produto no super ou na feira. Muito verde? Demorará alguns dias. Tem uma técnica: embrulhar no jornal, mas ter um jornal em casa é sinal de certa maturidade, não da banana, mas do leitor do jornal. Sempre há o risco: todas amadurecerem juntas. A banana compartilha com a jaca o dia exato e único em que amadurece: comer um dia antes é desagradável e esperar um pouco mais atrairá as famosas drosófilas, as mosquinhas que pairam sobre o que é podre ou que está prestes a abandonar o mundo dos vivos. Jaca verde trava até imaginação. Banana verde, ao menos, tem a possibilidade da fritura, especialmente a chamada “banana-da-terra”. Ter uma banana em ponto de uso na sua cozinha é para profissionais, ou para quem se dispõe a ir mais de uma vez por semana ao mercado ou feira.

Para piorar: filhos e netos podem querer comer duas, ou nenhuma, e seu delicado equilíbrio familiar desaba vergonhosamente. Chega o dia em que seu rebento, ansioso e faminto, faz o pedido trivial, rasteiro, de uma banana. O medo de toda mãe e de todo pai: “Filho, acabaram-se as bananas”. Então, o infante olha com cara recriminadora, identificando sua falha na gestão doméstica. Que desastre, e, pior, em um país tropical! Você se sente, literalmente, um banana...

Há mais de 30 anos, entrando em um supermercado de São Paulo pela primeira vez, perguntei a uma atendente onde eu encontrava a banana-caturra. A moça me olhou com estranheza. Era um regionalismo gauchesco. Como adivinhar que a banana grande, no Sudeste, seria banana-nanica? Que contradição! 

Por fim, a banana é solidária na escassez. Você está desprovido de recursos. Seu refrigerador tem uma água e um pote já vencido de margarina. Tem uma banana, única, um pouco passada, mas ainda não fatal ou tóxica. Você pode descobrir um pote antigo de canela, um mel talvez (mas serve um açúcar comum ou mascavo), e colocar a sobrevivente da austeridade em um prato no micro-ondas, cortá-la ao meio e, com uma pulverização da especiaria que moveu os portugueses e uma nuvem doce, surgirá uma sobremesa consoladora. Acrescentando um queijo (mas daí já seria só no dia de pagamento) surge um doce intitulado Cartola. Sobraram umas três bananas e você tem açúcar mascavo? Esmague as frutas e acrescente igual quantidade de açúcar. Leve ao fogo até desgrudar um pouco do fundo. Uma bananada saudável e um amparo para você escapar da tristeza das vacas magras. A banana é popular!

Minha avó fazia cuca de banana. Além de incorporadas à massa, algumas eram cortadas sobre o prato e cozinhavam com a farofa crocante de açúcar e de canela. O cheiro evoca minha infância. Mais velho, conheci banofe e se tornou um dos meus pratos preferidos. Um doce de banana acompanhado de um sorvete de gengibre ou canela parece ser uma ambrosia do Olimpo. Banana e aveia? Nutricionistas batem palmas até com os pés. A casca, poucos sabem, tem muitas utilidades culinárias. Apenas devemos evitar... escorregar nela. À milanesa, ela acompanha filé à cubana, aquele prato maravilhoso de quem não quer longevidade ou os cansaços da terceira idade. Não encontrei filé à cubana na ilha homônima. Deve ser o bloqueio ianque. Para ser sincero, também não encontrei filé à milanesa na capital da Lombardia. Milão é sofisticada demais para essas coisas comuns fritas...

Virtude final da fruta: seu nome é escrito igual em quase todas as línguas, até em alemão! Se a vida te der uma banana, vingue-se e esmague duas com mel e canela, salpique flocos de aveia e seja feliz. 

Assim, minha querida leitora e meu estimado leitor, percorremos um pouco do tema trivial e maravilhoso da banana. Preferia temas filosóficos e geopolíticos? Já voltarei a eles. Tenha sempre esperança e bananas em casa.

PS: registro minha gratidão eterna a Fabiana que, de forma diligente, garante as bananas da casa. No ponto! 

* Leandro Karnal é historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras e autor de A Coragem da Esperança, entre outros

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